não é mais possível viajar, que estamos todos atualmente condenados ao turismo. Ao invés da novidade, da estranheza e do imprevisto que o viajante buscava em suas andanças, o que o turista encontra junto com pacote é a emoção previsível, o exotismo calculado e a liberdade de escolher entre inúmeros recuerdos e souvenirs. Conhecer um lugar significa simplesmente ter posto os pés nele. O turista se tornou um colecionador de lugares visitados. Para o personagem de Bertolucci, assim como para Goethe, viajar era outra coisa: significava aventurar-se, abrir-se ao desconhecido, ao estranho, se deixar afetar por ele, de alguma maneira voltar da viagem um pouquinho diferente do que se era na partida.

As diversas formas de ir e voltar

BENILTON BEZERRA JR.

Durante uma viagem a Roma em 1786, Goethe escreveu numa carta aos amigos: “Nada há, de fato, que se compare à nova vida que a contemplação de uma terra estranha descortina ao homem afeito à reflexão. Embora eu siga sendo sempre a mesma pessoa, creio ter mudado até os ossos”. Este comentário, que se encontra no livro Viagem à Itália, é uma das descrições mais admiráveis do que seja viajar.

Goethe consegue, de uma maneira muito simples e feliz, identificar três elementos decisivos para a experiência de uma verdadeira viagem: a contemplação do estranho, a abertura de um novo horizonte vital e a transformação de si mesmo.
Para o olhar de um leitor contemporâneo, essa pode parecer uma definição um tanto pomposa ou exagerada. Afinal nunca houve tanto deslocamento de pessoas e populações quanto hoje em dia e não consta que turistas se sintam tão afetados pelas viagens que fazem. Simplesmente afastam-se de sua vida rotineira por um tempinho, conhecem novos lugares, se divertem ao máximo e voltam felizes e reconfortados para casa. Viajar, hoje em dia, parece ser simplesmente um item de qualquer receita para se ter uma vida prazerosa. Ninguém sente que mudou sua maneira de olhar o mundo ou a vida, nem muito menos tem a sensação de ter “mudado até os ossos” apenas porque saiu de onde mora para conhecer outros lugares.

No entanto, o que parece apenas uma observação do bom senso esconde um elemento muito importante da nossa cultura atual, que atravessa e marca a maneira como damos significado à vida, ao mundo que nos cerca e à nossa própria experiência subjetiva.

No filme de Bertolucci chamado O céu que nos protege, um personagem diz que já não é mais possível viajar, que estamos todos atualmente condenados ao turismo. Ao invés da novidade, da estranheza e do imprevisto que o viajante buscava em suas andanças, o que o turista encontra junto com pacote é a emoção previsível, o exotismo calculado e a liberdade de escolher entre inúmeros recuerdos e souvenirs. Conhecer um lugar significa simplesmente ter posto os pés nele. O turista se tornou um colecionador de lugares visitados. Para o personagem de Bertolucci, assim como para Goethe, viajar era outra coisa: significava aventurar-se, abrir-se ao desconhecido, ao estranho, se deixar afetar por ele, de alguma maneira voltar da viagem um pouquinho diferente do que se era na partida.

Abandonar um pouco de lado as referências e as marcas que definem o que gostamos, sentimos e queremos, e deixar que a convivência com o estranho, o diferente, estremeça algo de nossos hábitos mentais e afetivos, livrando a imaginação das amarras que a rotina impõe.

Viajar, nessa perspectiva, significa ampliar a experiência do sujeito, trazendo para dentro do seu campo algo que era antes incapaz de ser percebido, sentido ou pensado. A idéia mais provocante que Freud teve, e que até hoje incomoda muita gente, é a de
que nós somos muito mais complicados do que gostaríamos de ser e que esta complicação tem a ver com o fato de que nós não somos, nem jamais seremos, transparentes para nós mesmos. Ser um sujeito humano é estar sempre às voltas com um Outro, cujos desígnios tentamos desvendar sem jamais ter a certeza de compreender. Muitas são as figuras desse Outro. Elas se encontram nas imagens, desejos e culpas inconscientes que dirigem boa parte de nossa vida consciente sem que nos demos conta disso. Estão presentes, desde o início de nossa existência pessoal, na dificuldade de decifrar o que devemos fazer — como devemos ser, para garantir o amor daqueles dos quais nossa vida depende (a figura materna em primeiro lugar) – dificuldade impossível de ser superada, pois também eles são habitados por desejos e afetos inconscientes que desconhecem e não governam. Mais adiante. a face enigmática desse Outro aparecerá na dificuldade – e na exigência – de construirmos um sentido para nossa história pessoal, para os valores que adotamos, para as realizações que perseguimos, para os sentimentos, dores e prazeres que experimentamos. Ser um sujeito é levar adiante esse processo e construir uma narrativa de si que consiga envolver, em mantos de significação, as complexas, às vezes contraditórias e até caóticas, vivências do eu.

Há várias maneiras de levar adiante essa tarefa, esse processo de subjetivação, mas de um modo muito geral podemos dizer que na maior parte do tempo vivemos num equilíbrio tenso entre imagens, narrativas e ações que nos reasseguram, nos dão sentimento de estabilidade e conjugam uma identidade na qual nos reconhecemos, e outras que, ao contrário, nos impelem a ser diferentes, a abandonar certas posições subjetivas, a arriscar.

Essas últimas correspondem ao plano dos ideais, daquilo que não somos mas podemos vir a ser, daquilo que nos é estranho mas que passamos a vislumbrar como possível de ser incorporado ao nosso universo subjetivo. Quando esse pólo da vida subjetiva ganha força, somos mais facilmente capazes de abandonar um pouco nossas carapaças defensivas, nossas identidades estabilizadas, nossa percepção previsível do mundo e da vida. Abrem-se novas vias identificatórias. É o que nos permite, em certos momentos privilegiados, “ver as coisas com outros olhos”, nos “colocarmos na pele do outro”, imaginar o impensável, sentir o que era antes impossível, ser diferente do que éramos.

Foi esse tipo de experiência que Goethe teve na Itália. Os cheiros, os gostos, o jeito de falar e gesticular, o barulho das ruas, a maneira de conversar, os hábitos e as regras de convivência, nada lhe escapa, tudo o encanta. Cada um desses pequenos detalhes revela algo de um universo que lhe é tão próximo e ao mesmo tempo tão estranho e diferente. É essa abertura ao estranho e a possibilidade de contemplá-lo e deixar-se invadir que permite ao escritor alemão fazer de sua viagem à península um mergulho do qual ele emerge “a mesma pessoa, mas mudada até os ossos”. Não basta ir a outros lugares para efetivamente viajar. Pode-se percorrer o mundo todo e na verdade nunca sair de casa.

E, ao contrário – e esta é uma das maravilhas do mundo contemporâneo, como sabem os bons professores – é cada vez mais possível viajar sem precisar fazer as malas. As tecnologias de comunicação e audiovisuais atuais põem à disposição de quem tem a sensibilidade para isso universos que Goethe mal poderia imaginar: países longínquos, culturas extremamente particulares, inacreditáveis regiões do mundo da vida animal, dimensões assombrosas do cosmo, além das verdadeiras viagens no tempo por meio de documentários históricos — enfim a lista das possibilidades só faz crescer. Faz turismo quem tem dinheiro; viaja quem tem olhos (e desejo) pra ver.

Assim, na contramão do turismo massificado e consumista, as verdadeiras viagens estão à espera dos que se aventuram “por mares nunca dantes navegados”. Não os dos oceanos, esses já foram todos mapeados (e poluídos). Mas os mares da experiência humana não cessam de se expandir. E estes estarão sempre à espera dos verdadeiros viajantes.

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