MANIFESTO POR UM MEMORIAL DA AMNÉSIA E O VÍDEO A MARÉ SANGRA (com Marcelo Freixo)

Vamos fazer o trabalho de luto dos mortos.

Estamos indignados. Saímos às ruas.

Somos diferentes, mas de todos lados irrompe algo que parece ser da mesma ordem: algo que vimos chamando de “violência”. Homens armados pelo Estado contra os corpos das pessoas que soltam suas vozes e caminham pelas ruas. A mídia criminosa que desqualifica as ações justas dos movimentos sociais e mentem sem a menor vergonha. As Mães das Favelas não conseguem enterrar tantos filhos. Jovens cooptados para o tráfico a cada dia. A Comissão da Verdade abre a caixa preta das torturas e dos assassinatos da ditadura. Os líderes indígenas de todo o país, e sobretudo os do Mato Grosso do Sul, músicos e agricultores da multiplicidade de grãos, que atravessam pacíficos e corajosos um estado devastado pela fúria do agronegócio, recebem há décadas contra si tiros de pistoleiros, injúrias, atropelamentos. Os sistemas ecológicos — rios, cachoeiras, florestas, peixes — são destruídos com o apoio da força bélica, produzindo mais pobreza. No cotidiano, o racismo que construiu uma arraigada hierarquização na sociedade, na exclusão dos negros para as periferias e os cárceres.

Violência após violência. Naturalizamos a violência. Torturadores andam soltos nas ruas, no Congresso, nos ministérios, nas polícias, no exército, utilizando os mesmos métodos. Alguns homens fortes da Ditadura pretendem não se lembrarem ou não terem tido conhecimento dos crimes das torturas e assassinatos. Cada indígena morto e negro favelado é apenas um a mais nos noticiários.

Caminhamos sobre mortos. Fomos construídos sobre cadáveres. Tropeçamos sobre os cadáveres mal enterrados. Fomos erguidos sobre a maior catástrofe demográfica do planeta: o genocídio dos povos indígenas. Vivemos como zumbis andando sobre estes escombros.
É hora de parar e enterrar estes cadáveres. Expurgar o holocausto. Saber que ele existe. Temos milhares de mães nas favelas chorando seus mortos, pelos cantos dos hospitais onde trabalham como faxineiras, nas casas como domésticas, nas ruas como garis. Temos milhares de mães com os filhos encarcerados. Temos centenas de indígenas chorando seus filhos atropelados, seus pais assassinados. O que fizemos com tudo isto? Como podemos aspirar à tranquilidade burguesa nos bairros da classe média se negamos que esta violência existe?

Como, enfim, pensar o futuro se não acompanhamos estes cadáveres em nosso trabalho de luto?

Vamos marchar pelas ruas levando em nossos braços a memória de cada um destes mortos da história de cada família, disso que vimos chamando de “Brasil”. Deixemos de aclamar este país como o do povo pacífico.
(Rosângela Pereira de Tugny, professora da Escola de Música da UFMG)

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