Crítica aos direitos humanos I – Crítica ao trabalho e aos direitos humanos está no cerne da postura que cresce na Europa

Estou me perguntando se, pela primeira vez neste fim de século, estaria surgindo na Europa um “verdadeiro” antiamericanismo. Na Europa do século 20, certamente houve fortes tendências antiamericanas. Fascismos e comunismos denunciaram a plutocracia americana. Mais tarde, milhares de bandeiras americanas foram queimadas contra a constituição da Otan, na defesa do Vietnã vermelho e contra o apoio norte-americano às ditaduras latino-americanas. Mas estes protestos nunca foram “realmente” dirigidos contra os valores americanos: queriam denunciar o papel de polícia imperialista da política dos Estados Unidos, mas punham só parcialmente em jogo, e muito parcialmente, a civilização americana, o “american way of life” e o alastramento dos modelos de consumo americanos. Por outro lado, se os soviéticos sempre lutaram contra o capitalismo americano, a sua utopia declarada era a de “ultrapassar” os EUA, de ganhar dos americanos na produtividade do trabalho e no confronto tecnológico para o domínio do espaço.
Minha convicção é a de que as lutas para a hegemonia internacional do século 20 se desdobraram na base da assimilação dos valores americanos. Como poderia ser de outro modo? Se o problema do século 20 foi o da luta de classes e se o único método para a vitória, a moderação ou a superação da luta de classes era (como por muito tempo se pensou no século 20) o progressismo, onde havia progressismo havia americanismo. O progressismo forjou a linguagem política do século 20, de modo por vezes descarado nos regimes do “socialismo real”, em maneira dissimulada e amiúde servil nos países da Europa fascista.
Certamente o alastramento de certos modelos consumistas americanos era escarnecido, por vezes combatido, mas sempre por breves períodos: Hollywood, divórcio, Coca-Cola, jeans, música pop, drogas leves, McDonald’s, língua inglesa… por vezes encontraram resistência, mas sempre obstáculo fragilíssimo à sua afirmação. Se, depois, passarmos da superfície à essência do fenômeno, dois exemplos bastarão para nos dar a medida da grande profundidade do americanismo europeu no século que está passando.
O primeiro, entre a década de 20 e de 30, é o da adesão de Lênin e de Gramsci (os dois únicos pensadores comunistas do século) à ideologia e às tecnologias americanas da produção, do taylorismo ao fordismo. O segundo, entre as décadas de 60 e 70, é o da adesão da quase totalidade da intelligentsia européia à doutrina americana dos “direitos humanos”. Isso confirma que a idéia americana do trabalho e da liberdade dominou a cultura européia do 20º século.
Hoje, na Europa do euro, parecem estar vindo à tona, pela primeira vez, sentimentos e posições ideológicas “realmente” antiamericanas. Não se trata somente, é óbvio, de um novo ímpeto de concorrência no terreno comercial, insuflado pelo renovado poder monetário europeu. E nem sequer só da irritação e do ressentimento que a hegemonia americana no éter (e portanto na formação das linguagens e das culturas) provoca em quem, desaparecido o perigo soviético, reivindica a autonomia das nações e uma renovada territorialização dos valores.
Tampouco se trata somente daquele novo fundamentalismo de esquerda que, de luto pelo desaparecimento do socialismo real, desenvolve a sua saudade, se remetendo a valores antigos, genealogicamente alternativos aos americanos. Trata-se de um antiamericanismo mais profundo, que tem seu ponto de apoio em dois momentos fundamentais: a crítica do trabalho e a crítica dos denominados “direitos humanos”, assim como são concebidos, defendidos e por vezes impostos pela hegemonia norte-americana. Em que consistem essas novas posturas?
A crítica do trabalho consiste em considerar o trabalho (não apenas o que está a serviço do capital, ou seja, o trabalho assalariado, mas também o trabalho útil, sem mais) não uma dignidade, mas uma condenação absurda; e em considerar a idéia de riqueza por meio da propriedade individual, da especulação e do consumismo, não apenas um furto em relação ao resto da sociedade (que é pobre), mas auto-exploração e corrupção de si próprios. A esta recusa do trabalho, junta-se, em positivo, a idéia de que é possível produzir com cada vez menos fadiga e de modo cada vez mais cooperativo, que a riqueza produzida é comum, com a qual se pode ganhar a maior felicidade para todos.
A crítica aos direitos humanos ataca a natureza abstrata (e portanto estatística e hipócrita) do próprio conceito de direito, vendo nele nada mais do que a garantia da individualização das necessidades e do egoísmo dos comportamentos apropriativos; e, no sistema constitucional dos direitos, a máquina de consolidação dos interesses dos fortes contra os fracos e o impedimento absoluto à construção de sistemas produtivos e biopolíticos livres e comuns. Mas, vão dizer, isso não passa de humanitarismo socialista de retorno! Assim seria se esses comportamentos antiamericanos fossem alimentados pela tradição… Mas, ao contrário: são o produto, nas consciências, do mais alto nível de desenvolvimento da tecnologia e das novas experiências da vida civil.
A rejeição ao trabalho e a pretensão a uma ordem cooperativa da sociedade nascem dos trabalhadores do imaterial, são alimentadas pelo próprio modo em que estes trabalham (e são explorados), correspondem àquele paradoxal “individualismo de comunidade” em que vivem. Quanto à crítica aos direitos humanos, esta surge das experiências de milhões de cidadãos que lutam contra a nova pauperização do proletariado e contra a exclusão de multidões inteiras da sociedade produtiva.
O sentido de absoluta precariedade de toda a conquista social e da reversibilidade da fortuna dos indivíduos e dos grupos inquieta as consciências e as impele ativamente à busca do comum, contra as mistificações do egoísmo de apropriação. São estes valores “realmente” antiamericanos? Eu creio que sim. São valores que se opõem à idéia de que “o trabalho gera riqueza e felicidade” e à correlativa concepção de que “liberdade e direito” oferecem o âmbito ideal para o natural e positivo desenvolvimento da humanidade.
Pois bem, replicam os antiamericanos, não é verdade: estes valores são contrafactuais, ou seja, desmentidos pela experiência da vida. Mas fica subentendido que, se estes comportamentos antiamericanos estão surgindo agora, pela primeira vez, de modo massificado, na Europa, não faltam nos EUA. Ao contrário, foram, primeiramente, concebidos por lá. Trata-se de um verdadeiro paradoxo: até o “antiamericanismo” é americano, mas agora está crescendo sobretudo na Europa, pela primeira vez, e se generaliza nos comportamentos das multidões.

Antonio Negri é filósofo italiano, autor de “A Anomalia Selvagem: poder e potência em Spinoza. (Ed. 34), entre outros;

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