Carta aberta a John Cassavetes por Jim Jarmusch

Há um sentimento especial quando me preparo para ver um dos teus filmes – uma expectativa. Não interessa se já vi o filme (por esta altura, acho que já os vi todos, várias vezes). Ainda tenho essa mesma sensação. Espero algo que pareço ansiar intensamente, uma espécie de iluminação cinematográfica. Enquanto fã de cinema ou realizador (na verdade, já não existe uma linha divisória para mim), antecipo uma explosão de inspiração. Quero uma iluminação formal. Preciso que me sejam reveladas as consequências secretas de um jump-cut [edição que dá a impressão de que houve um pulo, já que utiliza um mesmo objeto e, em seguida, este mesmo objeto já se mexeu, devido à uma ligeira mudança no posicionamento da câmara].

Quero saber como a crueza dos ângulos da câmara ou a granulosidade da película se integram na equação emocional. Quero aprender sobre representação através das atuações, sobre atmosfera, através das luzes e dos locais de filmagem. Estou pronto, totalmente preparado para absorver “a verdade a 24 fotogramas por segundo”.
Mas o importante é isto: Mal o filme começa, apresenta-me o seu mundo e fico perdido. A antecipação daquela iluminação especial evapora-se. Deixa-me ali, no escuro, sozinho. Os seres humanos habitam agora esse mundo dentro do ecrã. Também parecem perdidos, sós. Observo-os. Observo cada detalhe dos seus movimentos, as suas expressões e reações. Ouço com cuidado o que cada um diz, até às margens esgotadas do tom de voz de alguém, a velhacaria oculta no ritmo do diálogo de outra pessoa. Já não penso em representação. Abstraí-me do “diálogo”. Esqueci-me da câmara.

A iluminação que ansiava de ti está a ser substituída por outra. E esta não convida análise ou dissecação, apenas observação e intuição. Em vez de entender, digamos, a construção de uma cena, sinto-me iluminado sobre as engenhosas nuances da natureza humana.

Os teus filmes são sobre amor, sobre confiança e desconfiança, sobre isolamento, alegria, tristeza, êxtase e estupidez. São sobre inquietude, embriaguez, recuperação e luxúria, sobre humor, teimosia, erros de comunicação e medo. Mas, acima de tudo, são sobre amor, e levam-nos a um lugar bem mais profundo do que qualquer estudo acerca de “forma narrativa”.

Sim, és um grande cineasta, um dos meus favoritos. Mas o que os teus filmes iluminam de modo mais impressionante é que o celuloide é uma coisa, e a beleza, estranheza e complexidade da experiência humana são outra.

John Cassavetes, tiro-te o chapéu. E seguro-o sobre o meu coração.

Jim Jarmusch (9/2000)

(Argumentista e realizador de Stranger Than Paradise, Down By Law, Night On Earth, Dead Man, Ghost Dog: The Way of the Samurai, Coffee and Cigarettes, Broken Flowers, entre outros.)

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