“Gilles Deleuze: a grande aventura do pensamento” – Prefácio de Luiz Orlandi ao livro de Claudio Ulpiano lançado nesta segunda-feira, 08 04 2013 no RJ

ELOGIO A UM SIGNOLUZ

Por que este prefácio assumirá uma forma elogiosa? Por uma razão muito simples: fazer de um breve prefácio a ocasião para um exame judicativo das articulações de idéias cintilantes nesse livro seria uma presunção descabida e uma opção traiçoeira do processo criativo nele atuante. Vestido de letras judicantes, tal prefácio seria apenas irrisório frente ao espírito pensante que voa por essas páginas. Irrisória traição, sim, porque a expressão das idéias oferecidas aqui ao leitor é irredutível às dimensões empíricas das proposições: aos significados das palavras, aos objetos referidos, às subjetividades em jogo. E mais irredutível ainda, neste caso, porque o livro implica uma dobra-de-razão muitas vezes esquecida: é que a potência de pensar ganha, aqui, uma expressão inseparável do modo como essas idéias conquistaram Cláudio Ulpiano; e o conquistaram apaixonadamente durante muitos anos de dedicação solitária e coletiva ao pensamento deleuziano.
Por isso, torcerei este breve prefácio no sentido de manifestar uma dupla admiração: pelo autor como signoluz e pelo entusiasmo que esse livro envolve. No Brasil há muitas linhas de estudo, de pesquisas, de publicações, de simpósios etc. direta ou indiretamente envolvidas com dimensões práticas e teóricas que preocuparam Gilles Deleuze e Felix Guattari.
Pois bem, suponhamos que fizéssemos a seguinte pergunta a cada leitor das obras desses pensadores: qual foi o caminho que o levou a se interessar pelos escritos deles? Não se saberia antecipar o leque das respostas, obviamente. Mas é absoluta a certeza de uma coisa: um número muito considerável delas colocaria o nome de Cláudio Ulpiano como extraordinária presença intercessora em seus caminhos.
Sim: extraordinária presença intercessora. Vale dizer: uma fecunda presença de signoluz desencadeando aberturas da sensibilidade para novas maneiras de pensar. Aliás, dizer isso torna igualmente irrisória a própria contabilidade das respostas; é que ninguém é lançado ao mar de uma filosofia a partir de referências professorais destituídas de alguma coisa mais estranha, até mesmo anômala. Essa coisa mais estranha aparece como um diferencial alheio a receituários didáticos, a catedráticas palavras de ordem… Essa anomalia parece advir como ondulações inesperadas em privilegiados momentos de um aprender embalado por bons encontros. Há inúmeros testemunhos que guardam o nome de Cláudio como agradável e acesa memória dos seus caminhos rumo à filosofia. E esses testemunhos deixam ver o quanto os envolvidos vivenciaram esse tipo de encontro com ele.
Quero também dizer que, de algum modo, posso me colocar entre os partícipes dessa experiência, embora tenham sido poucos os meus encontros pessoais com Cláudio. Poucos encontros, com efeito, mas que se mantiveram extremamente fáceis, alegres e duradouros. É provável que isso tenha acontecido graças aos inter mundos neles nascidos. Apesar de nos termos encontrado como professores universitários (lado pesado), e apesar de dedicarmos uma atenção especial ao estudo do pensamento deleuziano (lado leve), em momento algum surgiu entre nós o sinal da maligna tentação de sondar até onde iria o conhecimento do outro ou de julgar o alcance de nossas respectivas maneiras de sentir e pensar essa filosofia. Sabe-se que essa maligna tentação é capaz de horrores entre colegas de todos os naipes profissionais e empresariais. Os códigos morais são impotentes diante disso, pois cada lado sempre arruma um transcendente como apoio para justificar seus exageros. Talvez ajude melhor o esforço por uma ética de composições produtivas mutuamente úteis aos partícipes de um movimento.
Aquela boa experiência de bons encontros em torno de variações filosóficas não quer dizer, portanto, que estávamos fora do mundo? Ora, pelo que se sabe, nunca as filosofias estiveram fora de mundos. E a atração por elas envolve ou desenvolve um desassossego relativamente ao que se encontra na atualidade imediata das nossas inserções espaciais e temporais. Elas geram até mesmo a certeza de que as variações do pensar e as variações do agir só encontram uma razão satisfatória em sua correspondência com mudanças no mundo em que se vive. E esse tipo de certeza invade os que as apreciam com ardor. Apreciar com ardor, este indício que certos animais parecem conhecer em contato com gramíneas do campo, com folhas de árvores ou com carnes alheias; o indício de se sentir vivo em plena gustação de magníficas criações conceituais, gustação variadamente posta ao alcance de todos os humanos, animais multideslocados pelos encontros… Para alguns, isso vira destino, sem dúvida, e é isso que esse livro também testemunha: o gosto por aventuras conceituais do pensamento.
Em linguagem espinosista, nossos campos afetivos e cognitivos, libertos de restrições disciplinares ou controladoras, compunham-se no sentido de experimentarmos, cada um a seu modo, essa atraente e benfazeja reviravolta filosófica. Esses termos delineiam suficientemente bem a atmosfera alegre e amigável do nosso respeito mútuo: era-nos atraente a experiência propiciada por essa aventura filosófica, e isso graças a mil e um aspectos, dos quais, para abreviar, destaco apenas a idéia de conceitos como anéis partidos, recombináveis por força de problemas vindos à pauta; e experiência benfazeja, porque aberta à vida, aos ventos de fora, assombrosos furacões ou sopros líricos.
Espreitávamos e nos dispúnhamos a mundos de alianças em meio a combates numa imanência avessa aos intoleráveis. O intolerável é multiplicidade: há linhas duras de guerras inter imperialistas, terrorismos de Estado, exploração capitalista, desprezo a outras maneiras de viver, mas também linhas intoleráveis de burocracias universitárias do saber, de privilégio de umas linhas de pesquisa sobre outras em órgãos financiadores etc. Os que tiveram a boa sorte de conviver com Cláudio atestam o quanto seu modo de atuar transformava-o em aliado de lutas dignificantes.
Ao mesmo tempo, ainda que descontinuamente, entretínhamos uma espécie de diálogo feito de ressonâncias. E é nas ressonâncias de agora que volto a entrever em Cláudio algo como um signoluz, ou seja, uma clareza que se sabe envolta não pela escuridão, mas pela insistência de variabilidades arredias a iluminações macro centradas em seja qual for o transcendente. E isso impunha a necessidade de mais e mais encontros, da participação de mil e um outros videntes, tipo lutas, gente, paisagens, animais, idéias, palavras, coisas, artes, ciências… E acho que isso acontecia e acontece porque nunca foi nosso feitio inibir, seja por exorbitância ególatra ou por estreiteza partidária, o alcance das palavras, das coisas, das gentes, ciências, artes, sentimentos e combates… como vetores de problematização da dramaturgia das idéias. E era um prazer apreciar a agilidade mental de Cláudio, a tonalidade envolvente de sua voz acalentando as cognições. Sua presença era um presente que seu livro agora reitera. Gostaria apenas que ele fosse lido de maneira informal. A informalidade, às vezes, tem o poder de um filtro seletivo. Um filtro capaz de deixar que o esforço de pensar seja ocupado justamente por aquilo que desencadeia na mente esse próprio esforço: a complexa problemática dos encontros vitais.
Luiz B. L. Orlandi
novembro de 2012
DF – IFCH – Unicamp

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s