Afinal, do que é que estamos tão esgotados?

ESGOTAMENTO.

Seja na clínica, na arte ou na política há um circuito que vai do extenuamento do possível ao impossível, e dele à criação do possível, sem qualquer linearidade, circularidade ou determinismo. Trata-se de um jogo complexo e reversível entre o “Nada é possível” e o “Tudo é possível”

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O esgotamento não é mero cansaço, nem uma renúncia do corpo e da mente , porém, mais radicalmente é fruto de uma descrença , é operação de desgarramento, consiste num descolamento – em relação às alternativas que nos rodeiam, as possibilidades que nos são apresentadas, aos possíveis que ainda subsistem, aos clichês que mediam e amortecem nossa relação com o mundo e o tornam tolerável, porém irreal e, por isso, mesmo intolerável e já não digno de crédito.
O esgotamento desata aquilo que nos “liga” ao mundo, que nos “prende ” a ele e aos outros, que nos “agarra” às suas palavras e imagens, que nos “conforta” no interior da ilusão de inteireza (do eu, do nós, da liberdade, do futuro) da qual já desacreditamos há tempos, mesmo quando continuamos a eles apegados. Há nessa atitude de descolamento certa crueldade, sem dúvida, da qual os textos de Beckett não estão de modo algum desprovidos, mas essa crueldade carrega uma piedade outra. Apenas através de uma tal desaderência, despregamento, esvaziamento, bem como da impossibilidade que assim se instaura, e que Deleuze chamaria de rarefação (assim como ele reivindicava vacúolos de silêncio para que se pudesse, afinal, ter algo a dizer) advém a necessidade de outra coisa que, ainda pomposamente demais, chamamos de “criação de possível”. Não deveríamos abandonar essa fórmula aos publicitários, mas tampouco deveríamos sobrecarregá-la de uma incumbência demasiadamente imperativa ou voluntariosa, repleta de “vontade”. Talvez caiba preservar, de Beckett, a dimensão trêmula que em meio a mais calculada precisão, nos seus poemas visuais, aponta para o “estado indefinido” a que são alçados seres, e cujo correlato, mesmo nos contextos mais concretos, é a indefinição dos devires, ali onde eles atingem o seu efeito de desterritorialização.

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O esgotado aparentemente uma figura passiva (…) e uma afirmatividade vital incontornável (…)“não há mais possível: um espinosismo obstinado.”

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Figuras-átomos, moléculas singulares. O esgotado com as combinatórias não serve para nada.. A morte do eu..

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Distinção entre cansaço (preferências claras) e esgotamento (inação, puro testemunho amnésico, afásico)

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Esgotamento do possível (dado de antemão) utopias, projetos de outro mundo, ideologias como condição para alcançar outra modalidade de possível (ainda não dado) por fazer..

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É esgotando o possível que o criamos

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Esgotado suporta pouco as palavras (linguagem é o domínio do possível).

Extratos e recolhas de Peter Pál Pelbart. 2013.

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