A razão é demasiado sabia para poder defender-se da sua estupidez mais estupida. Quanto mais nobre é a qualidade da razão, tanto mais infame é a categoria da estupidez que lhe corresponde. Os métodos da episteme humanista ocidental são tanto mais exatos quanto mais indefinido é seu objeto, tanto mais científicos quanto menos se presta seu objeto a ser enfocado cientificamente. As faculdades das universidades estalam pela pesada estupidez de seus professores, Delenda est Cartago!

Na episteme humanista ocidental o que é estupido o é de maneira gigantesca, por isso é inapreensível. A estupidez se torna cada vez mais vulgar, e justamente por sua vulgaridade, escapa aos cada vez mais sutis instrumentos do controle intelectual. Não parece que a episteme ocidental seja capaz de solucionar essas contradições, nem sequer pode registra-las, posto que estejam por baixo do seu nível..É um escândalo que até agora não tenhamos encontrado um jeito de expressar a ignorância! E que, portanto, devamos expressar sempre e exclusivamente nosso conhecimento, nosso “domínio da matéria”. Quando nos instalamos em uma tribuna e tomamos a palavra, não há o que fazer: Temos que saber – para nos instalarmos, fazemos o possível para parecermos instalados – não podemos não saber ou saber mais ou menos, não podemos indicar, nem sequer com um gesto ou um olhar rápido que o que sabemos está cheio de lacunas e é muito aproximado… E que só serve, talvez, para a ocasião…
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Olhe todos esses festins do intelecto; essas concepções! Descobrimentos! Perspectivas! Sutilezas! Publicações! Congressos! Discussões! Instituições! Universidades! E, no entanto, quanta estupidez! Devo advertir que a lei: Quanto mais inteligência, mais estupidez a formulo sem brincadeira. E o princípio da proporcionalidade inversa parece afetar a essência da questão, pois quanto mais nobre é a qualidade da razão, tanto mais infame é a categoria da estupidez que lhe corresponde; essa estupidez se torna cada vez mais vulgar, e justamente por sua vulgaridade, escapa aos cada vez mais sutis instrumentos do controle intelectual… Nossa razão é demasiado sabia para poder defender-se de uma estupidez tão estupida. Na episteme ocidental o que é estupido o é de maneira gigantesca, por isso é inapreensível. Permitir-me-ei, a título de exemplo, indicar a estupidez que acompanha nosso, cada vez mais sofisticado, sistema de comunicação. Qualquer um reconhecerá que esse sistema foi magnificamente desenvolvido nos últimos anos, são muitas publicações, críticas, resenhas, ainda que certa literatura esteja do lado do informe, ou do inacabamento. Mas o que poderia ser tido como “excesso de riqueza” conduz ao cansaço de tudo, de modo que essa crescente excitação e aceleração vão acompanhadas de uma crescente distração e indiferença. Resultado: Ao invés de um crescente entendimento, um crescente mal entendido. E por desgraça não parece que a episteme ocidental seja capaz de solucionar essas contradições do sistema comunicativo, nem sequer pode registra-las, posto que estejam por baixo do seu nível… a impotência ante a estupidez mais escandalosa é o sintoma mais característico de nosso tempo.

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O problema fundamental de nosso tempo, aquele que domina por inteiro toda a episteme ocidental não é o problema da História, nem o da Existência, nem o da Práxis, ou da Estrutura, ou do Cógito, ou do Psiquismo, nem nenhum dos outros problemas que tem ocupado o campo da nossa visão. O problema principal é: Quanto mais inteligência, mais estupidez. Volto a ele, ainda que o tenha abordado em várias ocasiões… A estupidez que experimento – cada vez mais e de maneira mais humilhante – que me assola e me consome, aumentou muito desde que me aproximei de Paris, a cidade mais estupidizante do mundo. Não creio ser eu o único a sentir-se dentro do seu alcance; parece-me que todos aqueles que participam na grande marcha da consciência não puderam silenciar o som de seu passo que nos acompanha..Tenho me perguntado e me pergunto agora mesmo como estabelecer a lei que determine da maneira mais concisa possível esta situação particular do espírito europeu. Não encontrei nada melhor que: QUANTO MAIS INTELIGENCIA, MAIS ESTUPIDEZ. Com efeito: Não falo aqui daquele contingente de estupidez que cedo ou tarde, será suprimida pela evolução. Aqui se trata da estupidez que vai par e par com a razão, que cresce com ela. Não sei. Quando leio. Quando escrevo. Quando participo. Quando atuo. Em todos os lugares encontro a lei: Quanto mais inteligência, mais estupidez. É curioso que, enquanto nosso esforço espiritual ao longo dos séculos esteve dirigido a libertarmos da estupidez, a superá-la, no mesmo seio da humanidade a estupidez parece coexistir e crescer com a razão. Quanto mais tende nosso espirito, através dos séculos a pretensamente liberar-se da estupidez e a dominá-la, mais parece que a estupidez se atrela à inteligência. O dito processo civilizatório assegura à estupidez um papel nada desdenhável. A humanidade se compõe de homens, mulheres, jovens e crianças e isso já produz uma eterna oscilação renascendo também a estupidez em cada geração. Não é ela necessária a certos modos de vida? Acaso sem ela a mulher quereria parir? Seria possível sem a estupidez, a ordem, a disciplina, o trabalho mecânico? Poderiam funcionar os trens, os escritórios, as fábricas sem esse lubrificante em todas as suas engrenagens? Seria suportável a morte sem essa ligeireza, sem essa estupida frivolidade? O esforço da episteme ocidental humanista para “purificar-se” da estupidez, não encontra confirmação nas suas formas de pensamento e organização, por mais que pareça o contrário. Serei menos estupido há alguns séculos pelo que escrevi aqui? Santo Deus! Não. Não é mais que uma alusão, uma sugestão, um esboço, uma espécie de introdução. Pode-se descer do trem em movimento? Dar com a cabeça na parede? Para quê? Para que saibam que a parede existe. Quem não sabe? Todo mundo sabe, todo mundo sabe de tudo, mas é um saber “muito consentido”. Mas que devo fazer comigo? Estou metido nisso! Não há ninguém na episteme humanista ocidental que, consciente do seu absurdo, não forme parte dele. Aqui, não escrevo mais do que dez por cento do que deveria, não mais. Sapiente Sat . E além disso, quem escreve? Quem? Diga? Quem fala em mim quando falo? Não sei. É um escândalo que até agora não tenhamos encontrado um jeito de expressar a ignorância! E que, portanto, devamos expressar sempre e exclusivamente nosso conhecimento, nosso “domínio da matéria”. Quando nos instalamos em uma tribuna e tomamos a palavra, não há o que fazer: Temos que saber – para nos instalarmos, fazemos o possível para parecermos instalados – não podemos não saber ou saber mais ou menos, não podemos indicar, nem sequer com um gesto ou um olhar rápido que o que sabemos está cheio de lacunas e é muito aproximado… E que só serve, talvez, para a ocasião… Desde o campo de todas as discussões que agitam o pensamento ouviremos pouquíssimas vezes uma voz que comece por: “não sei direito… não conheço…não li muito bem.. quem poderia lembrar de tudo… Não tive tempo para ler… sei um pouco disso, sim, mas não muito…” E sem dúvida seria preciso começar por aí. Mas quem se atreveria? Poderiam arriscar-se talvez, mas todos ao mesmo tempo, depois de terem prestado juramento! O pensamento ocidental humanista é, pois, enganoso. A forma de “transmitir” o pensamento tem sido a mesma desde tempos imemoriais – isso parecia não estar sujeito à evolução -, sempre era o mesmo fio de palavras correndo através do papel. E esse verme verbal agora alcançou o sol! Porque não gritam que não podem mais? Vou dizer algo sobre a evidente estupidez dos métodos, doentes da mesma contradição interna da qual já falei. Os métodos da episteme humanista ocidental são tanto mais exatos quanto mais indefinido é seu objeto, tanto mais científicos quanto menos se presta seu objeto a ser enfocado cientificamente. As faculdades das universidades estalam pela pesada estupidez de seus professores, Delenda est Cartago!

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Uma conhecida minha me contou que, em uma ocasião, enquanto estava tomando chá chegou seu tio Simon. Como? Perguntei. Seu tio Simon faz cinco anos que está no cemitério! Precisamente, ela me respondeu, venho do cemitério com o mesmo terno que lhe pusemos no dia do enterro. Cumprimentou-nos, sentou, se serviu de um pouco de chá, falou conosco sobre a próxima colheita e depois voltou ao cemitério. — Como? E vocês o que fizeram? — Que poderíamos fazer nós frente tamanha insolência… É também assim que o pensamento ocidental é incapaz de responder a lei: Quanto mais inteligência, mais estupidez. Tem que relacionar-se com uma estupidez demasiado insolente…

 

Diário (1953-1969-2014)

Witold Gombrowicz e coletivo W.A.G.H.D

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