Prefácio do livro Certeza do agora de Juliano Pessanha escrito por Peter Pelbart

Não espere o leitor, deste último volume da trilogia sulfurosa de Juliano Pessanha, intitulado Certeza do agora, qualquer certeza para os tempos presentes. Da primeira à última de suas linhas, é outra coisa que está em jogo: demolição. Como Thomas Bernhard, o autor se dá por tarefa denunciar o pacto da universal hipocrisia que assegura nossa existência cotidiana. E desvela a argamassa metafísica que, a cada instante, nos impede de desabar. Mas com isto, paradoxalmente, vemos ruírem um a um todos os personagens competentes que garantem o “negócio da administração da vida”, pais, educadores, psiquiatras, socializadores, homens da cultura – todos os que fazem as vezes de carcereiros da vida. Nesse acerto de contas ilimitado, que o narrador não deixa de ampliar e preterir a cada passo, não há sombra de ressentimento, mas a força de um diagnóstico que cabe, a cada um dos textos reunidos no livro, modular conforme seu gênero, seja ele poético ou ensaístico.
A partir da autobiografia do personagem Gombro (sem dúvida inspirado no escritor Witold Gombrowicz), temos acesso às estratégias de sobrevivência que uma criança inventa para contornar a cristalização do mundo em coisa, para desafiar todos aqueles que fazem da palavra o instrumento prostituído de uma dissimulação generalizada. Como evitar o homicídio que nos é proposto desde a mais tenra idade, como driblar o apagamento do rosto próprio, como fugir à narrativa de si já sempre terceirizada pelos que nos “cuidam” ou nos “amam”? A resposta que o autor oferece é poética. Só retomando por conta própria os sufocamentos e revides (“Passei boa parte de minha vida gritando em túneis, janelas e becos”), deitando por escrito a percepção precoce da morte e do infinito, da dor e da ausência. Só assim rompe-se a linearidade factual de uma vida, e pode ela ser esburacada pela série de perguntas que a cadenciaram: “Há-alguém-aí? Há alguma vida verdadeira no planeta? Por que a assim chamada vida familiar e a assim chamada vida escolar e a assim chamada vida social trituram a criança possível? Por que sobrevivem apenas os falsários, os que se identificam com a criança morta?”
Deleuze dizia que numa literatura dita “menor”, como a de Kleist, Kafka, Beckett, Gombrowicz, e diferentemente da literatura dita canônica, o escritor necessariamente atinge em si seu próprio ponto de bastardização, ele escreve a partir de seu ponto de subdesenvolvimento, de seu terceiro mundo, de seu patoá, de seu deserto. Como tornar-se o nômade e o imigrado e o cigano e o vidente de sua própria língua? Juliano Pessanha responde revisitando seu deserto íntimo e dando voz, a partir de seu exílio interno, às questões e aos gritos soterrados. Mas ao retomar-se por meio de sua narrativa esburacada, evita o risco da confissão lamurienta: faz da autobiografia um instante de celebração, um acontecimento jubiloso, uma meditação ziguezagueante em que a palavra e o abismo passam a pertencer-se mutuamente, assim como a noite e a vida.
Como se vê, tudo aqui é matéria para a mais sutil filosofia, domínio no qual o autor passeia com desenvoltura. Mas ele não se autoriza a falar filosoficamente a partir de um saber competente (que aliás, não lhe falta), e sim a partir da indigência e da abertura. Podemos compartilhar menos ou mais de seu enfoque filosófico, o que importa é a acuidade do diagnóstico, a pertinência com a qual ele “planta sua inquietude” e recusa o “domingo ontológico” e seus avatares contemporâneos. Esse livro enfrenta com coragem poética nossos tempos sombrios de “mobilização total”, de “alcoolismo existencial”, da vivência concebida como “engorda” à identidade¬ em suma, do que Nietzsche chamaria de niilismo.
Seria preciso atribuir a Juliano Pessanha aquilo que ele diz de Heidegger, mas que é próprio de uma linhagem literária do século 20, desde Kafka e Musil, até Cioran e Blanchot: a virtude de pôr o mundo em estado de hesitação, a capacidade de tornar-se máquina de desfazer presentidade. Para além ou aquém do filósofo que mais o inspirou (a britadeira-Heidegger, ou o cuco maior, como ele diz não sem uma ponta de comicidade), é preciso reconhecer a voz única que o próprio autor criou para si, e que se faz ouvir nos textos por ele reunidos, e sobretudo na extraordinária autobiografia em torno da qual “giram”, por assim dizer, os ensaios e poemas que a acompanham, dando-lhes essa unidade secreta. Voz sussurrada a partir da morte, do grito e da sublevação. Nela se aliam o humor e o frêmito, o detalhe prosaico e o enlevo do pensamento, a causticidade do cronista e a distância consigo mesmo.
Não há heróis, nessa história sem história, apenas essa voz com um ritmo de tirar o fôlego, capaz de reconquistar o seu “agora” sem abrir mão da errância que lhe deu origem. Pois em meio ao presente de desencanto, o autor propõe o mais singelo e vulcânico dos gestos: introduzir “entre o chão e a cratera” uma palavra de hesitação, de espera e de pressentimento.

PESSANHA, Juliano. Certeza do agora. São Paulo, Ateliê, 2002.

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