A História da Psicopatologia no Brasil – Benilton Bezerra Jr.VÍDEO E TRANSCRIÇÃO INTEGRAL DA PALESTRA

 

 

 

 

A HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA NO BRASIL1

Benilton Bezerra Jr

Eu vou apresentar aqui algumas ideias que eu espero suscite uma conversa entre nós sobre Psicopatologia e sobre algumas mudanças que no campo da Psicologia vem acontecendo nos últimos anos e um pouco do horizonte que se prenuncia atualmente. O primeiro ponto que eu gostaria de comentar é o seguinte: a Psicopatologia é geralmente entendida como um campo específico do conhecimento: Psico-Pathos-Logos – o estudo do sofrimento psíquico.

Nesse sentido é uma área especial da Psiquiatria em especial, mas não só da Psiquiatria e que envolve a definição, concepções do que seja doença mental, descrição do que são as doenças mentais, delimitação das categorias, montagens de qualificação etc.

Esse é um aspecto importante e sobre o qual eu espero que a gente possa conversar, porque justamente é uma das coisas mais importantes no campo psi, no campo da psiquiatria, não só da psiquiatria, no campo social que é impregnado pela presença das teorias, dos conceitos e da prática psiquiátrica, tem havido o desenvolvimento de uma mudança muito grande nos últimos 40 anos, ou seja, nos últimos 100 anos a gente viveu uma mudança drástica, para alguns, uma revolução, para outros um pouco desastrada mudança na direção de uma psicopatologia que eu vou inventar de escrever daqui a pouco.

Mas, além disso, e talvez seja esse o aspecto que eu acho mais interessante a gente discutir. A psicopatologia também diz respeito à vida cotidiana no sentido de que nós todos e hoje em dia cada vez mais absorvemos conceitos, palavras e que nós usamos nas nossas relações sociais, o tempo todo. Nós usamos cada vez mais para nos autodefinirmos, nós usamos para dar nome a certos sentimentos, cada vez mais, isso é uma característica dessa mudança, nós recorremos ao vocabulário psiquiátrico. Isso não sem consequências, é sobre isso também que eu gostaria que a gente pudesse conversar.

Então, de certo modo, o primeiro ponto que eu gostaria de dizer, é claro, tudo que eu vou dizer pode ser contestado por pessoas que pensam de maneira diferente, mas é assim, é assim que é bom, a gente pode dar as opiniões e vê-las confrontadas por pessoas que pensam de modo diferente.

A primeira ideia que eu gostaria de acentuar, é o seguinte: embora a psicopatologia como disciplina, digamos assim, como parte do campo médico pretenda muitas vezes se apresentar como uma atividade científica, ela não é. A psicopatologia ela é uma atividade permanente, pelo menos nos últimos 200 anos desde que se criou a ideia mesmo de doença mental e se criou a psiquiatria e tudo o que gira em torno dela um exercício constante de demarcação do que é a normalidade do que é a diferença, mas ainda não patologia e do que é uma diferença que a gente considera patológica e, portanto que merece e que exige algum tipo de intervenção.

Então, de certa forma, psicopatologia é uma coisa da qual todos nós participamos na medida em que nós, como membros de uma sociedade caucionamos ou criticamos essas palavras que apontam, nomeiam, classificam positiva ou negativamente certas experiências psíquicas e certos comportamentos. O que faz com que uma experiência que um de nós possa ter ou uma conduta que a gente possa apresentar seja considerada patológica, não é alguma coisa que se decida cientificamente no sentido de uma objetividade que não presta nenhum tributo a avaliação subjetiva. Ao contrário, se a gente pode dizer que o sofrimento psíquico, o sofrimento tout court (00:06:05/09), ele é inerente à existência humana, e isso Buda já dizia há 2.500 anos atrás: “viver é sofrer”. Por quê? Porque a vida, ela sempre implica frustrações, implica limites, implica acasos infelizes e, se há uma coisa que nos caracteriza em relação a outros animais que têm mentes, é o fato de que nós sofremos, sabendo que estamos sofrendo e nos interrogando sobre as causas e sofrimentos e agindo de maneiras complexas em relação a ele e não de maneira meramente automática como qualquer animal pode fazer.

Então, a psicopatologia como exercício da, deixe dizer de outra maneira, a demarcação das fronteiras entre normalidade, diferença e patologia é um exercício constante de toda a sociedade e a gente vai, ressalva, de toda a sociedade desde que se constituiu esse campo específico da psicopatologia e isso tem pouco tempo, 200 anos mais ou menos.

Como exemplo dessas movimentações no campo da psicopatologia, é curioso a gente lembrar de alguns diagnósticos que foram inventados, utilizados e depois jogados no lixo, por quê? Porque em grande parte refletiam de maneira muito aguda percepções contextuais que foram deixadas para trás.

Quando se começou a construir ferrovias nos EUA, surgiu um diagnóstico que era o diagnóstico da espinha ferroviária railuby spine, era um diagnóstico que era dado para pessoas que supostamente tinham traumatismos pelo sacolejo dos trens, uma novidade na época. Durante horas seguidas, os médicos chegaram a conclusão que aqueles sacolejos produziam uma espécie de traumatismo mínimo que fazia com que o sistema nervoso central ficasse alterado e as pessoas ficassem nervosas, ansiosas etc e tal. Esse diagnóstico, ele foi, teve uma presença, evidentemente, sumiu.

Outros diagnósticos surgiram, por exemplo, Kraepelin, que é um grande psiquiatra, o fundador, digamos da psiquiatria classificatória científica é a grande figura que hoje em dia influencia a maneira, o olhar psiquiátrico. Emil Kraepelin, no final do século 19, produziu a primeira grande classificação psiquiátrica. Ele, por exemplo, falava das parafilias, ou seja, das práticas e excitações, imaginações sexuais parafílicas, significa fora do que deveria acontecer e ele incluía entre as parafilias a sexualidade na velhice e na infância.

Kraepelin não tinha a noção de que sexualidade fosse alguma coisa que as crianças experimentassem e muito menos achava que velhos, e velhos vocês imaginem que no final do século 19, era a partir dos 50 você já estava mais ou menos candidato a ser considerado um ancião. A sexualidade era considerada por ele uma estranheza, uma espécie de conduta fora do normal.

Talvez, o diagnóstico mais extravagante com o qual eu me deparei é o de drapetomania foi um conceito inventado por um psiquiatra americano no século 19 e que significava um delírio, ou seja, um impulso irracional, a fuga que era típica de certos grupos de pessoas, dos escravos. Os certos escravos tinham essa doença, ou seja, tinham um impulso a fugir e buscar a liberdade. Isso contrariava a natureza do escravo e, portanto era evidentemente uma patologia. O tratamento da drapetomania, eu não preciso explicar qual era. Era um tratamento de contenção desse impulso antinatural.

Há outros diagnósticos também que mais recentes a gente está falando que os psiquiatras e médicos do século 19. Mas, se a gente pensar bem, a homossexualidade deixou de ser considerada como uma patologia começou a ser considerada como uma patologia no século 19 deixou de ser considerada como patologia há muito pouco tempo atrás, em 1974. Foi quando, apenas por pressão dos movimentos “gays”, a homossexualidade, depois de uma votação e de uma espécie de plebiscito, se decidiu que a homossexualidade não deveria ser considerada uma patologia.

Há outros casos de diagnósticos que são muito específicos numa certa cultura, por exemplo, o da personalidade múltipla, um transtorno que é muito típico dos EUA houve quase uma epidemia durante um tempo e depois sumiu.

A histeria na época de Freud era um diagnóstico bastante comum, era digamos o sistema da época e hoje em dia em uma presença completamente diferente.

A depressão que nos anos 50, acometia, segundo as estatísticas 2% da população hoje em dia, aparentemente, segundo as previsões e cálculos epidemiológicos atingirão, um em cada quatro pessoas ao longo da vida.

Então, vocês veem como o quadro das chamadas doenças mentais ele varia conforme o contexto. Alguns diagnósticos simplesmente aparecem, desaparecem, outros vão mudando de nome, é o caso da psicose maníaco depressiva que transformou-se no transtorno bipolar e a gente vai ver depois, a importância que teve essa transformação vocabular no lugar que essas pessoas ocupam socialmente da maneira como as pessoas se identificam e com isso a gente pode começar a pensar na importância que tem o vocabulário psicopatológico na vida das pessoas, de uma maneira geral, de todos nós, mesmo aqueles que não temos ainda diagnóstico psiquiátrico, nós o tempo todo usamos, hoje em dia qualquer pessoa usa a palavra Autista como uma certa liberdade, usa a palavra bipolar com uma certa liberdade. Todo mundo enxerga crianças com provavelmente TDAH, a gente vai incorporando esse vocabulário e isso de novo, não têm poucas consequências.

De todo modo, eu queria falar rapidamente sobre o que foi essa mudança fundamental que ocorreu em 1980 precisamente com o surgimento da 3ª edição do DSM. O DSM para quem não sabe é um sistema de classificação diagnóstico de doenças psiquiátricas criadas pela psiquiatria americana, mais adotada pelo mundo inteiro. Não era pra ser, transformou-se na bíblia do psiquiatra e essa mudança do DSM III, ela foi fundamental. Por quê? Até o final da II Guerra Mundial, a psicopatologia ela era fundada numa certa concepção do sofrimento psíquico, como uma espécie de dilaceração interna, vivido como um conflito, um enigma a ser decifrado, de tal maneira resumida todo sintoma era considerado signo de alguma coisa, o sintoma uma depressão, uma fobia, um delírio, eles tinham alguma significação, aquilo remetia a alguma coisa especial na trajetória singular daquele indivíduo na sua relação com o meio.

Então, ser tomado por um sintoma, era quase automaticamente interrogar-se sobre o que está acontecendo comigo, tratar de um sintoma era tentar entender o que na vida daquela pessoa é engendrou a casos, circunstâncias que levaram aquela pessoa estar sofrendo daquela forma.

Esse paradigma, digamos assim, se devia a várias razões: a influência de Freud desde final do século 19, a influência da fenomenologia ao longo dessa primeira metade do século 19, a ausência de terapias biológicas. Para vocês lembrarem, o primeiro remédio antipsiquiátrico de fato, surgiu em 1950 e poucos, a clorpromazina. Antes disso, nenhum tratamento biológico, nenhum medicamento especificamente psiquiátrico havia, de modo que, a terapia pela fala, a terapia de base psicossocial era basicamente o que havia no horizonte terapêutico.

Em 1952 com o surgimento da psicofarmacologia, uma coisa mudou radicalmente e de lá pra cá, o impacto dos psicofármacos só tem feito aumentar. De novo, se nos anos 50/60, tomar um antidepressivo era alguma coisa que as pessoas tendiam a esconder, hoje em dia as pessoas exibem, dizendo: “meu antidepressivo é melhor do que o seu”, “qual é o seu?”, “você toma quanto?” etc, “isso aqui eu já tomei”.

A indústria farmacêutica, ela teve um sucesso extraordinário, é uma das áreas da economia mais lucrativas. Isso teve um impacto poderoso na mudança do paradigma da psicopatologia, da psiquiatria.

Um outro elemento fundamental foi a crise de legitimidade da psiquiatria nos anos 60, sobretudo 70, torpedeada de vários lados. De um lado, pelo fato de que os críticos externos à psiquiatria diziam que o diagnóstico psiquiátrico não tem confiabilidade nenhuma.

Cada psiquiatra diagnostica de um jeito muito pessoal, era verdade. As escolas francesa, alemã, inglesa e americana, cada uma tinha um sistema de qualificação e aqui no Brasil, haviam os discípulos das escolas francesas, americanas, inglesa, da escola alemã, sobretudo francesa e alemã e, isso fazia com que por exemplo, fosse quase impossível estabelecer pesquisas multicêntricas.

Foi feito uma pesquisa que se tornou clássica, filmando determinado número de pacientes que cujos filmes foram apresentados para psiquiatras ingleses e americanos. Não eram nem franceses e alemães ou franceses ou americanos, eram ingleses e americanos, ambos anglófanos, da mesma cultura, e os mesmos pacientes eram na sua maioria diagnosticados como esquizofrênicos nos EUA e deprimidos na Inglaterra, ou seja, a confiabilidade do diagnóstico psiquiátrico comparado com os diagnósticos médicos era muito baixa.

Um outro caso rumorozíssimo chamado “O caso Losekam” que era um psicólogo que juntou umas 12 pessoas e combinou com eles um experimento, muito engenhoso, simples, mas engenhoso. Ele combinou que num determinado dia todas essas pessoas que podiam ter sido apanhadas aqui, iriam cada uma para um serviço de emergência psiquiátrico em um estado americano, iriam dizer apenas uma mentira: que ouviam uma voz e que essa voz só dizia somente três coisas: oco, vazio e tuti”. A escolha desses termos era proposital, porque oco, vazio é o tipo da coisa que quando você está deprimido, entediado, sem muito destino na vida, você tem impressão de que a vida é vazia etc e tal. Era para diminuir o impacto da voz, a voz não era persecutória, só dizia isso. E, além disso, somente a verdade, nada mais que a verdade.

Resultado: todos foram internados, todos com diagnóstico de esquizofrenia paranóide, exceto um com diagnóstico de psicose maníaco depressiva.

Foram internados e continuaram fazendo a pesquisa, escrevendo na frente de todo mundo os relatórios das pesquisas, ninguém reparou nada.

Os únicos na verdade que repararam foram os próprios pacientes internados que disseram: você é jornalista, você não é doido, você…

Num determinado dia eles vieram à luz e disseram, isso era um experimento. Enfim, foi um desastre, teve várias consequências que depois no debate a gente pode voltar. Mas, esse era o tipo de crítica que se fazia à psiquiatria nos anos 60/70.

Além disso, um outro elemento importante foi o fato de que os psiquiatras que até os anos 50, apenas, trabalhavam dentro de asilo com condições toscas de tratamento ou em consultórios fazendo psicoterapia, começaram a sofrer a concorrência de outros profissionais, psicólogos, assistentes sociais, pessoas que também eram capazes de fazer psicoterapia, não podiam medicar, mas os médicos também não medicavam muito.

Houve uma espécie de guerra, no fundo de mercado, e os médicos se viram então, os psiquiatras se viram instados a definir um pouco melhor qual era o seu terreno e uma das maneiras de fazer isso, foi criar uma, um sistema de classificação de diagnóstico que fosse mais confiável e que pudesse ser, digamos apropriado para pesquisas, para difusão do conhecimento diagnóstico entre pessoas da saúde pública, por exemplo.

Vocês imaginem o que era fazer programa de saúde pública mental em lugares onde havia pouquíssimos psiquiatras e na América Latina havia muito poucos psiquiatras e na África muito menos ainda. Em muitas regiões não havia, era preciso que enfermeiros, assistências sociais, psicólogos, outros profissionais pudessem manejar os instrumentos, eles eram muito complicados.

Então, um conjunto de fatores fez com que os psiquiatras resolvessem mudar e aí mudaram drasticamente, varrendo a influência da psicanálise e da fenomenologia e fazendo vir à tona um sistema de classificação que é o que nós temos hoje.

Um sistema de classificação baseado, sobretudo, na ideia de que sintomas são sinais. O sentido de um sintoma não importa muito. Ele é agrupado num conjunto e esse conjunto significa uma referência a um diagnóstico, chamado agora de transtorno.

A ideia do DSM era a de permitir que psiquiatras de todas as orientações teóricas pudessem conversar e isso fez com que eles avançassem na ideia de fazer um sistema classificatório que não iria perguntar sobre a causa dos transtornos, iria simplesmente fazer um conjunto de rótulos, o que permitiria em tese que qualquer fenomenólogo, psicanalista Junguiano, psiquiatra biológico etc, pudesse trabalhar com aquelas categorias.

O que de fato aconteceu, foi que ao longo dessas décadas, houve uma ênfase cada vez maior na versão biológica da psiquiatria, ou seja, o diagnóstico que era ateórico. Na verdade tornou-se uma espécie de fundamento para uma psiquiatria biológica que hoje é, pelo menos na psiquiatria oficial, a versão hegemônica.

Houve muitas consequências na adoção do DSM III, ele já passou por uma revisão em 87 e depois do DSM IV em 1994, uma revisão em 2000 e agora nós estamos no final da elaboração do DSM V.

O que aconteceu com o número de diagnósticos psiquiátricos com essa mudança? Explodiu. O DSM I tinha mais ou menos 160 diagnósticos, o DSM IV esse último agora tem 374, 375. O número de diagnósticos possivelmente, aumentará com o DSM V, mais do que isso, a ideia de que a psicopatologia, ou seja, o estudo do sofrimento perdeu aquela perspectiva fenomenológica, ou seja, o que significa isso? Significa a análise da experiência de estar deprimido, análise na primeira pessoa.

O que é estar tomado por um delírio de perseguição? O que é estar tomado pela ideia de ruína? Depressão? De pânico diante de um objeto inofensivo? Fobia? Essa exploração da experiência na primeira pessoa, hoje em dia com o DSM, foi varrida.

Outra dimensão varrida, a dimensão psicodinâmica. O que passa dentro do indivíduo? Que tipo de conflito ele tenta resolver com sintoma, que é sempre uma tentativa de solução, de um conflito difícil de resolver. Essa discussão, ela também foi colocada num segundo plano, se é que está em algum plano.

O diagnóstico psiquiátrico hoje em dia é tão simples, que não só psiquiatras dão diagnósticos e, portanto, medicam. Hoje em dia, quem mais medica antidepressivos e tranquilizantes, não são os médicos em geral, ginecologistas, otorrinolaringologistas, oftalmologistas. Osteopatas se forem médicos também receitam.

Diagnósticos não apenas médicos psiquiatras dão, os outros médicos também, mas todos profissionais da área de saúde mais os professores das escolas, mais os pais, ou seja, a vulgarização e a simplificação do diagnóstico, produziu uma espécie de enxurrada de diagnósticos na sociedade.

Seu eu pegasse aqui um exercício, se eu tivesse mais tempo eu teria feito isso, um exercício mostrando a vocês alguns dos diagnósticos mais polêmicos do DSM. Certamente, a maioria aqui sairia com algum tipo de diagnóstico. Tantos eles são, então simplesmente você pode ser alocado num.

Isso quer dizer que uma pessoa que tem um diagnóstico desse tem uma doença mental? É uma boa pergunta. Boa parte dos psiquiatras admite socialmente que não. Ter um transtorno mental não significa necessariamente que você tenha uma doença, se por doença você entender algum tipo de entidade anátomo-clínica. Transtorno transformou-se numa espécie de acordo convencionado de que certas condutas, certas experiências, elas são estranhas, são esquisitas, elas merecem ser atendidas.

Então, se criam, por exemplo, diagnósticos como: Transtorno Explosivo Intermitente (TEI). Se tiver alguém aqui de cabeça quente, pavio curto, estourado, pode abraçar esse diagnóstico e dizer que a culpa não é sua, que você é um doente, as pessoas têm que lhe compreender, bom mas também, talvez você seja obrigado a se tratar.

O Transtorno Desafiador de Oposição (TDO) que é dado para crianças que não obedecem aos adultos que não gostam de fazer deveres, que botam a culpa nos outros pelas coisas que elas fazem. Eu não tô brincando! É nesse nível o critério de definição de um diagnóstico que é dado cada vez mais para crianças em idade escolar.

Em alguns contextos sociais, mais até do que no Brasil, a difusão dos diagnósticos é muito preocupante. Por exemplo: o uso de diagnóstico de Transtorno Bipolar em crianças com menos de cinco anos, criança em processo de formação e já alvos desse tipo de diagnóstico.

Por quê que isso é relevante? Porque um diagnóstico psiquiátrico ele não é apenas uma espécie, não é como se você ter uma amigdalite, não é como você ter uma fratura, não é como você ter uma doença qualquer. É você ter um traço seu marcado, no seu olhar sobre si próprio, no olhar dos outros sobre você. Dependendo do diagnóstico Transtorno Bipolar numa criança de cinco anos tem um defeito de influir fortemente no engendramento de um destino, de um destino pessoal, de um destino social.

Esse tipo de fato deveria fazer com que a gente pudesse cada vez mais discutir, nós os não especialistas sobre a pertinência desses diagnósticos. E a pergunta, bom antes disso, apenas dar a vocês a importância, o grau da importância dessa discussão eu vou dar alguns exemplos de diagnósticos que foram propostos para o DSM V. Um deles, o mais polêmico, talvez foi o de Síndrome de Risco de Psicose.

Era a ideia de você poder flagrar um adolescente que ainda não tinha apresentado os sintomas psicóticos para intervir mais cedo, medicá-lo e evitar que ele tenha a psicose.

O motivo não é sem interesse, a gente sabe que entre o aparecimento de sintomas e o tratamento, em média passe-se um ano. O que significa? (isso são pesquisas internacionais). O que significa é um efeito ruim no prognóstico. Quanto mais cedo o tratamento, melhor o prognóstico. Entre o surgimento de pródomos, de situações que parecem indicar que a criança ou adolescente possa ter aquela eclosão de um surto mais adiante, passam-se quatro anos, ou seja, há um período anterior à presença do surto que quando o adolescente é acolhido, tratado etc. Esse acolhimento pode mudar o seu destino, esse é o raciocínio, é o argumento.

O problema qual é? É que a adolescência que é a parte da população para a qual se volta esse diagnóstico é por natureza turbulenta, o adolescente inquieto, o adolescente ensimesmado, o adolescente que, se sente esquisito, que tem comportamentos bizarros, pode ser um adolescente perfeitamente normal, muitos aqui devem ter tido uma adolescência assim, seriam irreconhecíveis hoje e esses seriam os falsos-positivos.

Alguns críticos chegaram a calcular que, se esse diagnóstico passar, provavelmente não vai passar, haveria cerca de 70% de falsos-positivos. Significaria que 70% das pessoas, dos adolescentes com esse diagnóstico, simplesmente, não iriam desenvolver a psicose mais adiante.

Mas, de novo, quem tem interesse nisso? Interesse direto: a indúsria farmacêutica. Interesse indireto: todo “Establishment” de assistência à saúde mental, toda a rede de profissionais, toda a rede de serviços etc e tal.

Há, portanto, na construção da psicopatologia, vocês vejam, muito, muito mais do que apenas discussão sobre o que é uma doença mental, o que que é a experiência do sofrimento. Há interesses de toda ordem, corporativos, econômicos, políticos, sociais etc.

Outro diagnóstico, estranhíssimo sugerido, foi o Transtorno Parafílico Coercitivo. Alguém pode ter uma ideia do que pode ser isso? Transtorno Parafílifo, ou seja, uma atividade sexual ao lado (para, desviante) coercitivo. Esse diagnóstico foi bolado para ser aplicado para certos estupradores que seriam considerados doentes. O estupro sendo considerado consequência dessa doença mental.

Isso é uma discussão muito importante e muito crucial, por quê? Porque ele é um exemplo de como na sociedade que a gente vive, cujas características a gente pode discutir daqui a pouco, a falta da tradição, a falta de agências nômicas que regulam naturalmente a vida das pessoas, dos conflitos têm feito com que duas agências sociais sejam cada vez mais convocadas para regular os conflitos da vida normal.

Um é a Justiça, a judicialização da vida cotidiana é cada vez maior. Isso começou nos EUA, qualquer pessoa que veja filme americano já ouviu essa frase: “…eu vou lhe processar…nós nos vemos na corte”. É tipo da classe média americana, “nós nos vemos na corte”. Pois, isso está sendo transportado para o Brasil e vocês abrem os jornais e veem o juiz determinando soluções para conflitos que antes eram solucionados com outras maneiras.

E a outra agência é a Medicina, em particular a Psiquiatria. Nem toda conduta é indesejável. Nem todo crime é expressão de patologia. Nem tudo que a gente diz não deve ser considerado patologia. Por exemplo, houve um outro diagnóstico sugerido. Vou dar um outro diagnóstico para terminar essa coisa dos diagnósticos que é muito preocupante que é o Transtorno Misto de Ansiedade e Depressão (TMAD). O TMAD se passar, vai fazer com que todos nós em algum momento da vida tenhamos esse diagnóstico, porque é impossível viver uma vida pelo menos uma vida interessante que implica riscos, implica ganhos, mas implicam perdas, decepções, frustrações, sem que a gente atravesse algum período em que você esteja bastante ansioso ou esteja um pouco deprimido, impossível.

Isso não significa que nós devemos chamar esses períodos de turbulência de doença mental? De transtorno mental? Eu acho que não. Muita gente acha que sim. São os promotores dessa proposta. E para finalizar esse tópico, uma outra discussão enorme do DSM V é a questão do luto. Até agora, o luto era considerado um período em que as pessoas, evidentemente, iriam sofrer, ou seja, um diagnóstico de Transtorno Depressivo Maior era dado a uma pessoa que estivesse sem prazer, sem vontade de fazer nada, sem poder dormir, inapetente, com humor triste, apragmático, desde que isso não fosse resultado da perda de um filho, de um marido, de um pai, durante um período que, aliás, era curto, duas semanas.

Pois bem, houve gente que disse que nós devemos retirar essa cláusula de exclusão, ou seja, o sofrimento natural do luto passaria a ser considerado um transtorno. Qual é a consequência imediata disso? É a de que, uma coisa é você falar de luto, vestir preto durante seis meses, chorar de maneira ritual, não se mostrar alegre, cumprir o ritual social de elaboração da perda.

Outra coisa é dizer: “eu estou com TDM, você está com TDM”. O passo seguinte a isso é, evidentemente, tratamento e tratamento hoje em dia, muito frequentemente é medicação, ou seja, o impacto disso sobre a medicalização da vida cotidiana seria espetacular.

Então, isso são exemplos para mostrar a vocês como a construção das categorias psicopatológicas, a demarcação do que é patológico e do que não é, depende de um conjunto de variantes e, deveria, digamos, contar com a participação do público em geral.

De uma maneira geral, aliás, de uma maneira cada vez maior, isso tem acontecido. O DSM V é a primeira classificação psiquiátrica que foi colocada na internet para ser discutida, ou seja, qualquer um de vocês pode entrar fórum da DSM e colocar as críticas que vocês quiserem. Então, vocês podem intervir, qualquer psiquiatra pode fazer isso, mas qualquer pessoa faz isso. E muitos grupos têm feito, grupos organizados têm feito isso, ou seja, um dos efeitos. Eu falei de alguns efeitos negativos dessa virada do DSM III, expansão diagnóstica, proliferação exagerada de novos diagnósticos, ampliação excessiva do campo de medicação do sofrimento, apagamento da dimensão experiencial do sofrimento, da dimensão fenomenológica e psicodinâmica do sofrimento.

Mais houve efeitos também positivos, porque na vida tudo é assim, tudo tem ganhos e perdas, nada é exatamente bom, exatamente ruim e, entre as coisas positivas decorrentes do DSM, estão o fato de que o estigma em relação à doença mental baixou bastante, ou seja, se a Psiquiatria nos anos 50/60, era uma psiquiatria opressora, excludente, hoje em dia o problema dela não é esse, é o contrário, dela ser inclusiva, todo mundo faz parte do seu raio de ação. Ela é inclusive, ela mudou inclusive, ou ampliou o seu raio de ação.

O que não é apenas o de tratar o sofrimento é cada vez mais o de promover saúde mental, promover bem estar social, é de aprimorar as nossas capacidades cognitivas, afetivas, sensoriais etc, que é uma fronteira com a qual eu vou terminar a conversa daqui a pouco, que é uma das fronteiras entre normalidade e diferença que é mais espetacular. Nós estamos avançando para uma psiquiatria, uma medicina do aprimoramento e não apenas uma medicina, uma psiquiatria que visa tratar o sofrimento.

Então, para dar um exemplo clássico do impacto da desestigmatização, vocês não vão nunca encontrar um vídeo, um filme, um livro escrito ou encenado por um psiquiatra que, nos anos 60/70 viesse a público dizer: “eu sou um psicótico maníaco depressivo”. Se eu chegasse aqui hoje e dissesse: “eu sou um psicótico maníaco depressivo”, provavelmente, as mesas iriam lentamente se esvaziar porque a palavra psicótico-maníaco-depressiva contém uma carga de dramaticidade e de periculosidade que o termo Transtorno Bipolar (TB) enxugou completamente.

Primeiro porque a pessoa era um psicótico maníaco depressivo, agora ela tem um Transtorno Bipolar, ou seja, algo que era inerente à sua, transformou-se numa particularidade. Com todos os equipamentos e todos os tratamentos que a gente tem hoje, vocês têm todo mundo aqui deve conhecer pessoas que têm um diagnóstico de TB com uma vida perfeitamente normal.

Mas, curiosamente, há psiquiatras cujo sucesso se deve ao fato de terem TB, de escreverem, de pesquisarem, de se apresentarem como uma pessoa com TB. O que antes era motivo de fuga dos possíveis pacientes, hoje em dia é um motivo de aproximação. Por quê? Porque o psiquiatra que tem o transtorno conhece por dentro o que é aquela condição, tem mais a oferecer ao paciente do que outro que não tenha essa experiência.

Então, o DSM produziu também esses efeitos positivos, entre outros efeitos, além da desestigmatização há o que um sociólogo chamado de Yan Hackmam, chama de efeito “looping”, o efeito de rebote, que é muito exemplarmente ilustrado pelo caso dos Autistas.

O Autismo era um diagnóstico terrível nos anos 50/60/70. A partir dos anos 80, o Autismo virou um diagnóstico cada vez mais comum, talvez até excessivamente comum. As estatísticas em relação ao Autismo, elas explodem. A quantidade de pessoas que tem o diagnóstico é cada vez maior, inclusive também porque todos nós usamos a palavra com muita liberdade. Muita gente diz: “fulano é Autista”, sem que queira dizer que é um diagnóstico preciso mais qualificando com o vocabulário psiquiátrico que torna a categoria bastante permeável.

Mas, o mais importante do que isso, foi o fato de que, e esse é o efeito rebote, muitos Autistas se apropriaram desse diagnóstico e passaram a trabalhar sobre ele, a influir na maneira como eram tratados, a produzir leis que favorecem mecanismos de facilitação da sua vida na sociedade, ou seja, tornaram-se um grupo ativo como o movimento “gay” foi, o movimento negro foi, como o movimento das mulheres foi. Mais do que isso, essa prática política dos Autistas, transformou-se num elemento de crítica e de renovação do próprio conhecimento psicopatológico sobre o Autismo.

E há uma quantidade enorme de livros, escritos na primeira pessoa por Autistas. Há relatos de famílias, há uma quantidade de literatura impressionante. Isso fez com que, de fato, o conhecimento psicopatológico sofresse uma influência que antes inexistia, que era dos próprios pacientes serem autores do conhecimento que se volta sobre eles.

Esse foi um aspecto bastante curioso e positivo do DSM nesses últimos 50 anos. De qualquer maneira, eu queria mencionar antes de fazer a discussão, que eu acho mais importante que é: qual é a definição que nós podemos ter sobre Normal e Patológico? Antes disso, eu queria fazer um pequeno comentário sobre o contexto mais geral que eu mencionei a pouco dessas transformações (00:40:38), ou seja, por que que a psiquiatria tomou esse rumo?

Além da indústria farmacêutica, além da crise de legitimidade dos diagnósticos, além do avanço do conhecimento biológico, além do trabalho corporativo dos psiquiatras de se transformarem médicos respeitados, que outros elementos no nosso contexto social fazem com que a psicopatologia tenha tomado esse rumo que ela tomou? Se a gente admite a ideia de que a criação e a circulação dessas categorias não se dá no vácuo, se dá em certos contextos, é por isso que um psiquiatra americano do século 18 pode criar um diagnóstico como a drapetomania. Aqui a gente tinha o banzo que era um diagnóstico dado para os escravos, todo mundo conhece.

Se isso é verdade, então o contexto em que os conceitos psicopatológicos emergem, as classificações psiquiátricas emergem, são um pano de fundo para essas classificações de alguma maneira expressam. E qual é esse pano de fundo social que nós vivemos nos últimos 30/40 anos não mais do que isso? É o cenário que muita gente poderia de forma resumida classificar de pós-moderno, modernidade tardia, que resumidamente esse é o nosso assunto, mas resumidamente poderíamos caracterizar como sendo uma sociedade que perdeu a força simbólica das suas meta-narrativas, onde as grandes agências nômicas, as agências que organizam o nosso mundo, dizendo o que é certo, o que é errado, o que é bom o que é ruim, o que é normal e o que não é.

Todas essas agências, elas perderam a sua força de modo que hoje nós somos cada vez mais autônomos em relação a elas. Não há nenhum valor mais alto que se levante contra o qual a gente não possa fazer uma objeção. Nós somos, como diz o sociólogo francês Alain Alemberg, nós somos mais autônomos do que nunca ou na verdade, nós vivemos na ilusão de que somos mais autônomos do que nunca, por quê? Porque nós não precisamos nos ajoelhar diante de nenhuma autoridade. Qualquer autoridade hoje é discutível.

Você pode ser um católico fervoroso e não aceitar mais a ideia de que o Papa é infalível. Você critica o Papa e continua sendo católico, que é uma ideia impensável nos 40/50.

Hoje em dia a gente discute tudo. Tudo é matéria de escolha pessoal. Até a anatomia hoje em dia a gente aceita que seja matéria de escolha pessoal, se nasce homem vira mulher, se nasce mulher vira homem. A única coisa que não se muda, costumo dizer, é o time de futebol. Não existe vira casaca vira casaca é feito um unicórneo, só existe na imaginação, porque uma vez que você é marcado por uma adesão a um time ele pode ir para a segunda divisão, terceira, quarta, como os torcedores do Santa Cruz da minha terra de Recife são exemplo e você fica ali marcado por aquele laço, ele é inamovível.

Tirando o time de futebol, as outras relações de identidade de pertencimento são todas friáveis. Isso o que é que produz na nossa vida cotidiana? Nós somos hoje cada vez mais instados a exercer essa autonomia, a refletir sobre o que é que nós consideramos o que é certo ou o que é errado assinar em baixo de todos os valores. Eles só prestam se a gente concorda com eles, ou seja, nós somos cotidianamente instados a pensar quais são as referências que devem nos nortear. Enquanto que em sociedades anteriores à nossa, essas referências eram mais ou menos dadas de diante mão. Você entrava, ingressava naquele regime, sem essa necessidade de refletir individualmente tanto sobre isso. Essa reflexibilidade junto com essa destradicionalização faz com que o discurso científico ganhe ou o discurso suavizam científico, ganhe uma espécie de valor que não tinha antes. Por quê? Porque hoje o discurso científico é o único que de alguma maneira se pretende portador de uma verdade que não pode ser discutida. Todas as outras obras são, mas a ciência é um discurso que se apresenta como portador de uma verdade objetiva e que, portanto, é imune a essa crítica permanente. É claro que isso já é discutível em si. No campo da psicopatologia mais ainda, mas o caldo de cultura social que a gente vive, esse foi mais um dos elementos que fez com que a ideia de que nós devemos classificar cientificamente os nossos comportamentos tenham vingado tanto. Por isso a gente hesita muito menos em utilizar o diagnóstico por categorias médicas para classificar dramas e situações existenciais.

Além disso, é preciso, claro, lembrar os avanços da própria tecnologia biológica na atenção ao sofrimento psíquico. É inegável que com os antipsicóticos dos anos 50 e com os tranquilizantes nos anos 60 e os antidepressivos dos anos 70, a nossa vida mudou e em alguns aspectos mudou para melhor.

As pessoas que têm problemas que a gente chama de psicóticos têm hoje uma existência social que seria impossível sem ajuda dos neurolépticos e dos antipsicóticos.

Todos nós de alguma maneira, podemos recorrer a essas medicações e antes éramos restritos a formas de tratamento basicamente verbal.

De modo que o fato de que hoje a gente tenha um leque cada vez mais ampliado de um repertório de psicofármacos, evidentemente, contribui para esse processo de psicatrização avançada da nossa vida cotidiana.

A difusão do conhecimento mesmo médico é outro elemento dado pela tecnologia, pela revolução tecnológica, sobretudo pelo que a internet produziu. Qualquer pessoa que chega hoje para me procurar, já fez uma pesquisa, já chega com o diagnóstico. De certa maneira, vem me pedir uma segunda opinião. Aliás, eu acho que isso acontece com os médicos em geral.

Se você tem uma coisa assim, você olha, fotografa se você fotografar e botar na internet e dizer assim, o que é isso, vocês vão ter milhões de pessoas respondendo e você vai poder vir com o seu diagnóstico e você discute no final se é um carcinoma epitelial ou não. Você pode discutir muito. Sobretudo, aqueles que têm acesso, o número é cada vez maior de pessoas que tem acesso à internet, a informação. E isso faz então, com que também essas categorias se difundam de maneira muito fácil.

Finalmente, e isso é verdade mais em outros países, do que no nosso, há o aspecto econômico do funcionamento da atenção. Vou dar um exemplo: nos EUA, onde não há uma medicina pública de verdade, o Obama está tentando fazer isso, mas sofre uma resistência enorme. Basicamente, todo mundo que é atendido tem seguro saúde se você não é atendido, enfim, a situação é complicada. E os Seguros Saúde foram um dos elementos que mais forçaram a construção de um sistema de classificação como o DSM. Pra que? Para poder ter condições de estabelecer uma relação de custo x benefício entre o atendimento dado, o diagnóstico feito e o dinheiro aplicado.

Aqui no Brasil, onde nós temos o SUS, que apesar de todas as dificuldades, é uma experiência muito, muito poderosa e o problema que a gente tem em relação ao SUS é levá-lo mais adiante, é conseguir que ele tenha condições de cumprir a sua missão. Mesmo o SUS precisa financiar as suas atividades.

Então, um dos embaraços que a gente tem hoje é que muita gente que trabalha nas equipes de saúde da família, na atenção básica, na periferia das cidades, mesmo aquelas pessoas que não querem psiquiatrizar problemas da vida, precisam atender pessoas que estão ali sofrendo nas coisas do dia a dia.

Para que um atendimento seja pago pelo sistema que é público, ele precisa ser registrado, para ser registrado ele não poder dizer eu fiz um atendimento na pessoa que estava meio triste. O sistema não vai pagar isso, precisa ter um diagnóstico. Se a pessoa resistir muito, no mínimo ela vai ter que botar um Transtorno Mental Comum, que é um diagnóstico de TMC.

Então, isso vocês vejam como uma lógica, o que uma lógica contábil produz como efeito essa maior permeabilidade de volume de classificação psicopatológica generalizada.

Bom, eu queria terminar um pouco essas considerações pra gente poder, então, discutir. Lembrando a vocês, duas coisas: 1º) Se eu conseguir fazer vocês admitir nessa ideia de que a psicopatologia é uma coisa que, é um exercício cultural, ou seja, toda classificação psiquiátrica, toda demarcação do que é doença mental depende de um exercício cultural, reflete o contexto histórico social de um determinado contexto. Então, a questão fundamental com a qual a gente tem que se a ver é: o que é que a gente pode definir como sendo critério de normal? O que é, afinal, ser normal? Não é uma pergunta fácil e espero que a gente possa discutir isso daqui a pouquinho.

Mas, é só adiantando a discussão, existem basicamente duas maneiras de se responder essa pergunta. A primeira, ela tem uma ambição objetiva, ela quer ser científica, ela quer ser mais ou menos inequívoca, a gente tem que saber o que é uma pessoa normal para poder saber o que que é a normalidade (00:51:07). Isso precisa ser uma coisa clara e objetiva, é uma perspectiva que a gente poderia chamar de naturalista. Como é que ela alcança a ideia de normal? Basicamente com base na regularidade, na normalidade estatística e na ideia de função. Então, você mede o comportamento, as experiências de uma determinada população, seja lá qual for e você têm aquelas que são mais recorrentes, aquelas que são mais prevalentes e aí você tem o parâmetro de normalidade.

Esse parâmetro de normalidade, é claro, não é o mesmo para crianças, adultos jovens, adultos maduros, velhos. Podem não ser o mesmo em determinadas classes que são metodologicamente estabelecidas. Mas, dentro de uma classe, o que desvia daquela média, daquele padrão é considerado como fora do campo da normalidade. Esse é digamos o método, a maneira objetiva de definir o que é ser normal.

A outra maneira pela rapidez e pelo jeito com que eu descrevi, vocês devem ter percebido que eu não sou muito simpático a essa perspectiva. A perspectiva que me parece mais interessante, embora seja mais complicada é a que a gente poderia chamar de Normativista ou Normativa.

O que essa perspectiva preconiza? Ela preconiza a seguinte coisa: Nós, como seres humanos, somos dotados de um corpo que produz essa capacidade muito especial que é a de fazer emergir uma mente, uma vida subjetiva que regula a nossa relação com os outros e com o meio ambiente.

Essa relação como os outros como dizia Freud ela é uma das fontes da nossa inevitável infelicidade. Por que? Porque os outros nos frustram, nos dão prazer e nos dão desprazer. O próprio corpo fenece e envelhece, os acasos da vida ás vezes nos atropelam. Sofrer é inerente à condição humana.

O que que faz então, com o que a gente possa dizer que um sofrimento”x” é patológico? A chave da resposta a essa pergunta é a diferenciação entre o fato da a Normalidade e o valor da Normatividade (00:53:30). Deixa eu explicar: a normalidade estatística é normal porque é comum, é um fato. Boa parte dessas pessoas que estão dentro dessa Normalidade Estatística, estão bem. Algumas das pessoas que estão dentro dessa Normalidade, embora estejam normais do ponto de vista estatístico, podem não estar nada bem do ponto de vista do Valor.

Você não ter sintomas não quer dizer que você não esteja doente. Você pode também estar fora dessa Normalidade e não estar doente. Você pode ser excêntrico, você pode ter uma singularidade particular e ser apenas um diferente e não necessariamente um doente. De modo que, embora para efeitos práticos, essa ideia da Normalidade Estatística tenha um valor no dia a dia.

Na definição do que é uma patologia, esse valor é muito pequeno. Eu vou me reportar aqui a um autor clássico nessa discussão que é Georges Canguilhem, um filósofo da biologia francês que definia o limite entre a Normalidade e a Normatividade com base na ideia não da Normalidade como um fato, mas da Normatividade como um valor.

O que que ele queria dizer? Ele queria dizer que a vida, viver é o tempo todo valorar, ele diz: mesmo para uma ameba, viver é preferir ou excluir. Mesmo um ser que não tem consciência, se ele é vivo, ele não é indiferente às condições da vida. Ele adere ou ele recua. Um vírus, se você põe um retroviral, ele tenta se modificar para escapar do retroviral. Uma bactéria tenta criar resistência a um antibiótico. Se uma bactéria é assim, imagine qualquer ser consciente.

Todos nós o tempo todo, valoramos como positivo ou negativo a vida que nós levamos, o tipo de contexto em que nós estamos. E, segundo Canguilhem, o que é ser saudável? O que é ser Normativo é ser capaz de exercer essa potência que todo ser vivo tem de manter a sua vida, de manter a sua diversidade e de ser reproduzir, ou seja, ser Normativo e, portanto, ser saudável não é não ter doenças, é poder ao contrário, poder passar pelo sofrimento, poder passar pela doença e se recuperar.

Ser Normal nesse sentido, é ser Normativo, ou seja, a Normalidade encontra um valor que não apenas o Normal como um fato estatisticamente mensurável. E quando a gente começa a discutir isso e eu espero que a gente possa fazer isso depois, a gente começa a poder, então, admitir que muitas pessoas que podem ter pelos critérios objetivos dados pelo DSM ou por qualquer classificação diagnóstica um diagnóstico dado, pode de fato se retrair em relação a ele, pode criticar esse diagnóstico na medida em que ele possa ser apenas, possa dizer que expressa aquele comportamento aquela experiência, expressa apenas uma singularidade, uma idiossincrasia, alguma coisa que é apenas uma diferença e não merece, não precisa, não deve ser considerado como doença.

De novo, há um exemplo clássico, atualmente que é o dos Autistas. Boa parte dos Autistas que se organiza num movimento de orgulho Autista (00:57:04) defende a ideia de que os Autistas existem sim, têm características de funcionamento mental diferente, sim, mas apenas diferentes. São como eles dizem, neurodiversos, enquanto que a maioria das pessoas é neurotípica.

A maioria de nós gosta de encarar as pessoas nos olhos. Muita gente não gosta de encarar as pessoas nos olhos. Por que considerar isso como um traço patológico? Muita gente, latinos em geral, gostam de falar com as pessoas pegando nelas, tem gente que não gosta desse contato físico. Por que considerar essa pessoa que não gosta desse contato físico, como isso sendo um traço que evidencia alguma dificuldade? A gente só pensa assim, segundo esse raciocínio, porque cada classificação de patologia, implica a adoção às vezes não refletida, de um modelo ideal. E o modelo ideal que nós temos hoje é de um sujeito que olha nos olhos, que encosta nas pessoas, é um sujeito autônomo que não depende de ninguém. É um sujeito que é capaz de ser flexível, porque é isso que a nossa sociedade exige de todos nós. É alguém capaz de mudar de camisa o tempo todo e isso o mercado de trabalho exige de todo mundo.

Então, o mundo em que a flexibilidade, o mundo em que a pluralidade de relações, ela é tomada como sendo um traço da vida cotidiana. Isso começa a se transformar num critério de Normalidade, enquanto que as pessoas que são mais ligadas a outros valores, facilmente são colocadas como sendo não Normais e não apenas diferentes mais patológicos.

Então, essa fronteira entre a Normalidade e a patologia, hoje em dia é talvez uma das áreas mais fascinantes da Psiquiatria e da Medicina, porque ela envolve a todos nós.

O caso dos Autistas é um exemplo, mas há outros. A homosexualidade talvez tenha sido o primeiro dos anos 70. O Movimento “Gay” foi o primeiro a dizer que eles eram simplesmente diferentes da maioria estatística e isso não tem nada a ver com patologia. Houve outros movimentos mais curiosos, por exemplo, hoje em dia, você a comunidade de práticas Sadomasoquistas (BDSM) que também defendem a mesma posição. Aquilo que era considerado automaticamente como patologia, perversão etc, até há algum tempo atrás, hoje em dia é reivindicado como uma prática, enfim, esquisita para a maioria, sem graça para a maioria. Mas, para um grupo de pessoas é uma prática perfeitamente normal. Por que? Porque ela não fere a Normatividade dos sujeitos, o sujeito pode ter uma prática sexual completamente distinta da normal, enquanto comum e ainda assim ser Normativa. E o que significa ter uma prática normativa em relação a uma pessoa, no fundo no fundo, significa uma coisa simples, você se relaciona normalmente com alguém, quando você o tempo todo trata aquela pessoa como um sujeito, como você.

Quando de alguma maneira você destitui aquela pessoa da condição de sujeito e você passa a tratá-la como instrumento do seu gozo, aí você ultrapassa a fronteira para alguma coisa que a gente não admite. É isso que a gente chama de perversão (1:00:26) É isso que é cair para o campo da patologia.

Então, quando a gente toma esse critério Normativo, a maior parte das pessoas que pratica BDSM é perfeitamente normal, apesar de estar completamente fora da curva de Gauss, daquela curva na qual todos, todos não sei aqui, mas a maioria não sei, mas a maioria de nós, provavelmente está incluída.

E para terminar, outro ponto, outro desafio, digamos que nós estamos vivendo no campo da Psicopatologia, atualmente é um desafio bastante promissor e muito interessante, é o desafio promovido pelo movimento das deficiências. Por que? Porque até um tempo atrás, a deficiência era concebida num modelo como eles dizem, o movimento diz, o modelo da tragédia pessoal, ficar paraplégico, não ter um membro, perder uma função, era viver uma tragédia, uma perda irreparável, era você se colocar como um objeto de cuidado, mas um cuidado mediado pela pena, pela piedade, por alguém estar passando por uma coisa desastrosa.

O movimento da deficiência mudou isso radicalmente. Em que sentido? No sentido de assumir que a condição humana de todos nós é de dependência. Nós todos somos deficientes em alguma coisa, por exemplo: eu sempre fui deficiente em esportes. Não há quem me faça praticar algum esporte com o mínimo de competência. O que que eu fiz? Bom, comecei a fazer outras coisas. Há pessoas que são desafinadas, há pessoas que não enxergam, há pessoas que não ouvem, há pessoas que andam de cadeira de rodas. Qualquer uma dessas pessoas exibe mais ou menos algum grau de deficiência que aparece como? No contexto em que ela vive, ou seja, no meu contexto de vida, não ser um bom jogador de futebol, só me deu uns certos aborrecimentos quando eu era criança porque eu era o último a ser escolhido na divisão dos times, um pouco mais do que isso. E frustração eu tive quando adolescente e tal.

Todo brasileiro com seis anos quer ser jogador de futebol, eu também quis, foi talvez uma das primeiras grandes frustrações, mas passou.

Se você tem uma cadeira de rodas e mora na Suécia, você sofre muito menos o sentimento de deficiência, do que se você mora pelo menos no Rio de Janeiro, não sei como é Campinas. Mas, no Rio de Janeiro, no prédio onde eu moro, a deficiência ressaltaria. Por que? Aumentou, diminuiu a deficiência do indivíduo? Não. É o contexto em que ele se movimenta que não está adaptado para aquela diferença.

Então, o Movimento da Deficiência, ao mostrar que a condição humana é de dependência permanente, varia é o grau, em certos momentos todos nós se vivermos muito, seremos muito dependentes dos outros. Então, porque considerar a deficiência uma tragédia? Ela é uma dimensão da existência humana.

Então, qual é o horizonte para o qual aponta o Movimento da Deficiência? É considerar que a sociedade tem que admitir essa premissa e se adequar as diferenças o mais amplamente possíveis, no caso dos cadeirantes, no caso dos cegos.

No Rio de Janeiro eu só conheço um sinal de trânsito para cegos que fica enfrente ao Instituto Benjamim Constant.

Se você anda em outras cidades do mundo e você nunca viu, você fica um pouco “tec, tec, tec” no sinal de trânsito, “tec, tec, tec” que diabo é isso? A gente não sabe. Uma coisa banal em outros países. É um sinal que permite ao cego atravessar uma rua sem problema nenhum.

O problema da cegueira é em grande parte o contexto em que o cego vive, assim como todas as outras deficiências. E isso, se a gente toma para o campo da Saúde Mental, é muito valioso.

Pode ser que significa também que, Caetano Veloso tem razão, de perto ninguém é normal. Freud dizia a mesma coisa. Todos nós nos arranjamos, fazemos uma equação que na maior parte do tempo pode funcionar, mas de vez em quando pifa. E o que é que nós devemos fazer em relação a isso? Aquilo que o Movimento da Deficiência preconiza acolher, criar condições para que a vida seja o mais razoavelmente organizada para que a gente possa viver a nossa existência sem nos depararmos com os limites que nos impedem.

E, se os cadeirantes têm os limites da falta de rampas, as crianças hoje em dia, por exemplo, têm um limite, uma exigência absurda de performance cognitiva. Todas as crianças hoje têm uma agenda quase igual à minha, de segunda a sexta uma agenda de estímulos, estímulos, estímulos (1:05:28) e depois quando elas ficam hiperestimuladas, vem o diagnóstico e diz elas estão hiperativas. Então, vamos tratar dessa hiperatividade.

Todos nós somos solicitados, exercemos a nossa autonomia e a sermos bem sucedidos, a sermos lindos, jovens, fortes etc e, quando a gente se depara com isso, a gente na verdade, se sente insuficiente.

Na primeira metade do século 20 a gente poderia dizer que o paradoxo fundamental que a gente era obrigado a viver, era digamos, impulsos que esbarravam na repressão socialmente organizada, hoje em dia é o contrário, hoje em dia nós vivemos numa sociedade que nos incita digamos, após a permanentemente, nos dá autonomia, nós podemos gozar do jeito que a gente quiser, praticamente não há proibição alguma.

O que é ser um transgressor, hoje? É difícil. Pensem o que é transgredir hoje? É difícil. Porque tudo vira viral no “twiter”, passa a ser uma coisa que rapidamente é absorvida, pode facilmente virar modelo.

O que que é ser subversivo, hoje? É difícil. Dado o tipo de cultura que a gente vive. Num mundo como esse a gente poderia então imaginar, todos são felizes, podem viver do jeito que querem. Não, nunca houve tanta depressão, por quê? Porque diante da possibilidade de tudo fazer, o que a gente sente mais é desorientação e sentimento de insuficiência por não estar à altura dos ideais aos quais nós nos identificamos.

Então, voltando ao fio da meada, o que o Movimento da Deficiência nos alerta é de que, é melhor a gente prestar atenção naquelas características que nos definem e que dizem respeito à nossa intrínseca relação com os outros, a nossa intrínseca relação com o meio e pensar em psicopatologia, pensar em sofrimento psíquico, pensar em doença mental, não é pensar apenas no cérebro, não é pensar apenas no inconsciente individual. É pensar também, sobretudo, nesses aspectos ligados à vida que o sujeito tem no mundo que ele habita, ou seja, deslocar a deficiência do indivíduo deficiente para a relação com o mundo. Assim como, deslocar a ideia de doença mental do cérebro, do psiquismo individual para a relação com o mundo, é digamos uma proposta que eu acho, torna muito mais interessantes as alternativas que a gente pode construir para lidarmos com o sofrimento que inevitavelmente nós vivemos e viveremos.

Agora, vou concluir, nós estamos como eu disse, vivendo um umbral do aprimoramento improvement. Nós já estamos vivendo isso, medicamentos, não são só medicamentos não, práticas alternativas, muito da cultura oriental, foi digamos incorporado à nossa cultura ocidental com a desidratação dos aspectos valorativos ou espirituais e apenas a retenção daquilo que é promessa de aprimoramento cognitivo, aprimoramento emocional por parte das pessoas, faz meditação para poderem serem mais capazes de enfrentar o “stress” da vida. Por exemplo, mas também nas práticas medicamentosas isso está acontecendo, o uso indiscriminado de Ritalina para atenção, de Modafenil® para ficarem dispertos. O uso de antidepressivos para aumentar, ficar mais do que bem, como a expressão clássica, faz com que a gente veja no horizonte que essa questão da Normalidade enquanto Normatividade sofre também um impacto dessa exigência de permanente aprimoramento que, evidentemente, eu vou fazer um curto circuito, eu acho que vocês vão entender, tem uma afinidade enorme com o tipo de sociedade, o tipo de economia que a gente vive hoje, que nos exige de sermos o tempo todo ativos, consumindo coisas, realizando coisas, buscando um gozo permanente.

Isso está por baixo da produção das nossas doenças mentais mais típicas: as depressões, as adições, as alterações da relação com o próprio corpo e assim por diante.

Bom, essas eram uma das ideias que eu queria trazer para vocês, na esperança de que vocês possam debater o que vocês têm a dizer sobre isso, me perguntando, me contestando ou fazendo comentários.

Abertura para os Debates (1:10:37)

Benilton, boa noite, obrigado pela explanação clara e concisa. Eu também sou conterrâneo, admito que de fato, mesmo mudando para a região sudeste, aqui a gente não muda de time, mas não sou Santa Cruz, sou Esporte lá.

Sou profissional de saúde aqui na região de Campinas e enfrento um pouco de dificuldade no sentido de aceitação social daqueles que convivem com os portadores de alguns transtornos mentais.

Quando você traz aí uma proposta de a história da Psicopatologia, sobretudo de forma evolutiva, digamos assim, a gente fica pensando um pouco que de fato a gente tem muito a evoluir ainda e quando a gente vê, por exemplo, que antigamente na proposta de tratamentos no caso com hospícios que era proposto aí uma técnica de reclusão social, marginalização, isolamento social. Hoje a gente, pós a Reforma Psiquiátrica, a gente vê aí uma proposta um pouco diferente, um pouco mais de reinserção social.

Um exemplo aí é o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial que propõe aí um tratamento de fora mais aberta com a sociedade. Mas, eu vejo que existe ainda um pouco de dificuldade das pessoas conviver com esses portadores de transtornos mentais.

Então, assim, na tua opinião qual que seria uma fonte mais produtiva de conscientização social e, sobretudo, de aceitação e convivência para que a gente possa conviver melhor com essas pessoas. Como que você propõe, qual seria a fonte, mídia, uma conscientização, através de política etc. Qual que é a tua opinião nesse sentido?

BB: Certo. Qual é o seu nome?

PS: Mariavel. (profissional de saúde).

BB: Mariavel, essa tua pergunta é muito pertinente e, eu acho que tá digamos assim. É o desafio com o qual a Reforma Psiquiátrica mais tem que se haver, uma vez que ela já virou Política de Saúde Mental, apesar das críticas que têm sido feitas a ela. Mas, a ideia de que o asilo é uma coisa do passado, é ótimo.

Diga-se de passagem, nem todo mundo aqui é da área psi. Não deve saber disso, quando o asilo foi inventado, ele foi uma ideia revolucionária porque Pinel, Esquirol que fundaram o asilo no século 19, eles tinham a ideia de que para tratar da loucura, era preciso criar um ambiente que não tivesse os problemas que a sociedade francesa da época tinham. Então, o asilo foi criado como uma espécie de uma sociedade ideal, com mais liberdade onde eles eram atendidos de maneira…..O Hospício Pedro II que foi criado em 1852 no Rio de Janeiro, eu não sei se vocês conhecem, é o prédio da Reitoria da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro na Urca, no Rio de Janeiro, era um palácio belíssimo. E, é claro, a proposta do asilo degenerou, virou o que nós conhecemos como manicômio, mais do que isso, criou-se em torno do asilo, a chamada cultura manicomial.

O maior desafio da reforma não é tanto a mudança na política de assistência, por exemplo, acabar com esses macro-hospitais e criar CAPS e criar ambulatórios etc e tal. O maior desafio é a cultura manicomial é essa coisa que você vê quando você sai com pacientes e vê o olhar das pessoas, a dificuldade de interação, o medo. Como é que você combate isso? É criando mais interação. E você tem razão, é a mídia, é a televisão, que são as novelas quando numa novela aparece um esquizofrênico que não é um monstro, isso produz um efeito. Quando você circula com as pessoas pela cidade e elas podem interagir, isso produz um efeito (1:14:50). É, do ponto de vista da política eu acho que a interação entre a assistência e o resto das atividades da prefeitura, seria fundamental só quando a gente começa a conviver com o diferente, você quebra aquele preconceito que havia.

Eu vou dar um exemplo, assim, um exemplo pessoal. Uma das coisas que eu achei mais interessantes que a Gol fez. No Brasil já há uma legislação que obriga as empresas depois de um certo número a terem uma cota de pacientes com deficiência. A Gol em algum tempo atrás, ela fez isso e fez um gesto, acho muito interessante, colocar muitas pessoas com deficiências na linha de frente da atenção ao público. Então, pela primeira vez você via pessoas, com sei lá, com braços diferentes, com pernas diferentes, pessoas com corpos diferentes, atendendo a você numa boa, coisa que de uma maneira geral se esconde.

A Gol naquela ocasião botou na frente. Isso eu tenho certeza que chocou muita gente, porque eu me lembro do impacto que eu tive quando eu vi e depois o sentimento de satisfação que eu tive de ver que aquilo é claro, era um passo de Normalização. Curiosamente, eu não sei se estou enganado, mas eu não vejo mais essas pessoas. Não sei o que foi que aconteceu, mas isso eu achei um gesto muito importante. A mesma coisa como eu estava te contando antes, eu acho que vale para a Saúde Mental. A gente criar maneiras de fazer com que as diferenças emerjam, foi assim também com os negros, foi assim também com os gays, será assim sempre com qualquer categoria, né. Com as mulheres também, o Brasil até poder ter uma mulher presidente teve que ter uma trajetória nisso, né. A gente simplesmente não imaginava isso. Como você ainda não vê, sei lá, negros neurocirurgiões no Brasil. Uma das razões pelas quais eu, com todas as considerações críticas que podem ser feitas, sou adepto à política de cotas, é por isso.

Nós temos 500 anos de escravidão nas costas e isso marca a gente de uma maneira que a gente não é capaz de rapidamente sacar, somente quando a gente tiver. Aqui por exemplo, quantos negros tem? Reflete a realidade do Brasil? Não. Não reflete. Qualquer estrangeiro vê isso. Recentemente houve um, agora não vou me lembrar quem foi, um americano, um negro americano, veio para o Festival de Paraty, ótimo Festival de Paraty, maravilhoso, ele chegou, levou um choque. Cadê os negros? Não tem. Então, é esse tipo de coisa que a gente vê nos loucos, a gente também vê. Se aqui tivesse 50% de negros, garanto que todo mundo que entrasse aqui ia achar estranho, não ia ser contra, mas por quê? Porque a gente não está acostumado.

Então, eu acho que, assim como as pessoas com doenças mentais crônicas e graves e tal, pra todo tipo de traço diferente, eu acho que essa é a política, a visibilidade, é ganhar o espaço público, é ganhar o direito de cidadania (1:18:00).

Boa noite, professor.

Pergunta via chat. A pergunta de Luisa é a seguinte: muitas pessoas são acometidas por psicopatologias e as famílias não sabem como lidar, acham que é frescura, falta de religiosidade. Como explicar a sociedade que esses problemas são reais?

BB: Acho que a pergunta tem duas dimensões, a primeira é a seguinte: muita gente, crianças, adultos, adolescentes sofrem muito sem que esse sofrimento seja reconhecido, isso é um fato. Melhorar esse quadro significa fazer as pessoas se tornarem mais permeáveis na presença do outro, mais acolhedor em relação ao sofrimento. E isso é uma coisa que independe da necessidade de a gente classificar como Psicopatologia o sofrimento. Não sei se estou me fazendo claro. Uma coisa é reconhecer que existe por exemplo, muita violência nas famílias no Brasil, muito mais do que a gente imagina.

Quando acontece um quadro rumoroso que vai para os jornais, a gente se escandaliza, mas a quantidade de violência contra crianças, contra mulheres no Brasil, é impressionante, contra negros, contra pobres, a gente sabe disso. Então, isso é um traço da cultura brasileira. Nós somos muito violentos, nós produzimos muito sofrimento e ao mesmo tempo nos consideramos pessoas cordiais. E, somos. Esse é um dos traços paradoxais da cultura brasileira.

O homem cordial brasileiro é o homem do coração. É o homem que ao mesmo tempo é afetuoso e é capaz de fazer tudo pelos amigos e nós somos alegres e pegamos nas pessoas etc, conversamos. No Rio de Janeiro então, você vai ao supermercado você pode bater papo com 10 pessoas que lhe perguntam qualquer coisa. Nós somos assim.

Mas, também somos às vezes muito indiferentes ao sofrimento, por exemplo, de pessoas subalternas somos mais sensíveis ao sofrimento dos nossos iguais, mas aos subalternos a gente vê menos. Então, essa pergunta, ela tem uma dimensão universal, ou seja, o sofrimento precisa ser acolhido. De novo, uma dúvida que eu quis instalar em vocês. Todo sofrimento para ser acolhido, precisa ser reconhecido como psicopatologia? Eu hesitaria em dizer que sim, aliás, é ao contrário. Eu diria francamente que não. Talvez, essa necessidade de classificar como psicopatologia para então acolher, seja então mais um problema do que uma solução. Por quê? Porque a gente vai considerar que a solução, o acolhimento, o tratamento, vai ter que ser feito de modo técnico pelo sistema de atenção à saúde etc.

A gente delega para o discurso técnico e para os profissionais aquilo que deveria ser uma tarefa, um desafio de todos nós. Não tenho certeza se respondi a pergunta como a pessoa que fez a pergunta imaginava, mas.

Boa noite, meu nome é Sara.

E aí quando você começou a dizer do Autismo. Eu sou psicóloga. Trabalho na ONG que trabalha com Autismo e depois você disse na área da deficiência. E eu trabalho numa outra entidade que trabalha com deficiência múltipla. E a sua fala me fez pensar assim, né, quando você até deu o exemplo do seu prédio, dá importância que muitas vezes eu vivo e aí assim, parece que agora ficou mais clara, no sentido que a deficiência que a pessoa tem, a limita. Mas, a deficiência do social, da falta dos recursos do transporte, da saúde, faz com que aquela deficiência fique muito mais do que realmente aquele indivíduo tem, como no corpo, como na mente. E isso é uma coisa assim que a gente não consegue, enquanto trabalhador ultrapassar em muitos momentos esses limites, né, da acessibilidade e da falta de medicação nos centros de saúde e aquela pessoa fica com uma deficiência muito maior do que necessariamente ela tem como primária, vamos dizer assim.

BB: É. Você reforçou um ponto que eu acho, é fundamental. A gente tem que e a gente eu digo, não é só o movimento da deficiência já faz isso, né? Mas nós, na área da Saúde Mental e nós na população em geral, precisamos reter essa ideia, como eu disse: deficiência é uma coisa que algumas pessoas portam de maneira mais longa, às vezes a vida inteira. A maioria de nós, todos nós, algum dia portaremos em algum momento da vida, ou seja, enquanto isso não se entranhar na gente como uma percepção do que é ser humano, a gente vai olhar os outros e esperar que eles sejam como nós os que andamos com as duas pernas, que temos olhos para ver, temos ouvidos para ouvir etc.

A gente não vai ser sensível às, eu diria, menos do que as limitações, as especificidades dos corpos e mentes que são diferentes da maioria de nós. Poder insistir nessa ideia de que todos nós temos diferenças, nós temos deficiências, todos nós temos sintomas, todos nós podemos em algum momento, atravessar um período de grande turbulência emocional e precisar da ajuda do outro. Insistir nisso, eu acho que é uma tarefa fundamental para que a gente se torne sensível.

Um outro elemento é o da militância que permite que a gente produza leis, obrigações que por exemplo, impeçam que prédios sejam construídos, prédios nos quais por exemplo, onde eu moro, onde nenhum cadeirante pode se movimentar facilmente. E isso nós temos avançado bastante no Brasil. O movimento das deficiências no Brasil, ele ainda está em processo de crescimento. Mas, do ponto de vista legal a gente já avançou bastante.

Mas o problema do Brasil é que as leis as vezes precisam mais do que a sua existência para de fato funcionarem, né?

Leis existem, mas às vezes não colam, não pegam. Então, a gente já tem legislação bastante boa, se ela fosse aplicada, o país seria outro em relação a esse aspecto das deficiências.

Boa noite.

A minha pergunta é a seguinte: eu sou advogado de profissão e queria fazer uma ligação entre a Psicopatologia com o Direito Criminal.

Um dos conceitos no Direito Criminal é que a pessoa tenha a entender o caráter criminoso do ato que ele estaria praticando, teria praticado. É justamente aí nesse sentido, têm dois tratamentos distintos. Quando se reconhece que o ato foi cometido por uma pessoa que tenha um tipo de transtorno mental, tem um tipo de tratamento pela lei, seria a internação no caso de manicômio e quando tem o entendimento que a pessoa tinha um entendimento daquele ato criminoso, vai para a prisão, pena privativa de liberdade.

A pergunta é a seguinte: Para definir essa linha divisória entre esse lado da patologia e o lado do entendimento de um crime com clareza. A ciência da psicopatologia, como é que definiria? Existe essa linha clara ou não?

BB: Ângelo, essa pergunta além de ser muito interessante, ela é muito atual, porque uma das novidades que vem aparecendo nos tribunais, aqui no Brasil ainda de maneira insipiente, mas em outros lugares de maneira muito cada vez mais intensa. É o uso de argumentações e de tecnologias que tentam provar a existência de um estado patológico às vezes no cérebro a partir de neuroimagens para por em questão exatamente a capacidade do indivíduo naquele momento de saber que estava agindo em desconformidade com a lei.

E aí, esse é um terreno muito complicado, muito pantanoso, porque, digamos, uma coisa é alguém ser tomado por um ciúme enlouquecido e matar num momento de violenta emoção. Transitoriamente, aquela violenta emoção foi maior que o raciocínio dele. Ele se arrepende, mas, o mal está feito. Isso tem um valor atenuante.

Outra coisa é você mostrar uma imagem cerebral e dizer: essa imagem cerebral mostra que certos circuitos neurais funcionam ou não funcionam e é a esses circuitos neurais que se deve atribuir o fato daquela pessoa ter agido dessa maneira ou não.

No fundo, no fundo, está em questão um tema que é o do livre arbítrio. Nós temos livre arbítrio ou não? E a resposta não é simplesmente, claro que temos. Porque muita gente acha que não. Há pessoas que defendem progressivamente a ideia de que nós, na verdade, nos iludimos de que decidimos coisas quando de fato o cérebro decide por nós, milissegundos antes de nós tomarmos consciência da decisão.

Existe um trabalho famosíssimo – Libet que tratou exatamente disso. Ele mostrou como a decisão de eu fazer isso aqui, a consciência de eu pegar esse copo é precedida milissegundos pelo acionamento neural, que me fará pegar o copo. Isso desmonta a ideia de livre arbítrio? É uma discussão complexa.

Então, eu não vou te dar uma resposta pra isso. Porque as respostas podem ser múltiplas, mas o que eu digo é que, cientificamente, é difícil de você responder essa pergunta. Eu diria até que de certo modo, impossível. Porque você sempre encontrará argumentos pró e contra. No fundo, o que está em jogo é a nossa visão do que é ser um humano, do que é ser um sujeito racional, do que é ter liberdade de escolha. E, portanto, o debate entre aqueles que acham que a ciência, no caso a biologia, poderia explicar e os que acham que não, a biologia explica como nós somos capazes de fazer coisas, mas não explica porque é que eu faço isso ou aquilo.

Uma coisa é explicar como é que o meu cérebro está no momento em que eu estou tomado por uma ira de ciúmes ou porque eu estou deprimido ou quando eu delirando. Uma coisa é encontrar correlação biológica sem a qual evidentemente não ocorrerá nada disso.

A mente só funciona quando o cérebro torna isso possível. Mas, admitir que a mente é a expressão do cérebro funcionando, não é a mesma coisa que dizer o que a mente faz é causado, exclusivamente, pelo cérebro. Por quê? Porque um cérebro só produz uma mente humana e, portanto, decisões humanas como essa de matar ou de roubar ou sei lá o que for. Num contexto o qual o cérebro está incrustado num organismo, ele não funciona sozinho. Nenhum cérebro humano, jamais funcionou desincorporado.

Toda vez que a gente fala de cérebro e vê a imagem do cérebro, a gente naturalmente, tende a supor meio intuitivamente que ele pode funcionar ali como órgão separado. Não pode. O cérebro humano para funcionar como um cérebro, verdadeiramente humano, precisa estar inscrito no corpo. E esse corpo precisa interagir com outros humanos.

Se um indivíduo humano não interagir com outros, ele simplesmente não vira um sujeito. Ele não produz uma mente como a nossa. Há exemplos clássicos, um exemplo clássico talvez, seja o de Kaspar Hauser que foi um jovem que, desde pequeno, foi tratado, um caso real foi tratado numa cabana até os 18 anos. Ele não tinha contato com ninguém. Era alimentado por baixo da porta, de vez em quando botavam ópio, ele dormia. Então, iam lá davam banho, trocavam de roupa. Até os 18 anos, ele nunca tinha visto falando com ninguém.

Aos 18 anos ele é solto e vai para uma cidade e tem um fim trágico. E, há um filme sobre Kaspar Hauser do Werner Herzog, o que é muito interessante e que demonstra essa tese. Ele fez um filme. Hoje em dia é a neurociência quem diz, não é um psicanalista que está dizendo, é a neurociência quem diz.

O cérebro humano para fazer as redes neurais, construir as redes neurais, de modo que apareçam um sujeito, ele precisa interagir com outros humanos.

Portanto, se é verdade que sem cérebro, não há mente, sem vida social também não há mente. Por mais que a gente tenha um cérebro muito bem formado.

Quando a gente começa a deslocar o centro de gravidade do indivíduo, do interior do indivíduo para a relação do indivíduo com o mundo em que ele vive, as coisas mudam de figura. Então, as coisas mudam de figura. Então, nem a ciência não tem explicação para tudo.

A ciência tem explicação para certas coisas. Há outras para as quais a gente precisa aduzir outros elementos que não são, por exemplo, da ciência biológica.

Para compreender porque é que as pessoas agem de determinadas maneiras, é preciso à gente lembrar de que aquela pessoa é um efeito, aquela subjetividade individual, é o efeito, é como se fosse um holograma que emerge da interação entre cérebro, corpo e mundo. Mundo físico e mundo simbólico. A gente pode mudar as…

Publicado em 17/04/2013

O que é ser “normal”? O que significa “patologia mental”? Qual o limite entre uma diferença extravagante e a expressão de uma doença da mente? Como lidar com os que rotulamos como sendo loucos ou portadores de transtornos mentais? Estas e outras questões contextualizam a história da psicopatologia no Brasil, tema deste Café Filosófico CPFL, que terá a participação de Benilton Bezerra, psicanalista, psiquiatra e professor do Instituto de medicina social da UERJ. “Uma das maneiras de refletir sobre a cultura brasileira, passada e atual, é explorar as maneiras como o olhar psiquiátrico e o imaginário social lidaram, e lidam, com essas questões”, afirma Bezerra. Segundo ele, a “ainda pouco conhecida história psiquiátrica brasileira tem capítulos tristes e outros vigorosamente estimulantes. A cultura brasileira atual é atravessada pela expansão aparentemente ilimitada dos transtornos mentais. Este encontro visa abordar alguns dos tópicos centrais desse universo temático.

Benilton Bezerra possui graduação em Direito e em Medicina, mestrado em Medicina Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1982) e doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1996). Atualmente é professor adjunto no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pesquisador do PEPAS (Programa de Estudos e Pesquisas sobre Ação e Sujeito (IMS/UERJ) e membro da direção do Instituto Franco Basaglia no Rio de Janeiro. Membro da direção da ONG Casa da Árvore. Participa como pesquisador do projeto de cooperação intercultural Brasil/Alemanha PROBRAL (CAPES/DAAD) sobre o tema: “O sujeito cerebral: impacto das neurociências na sociedade contemporânea”.

Vocabulário:

1) Banzo: era como se chamava o sentimento de melancolia em relação à terra natal e de aversão à privação da liberdade praticada população negra no Brasil na época da Diáspora africana. Foi também uma prática comum de resistência à escravidão.

A prática do banzo era uma forma de protesto caracterizado como uma greve de fome. Também eram comuns, como forma de resistência na época, a prática do suicídio, do aborto, do infanticídio, das fugas individuais e coletivas e a formação de Quilombo. (Wikipédia, a enciclopédia livre).

2) Drapetomania foi um diagnóstico médico proposto em 1851 por Samuel A. Cartwright, um médico que exercia a sua profissão em Luisiana, nos Estados Unidos e que era membro da Louisiania Medical Association. O diagnóstico visava explicar a tendência humana de querer escapar. Incidentalmente, somente pessoas de origem africana sofriam deste mal na sociedade em que vivia o Dr. Cartwright. (Wikipédia, a enciclopédia livre).

1TranscriçãodapalestraemvídeotransmitidapelatvculturanoprogramacaféfilosóficocomopsiquiatraBeniltonBezerraJr.emCampinasepublicadaem17/04/2013comaduraçãode1h32mine57segundos.Ovídeoestádisponívelnosite:http://www.youtube.com/watch?v=k4T4DZux6hk

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s