Vídeo palestra “Alegria e o Trágico em Nietzsche” com a transcrição integral

 

Como vocês sabem, eu vou falar sobre alegria e o trágico em Nietzsche. Eu começaria dizendo que um dos objetivos de Nietzsche, ao criar uma filosofia que ele chamou de trágica, é possibilitar o que ele também chamou de Gaia Ciência. Quer dizer, um saber alegre, um pensamento que defende a alegria de viver e isso, no sentido forte, é uma alegria incondicional com a vida, com a realidade; eu enunciaria até de uma outra maneira, uma aprovação jubilatória da existência.

São muitos os textos de Nietzsche que vão nesse sentido. Eu privilegiarei para falar hoje da alegria e de sua relação com o trágico um lugar, onde a meu ver esse tema é apresentado com mais relevância. Assim falou Zaratustra. Eu acredito que esse livro pode ser considerado o ápice da filosofia de Nietzsche. Isso por que é nele que para ser coerente com a idéia de trágico, a idéia de trágico como uma tentativa de escapar da racionalidade, daquilo que Nietzsche chamou de racionalidade conceitual sistemática, teórica, doutrinaria, da filosofia. Quer dizer, para escapar da racionalidade filosófica, Nietzsche em Assim Falou Zaratustra vai utilizar uma forma de expressão que eu chamaria de artística ou, ainda mais precisamente, uma linguagem poética. Portanto, fazer filosofia não segundo um modelo da racionalidade científico-filosófica, e sim através de um modo de expressão artístico, poético. É isso que é Zaratustra. Esse livro me parece que ele é o ápice da filosofia do Nietzsche e o ápice da enunciação de um tipo de pensamento que o Nietzsche chamou de trágico.

Pois bem, a passagem, o trecho mais elucidativo da relação entre a alegria e o trágico se encontra em um dos capítulos mais importantes do Zaratustra. Esse capítulo que é da terceira parte do livro se chama da visão e do enigma, e eu vou falar mais precisamente, sobre tudo, do final deste capítulo da visão e do enigma que é um trecho que eu poderia intitular de a serpente e o pastor. E vocês verão quando eu desenvolver o tema, como essa forma de expressão artística ou poética do trágico, característica do Zaratustra, está bem presente nessa passagem que irei analisar. Isso porque no fundo eu vou lhes falar de uma visão e, mais ainda, vou procurar decifrar o enigma.

A visão justamente que faz sentido ao titulo do capitulo é narrada pelo Zaratustra. Veja bem, o que eu falei de aspecto poético e não racional, doutrinário, teórico. É um livro que tem personagens e Zaratustra, como vocês sabem, é o personagem central, o personagem principal do livro. Pois bem, no final da primeira parte do livro e também no final da segunda parte do livro, Zaratustra resolve abandonar os seus discípulos. Sua idéia é que dignifica-se muito pouco um mestre quando se permanece em seu discípulo. Então ele manda cada um ser seu próprio mestre e ele começa uma caminhada que é a sua grande solidão. Triste, ele abandona os discípulos que estão nas ilhas bem aventuradas. Vocês vêm que é uma historinha. Ele pega um navio em busca do continente e é durante essa viagem pelo navio, por alto mar, isso é importante porque o Nietzsche tá querendo assinalar longe de todo porto seguro. Vocês vão ver que a questão da coragem do pensar está bem presente nesse texto que eu vou comentar. Portanto: Durante uma viagem de navio por alto mar longe de todo porto seguro o Zaratustra vai narrar a corajosos marinheiros, corajosos marinheiros que como diz o texto empreendem longas viagens e não gostam de viver sem perigo. Zaratustra, portanto, vai narrar a seguinte visão. Um dia pouco antes, justamente logo depois de ter abandonado os discípulos para pegar o navio e voltar para a solidão de sua caverna, Zaratustra encontra, ou, se encontra, ai vocês vejam não é só os personagens que são importantes, mas também o entorno, o cenário. Então é sempre interessante situar o que é dito, com relação a quem disse e com relação a onde é dito e em que circunstancias é dito. Pois bem, essa visão que o Zaratustra vai contar durante essa viagem com os marinheiros que também tão contando suas aventuras, como testemunho de atos de coragem que eles viveram em vários portos. O Zaratustra então, que está mudo, triste, começa primeiro a ouvir e resolve então, por insistência dos outros, falar. E ele conta que um dia, ou melhor, numa noite, sozinho no meio de selvagens rochedos no mais ermo luar; portanto é noite e não dia, isso tem a ver com todo simbolismo da luz e da sombra, do dia e da noite que no fundo remete para uma terminologia Nietzschiana do Apolíneo e do Dionisíaco. Nestas circunstâncias ele vê um pastor, um pastor de ovelhas, deitado contorcendo-se em convulsão com o rosto transtornado, com a expressão cheia de náusea e de horror, Por quê? Porque uma negra e pesada serpente pende de sua boca. Zaratustra em presença daquele acontecimento tenta puxar a serpente da boca do pastor, mas não consegue arrancá-la da garganta onde ela se fixou. Ele grita então para o pastor que ele morda e jogue bem longe a cabeça da serpente. Pois bem, o pastor segue o seu conselho, morde, cospe bem longe a cabeça da serpente e levanta-se de um pulo. Zaratustra conclui o relato de sua visão enigmática descrevendo justamente o pastor depois desta ação. Suas palavras são as seguintes – “Não mais pastor não mais homem. Um ser transformado, translumbrado, que ria. Nunca até aqui na Terra riu alguém como ele ria.” – Vocês vejam que é o tema da alegria, que é o tema do trágico. Essa visão que eu vou tentar esclarecer ou interpretar.

Me parece que para interpretar essa visão é preciso aprender o significado de dois dos seus principais componentes, quer dizer, é preciso saber primeiro quem é o jovem pastor; segundo, o que é essa negra e pesada serpente. Ora, a meu ver, dois trechos de um outro capítulo dessa terceira parte do Zaratustra, capítulo chamado o convalescente, que é um capítulo igualmente importante sobre essa questão do trágico e da relação entre trágico e a alegria, permitem esclarecer essas questões. Dois textos, portanto, vão servir para eu encaminhar minha argumentação. O primeiro, portanto, é mais fácil interpretar, diz claramente que o jovem pastor e cuja garganta se insinuou a negra e pesada serpente é o próprio Zaratustra. Vocês vejam. Zaratustra conta aos marinheiros uma visão que ele teve como pastor que estava com uma serpente entalada na garganta. A gente vai descobrir depois que este pastor era ele mesmo, e significa, por tanto, que Zaratustra tá narrando aos marinheiros uma visão da visão e do enigma. É o titulo do capitulo ou, melhor ainda, eu diria, uma antevisão, pois se trata de algo que lhe irá acontecer. Quer dizer, ele narra aos corajosos marinheiros em mar aberto uma antevisão que ele teve dele mesmo. – E ai eu lembro: não se deve esquecer que assim falou Zaratustra não é um livro sistemático e argumentativo. Eu interpreto esse livro como sendo uma tentativa nietzschiana de se utilizar livremente das formas de expressão artísticas ou poéticas da epopéia da tragédia e mesmo da prosa, do romance, de formação que a gente sabe que é um estilo literário, que nasceu no final do século XVIII, e tem como grandes criadores, grandes representantes Goethe, Hölderlin, e assim por diante. Porque eu estou dizendo isso? Porque eu estou querendo mais uma vez chamar a atenção para o fato de que Assim Falou Zaratustra é um livro que se apropria dessa forma de expressão artística para apresentar aquilo, que eu chamaria de trajetória do personagem central, para apresentar o processo de aprendizado ou de formação de Zaratustra, esse personagem título, até ele se transformar num herói trágico ou, se vocês quiserem, num filosofo trágico. Portanto, a primeira interpretação que eu daria, a mais elementar, me parece que a gente deve compreender esse pastor que esta angustiado porque ele tava apascentando suas ovelhas, deve ter se deitado no chão pra dormir um pouco e uma serpente penetrou na garganta, mas eu não disse ainda o que era essa serpente e então era a segunda pergunta que eu me fazia, o que é essa serpente negra e pesada? Pois bem, e ai eu me auxilio de um segundo trecho desse outro capitulo da terceira parte do Zaratustra, chamado o convalescente. O primeiro me parece esclarecer quem era o pastor, eu gostaria de trazer pra vocês um segundo texto que eu acho que esclarece quem é, o que é essa serpente, pois bem nesse texto o convalescente, Zaratustra diz, e essa frase é extraordinária, é muito importante, eu vou procurar explicitá-lo o máximo possível. Zaratustara diz      – “O grande fastio que sinto do homem. Isso penetrara em minha garganta e me sufocava e aquilo que proclamava o adivinho. Tudo é igual nada vale a pena, o saber me sufoca.” (Vou dizer depois quem é esse personagem o adivinho. Primeiro, vejamos a frase terrível, uma das mais terríveis do livro e que é muito importante parece para nossa atualidade. O adivinho é alguém que toda vez que ele aparece no livro Zaratustra quase esmorece, quase se torna igual a ele. E o adivinho é alguém que tá sempre lembrado o outro, vocês devem encontrar vários desses adivinhos na vida).  – Penso que há nessa referencia ao fastio, a náusea, ao nojo pelo homem, uma indicação importante, a indicação de que a serpente negra e pesada simboliza aquilo que Nietzsche chamou de niilismo. Simboliza o niilismo que sufoca Zaratustra enchendo-lhe de náusea e horror. Pois bem, não sei se vocês tão acostumados com essa terminologia Niilismo. É uma palavra utilizada por Nietzsche que vem de um termo latim “niil”, que significa nada, que significa nulidade. Pois bem, me parece que não há duvida de que essa serpente negra e pesada simboliza o niilismo, pois o adivinho é no livro um personagem niilista no sentido em que nega a vida. No sentido de ser um personagem para quem a vida não tem valor ou para quem a vida tem valor de nada, mas isso ainda diz pouco, é também indispensável salientar que se trata, quando se fala do niilismo do adivinho, de um tipo especifico de niilismo. Pois bem, eu gostaria de propor para vocês uma interpretação do conceito de niilismo em Nietzsche, dizendo que a palavra niilismo; a palavra não é um conceito, um conceito é a definição de uma palavra, quer dizer, um conceito é uma palavra mais sua definição. Eu to querendo dizer com a palavra niilismo para Nietzsche é passível de varias definições, pelo menos quarto, é o que eu vou propor nessa palestra para que nós entendamos o que é o niilismo. Esse niilismo do adivinho, que é um niilismo simbolizado pela serpente negra e pesada, não é propriamente, vou dizer o que ele não é para introduzir os outros, não é propriamente um niilismo que é o primeiro sentido da palavra. Portanto o niilismo da serpente negra e pesada não é um niilismo considerado como desvalorização da vida, o niilismo é sempre desvalorização da vida, isso que Nietzsche chama de niilismo é achar que a vida não tem valor, quer dizer, esta vida, esta vida temporal, esta vida sensível, esta vida que estamos vivendo agora, assistindo e dando essa palestra. Pois bem, o niilismo do adivinho não é o niilismo considerado como desvalorização da vida em nome de valores superiores. Essa expressão valores superiores em Nietzsche significa sempre valores superiores a vida, valores que vem julgar a vida a partir de um ponto de vista superior como se houvesse, coisa que Nietzsche não aceita, um ponto de vista superior a própria vida.

Nietzsche é o filosofo da vida, então em vez de avaliar a vida, é a vida que em ultima instância que avalia, é uma idéia extraordinária, é do Nietzsche, quando a gente tá dando sentido às coisas, quando a gente ta avaliando, é o que nos temos de vida dentro de nos que avalia. Isso é uma ideia muito interessante, isso vai remeter a um conceito de vontade de potência, é a nossa vontade de potência que pode ser afirmativa ou negativa, que se expressa através de determinadas avaliações. Isso é uma ideia muito interessante, quer dizer quando alguém disser alguma coisa pra vocês tentem sempre pensar em quem é essa pessoa que ta dizendo aquilo. Quer dizer, o discurso não é neutro, sempre remete para alguma coisa que não é propriamente discurso, que não é pensamento, que é sentimento, aquilo que Nietzsche chamou de vontade de potência, e que pode ser afirmativa ou negativa, que no fundo é o que nos temos de vida dentro de nos.  Pois bem, esse niilismo negativo, esse niilismo, essa desvalorização da vida em nome de valores superiores a própria vida é o que Nietzsche chamou de niilismo negativo. Quer dizer, é aquilo que para ele foi criado pelo platonismo, quer dizer, é o inicio da filosofia racional conceitual na Grécia com Platão e seus seguidores e pelo cristianismo. Nietzsche é um filosofo curioso que nota um parentesco muito grande entre o cristianismo e o platonismo, a ponto de nós não sabermos muito bem o que é mais importante para ele; se é o platonismo tese, por exemplo, de Heidegger, ou se é o cristianismo, tese, por exemplo, de Deleuze. Mas isso mostra que há um parentesco muito grande. E há uma frase de Nietzsche terrível, mas muito interessante, eloqüente, que eu direi pra vocês: O cristianismo é um platonismo para o povo. Pensem nisso. Portanto estou querendo dizer que o niilismo negativo criado, segundo Nietzsche, foi ai que teria começado uma desvalorização dessa vida, criado pelo platonismo e pelo cristianismo que julgam e desvalorizam a vida tal como ela é. A vida temporal a partir de um mundo, que o Nietzsche diz um mundo prometido, que é um mundo supra-sensível. Olha ai essa dicotomia entre o sensível e o supra-sensível ou do temporal e do eterno. Platão é o criador, talvez, da definição, talvez, não seja a mais verdadeira, mas, é a mais bonita, sobre o tempo. Não sei se vocês conhecem. Eu vou dar a vocês de presente – “O tempo é a imagem móvel da eternidade” – Dito de outro modo o tempo é uma imitação móvel da eternidade. E significa o que? Uma superioridade da eternidade com relação ao tempo, porque o tempo é imagem, imitação, copia, de um modelo que é justamente a eternidade. E significa para Nietzsche uma desvalorização do tempo em nome de uma eternidade como sendo a essência da vida, que a gente vê no cristianismo que é uma eternidade prometida ao virtuoso, ao bom, ao verdadeiro. Porque esse mundo supra-sensível e eterno é o mundo considerado como bom e verdadeiro.

Não é isso que é o niilismo do adivinho. Esse é o primeiro sentido de niilismo, que teria começado ainda na antiguidade. O niilismo do adivinho, que se defronta com Zaratustra, também não é propriamente um niilismo entendido como desvalorização dos valores superiores. Vejam a diferença. Isso é muito interessante na interpretação da história que Nietzsche dá. O primeiro niilismo, esse que foi chamado de niilismo negativo, é a desvalorização da vida em nome de valores superiores a vida. Mas um belo dia na historia por um determinado período da historia que Nietzsche vai dizer que é a modernidade, que é o mundo moderno, portanto, não é mais o mundo antigo, o mundo grego. O homem moderno, digamos, o homem do século XVIII, o homem da época da revolução francesa, o homem da época da filosofia de Kant fez uma crítica da metafísica, fez uma crítica dessa apologia da eternidade. A eternidade não tá com nada na modernidade. A modernidade justamente é a época que inventa a história, que inventa o tempo na sua positividade. Estou querendo dizer que o niilismo do adivinho também não é o niilismo entendido como desvalorização dos valores superiores; que é um segundo sentido de niilismo, que caracteriza propriamente para Nietzsche o niilismo moderno, o niilismo burguês, e que pode ser chamado, para marcar uma diferença terminológica do primeiro que se chama niilismo negativo, pode ser chamado de niilismo reativo. Muito interessante essa palavra. Quer dizer, é uma reação que a modernidade tem com relação às teorias metafísicas, ou, ao próprio cristianismo. É a idéia da laicização da modernidade, a perda do sagrado e assim por diante.

Nietzsche, que eu acho que seria um grande publicitário, quer dizer, sabe vender bem suas idéias, inventou uma expressão que todos vocês já ouviram embora ela seja profundamente enigmática. Essa expressão é morte de deus. É uma expressão muito extraordinária porque, profundamente paradoxal, quer dizer: se deus existe ele não pode morrer. Tá no próprio conceito de deus a idéia de não morrer. Pois bem, o Nietzsche vai chamar esse niilismo reativo, o niilismo da morte de deus, não que Nietzsche seja o filosofo da morte de deus. Nietzsche não está propondo a morte de deus, eu diria, ele está constatando que esse homem moderno, burguês, a fazer uma crítica dos valores absolutos, eternos, imutáveis, no fundo estava matando deus. Eu vou explicitar bastante essa ideia aqui hoje. Estou querendo dizer que o niilismo reativo pode ser considerado como uma reação explícita aos valores superiores instaurados pela criação do deus cristão. Substituição de deus considerado como fundamento, a idéia de fundamento metafísico, pelo homem considerado; vou usar uma palavra de Kant; como condição de possibilidade. O Kant diz: a questão fundamental da minha filosofia é o que é o homem – isso é uma revolução na historia da filosofia. Até lá a questão fundamental da filosofia era deus. Quando se pensou a questão do ser, que é o objeto fundamental da metafísica, se reduziu, na filosofia cristã, o ser a deus. Pois bem o niilismo do Adivinho não é um niilismo negativo, desvalorização da vida em nome de valores superiores, também não é o niilismo reativo; considerado como desvalorização moderna dos próprios valores superiores.

A serpente negra e pesada simboliza, a meu ver, o niilismo passivo. Olha aí uma terceira expressão, niilismo passivo. E ai é muito interessante porque é um niilismo que vem depois do niilismo moderno. A serpente negra e pesada simboliza o niilismo passivo causado pela impossibilidade de suportar. Isso que é interessante. Impossibilidade de suportar que não haverá um aperfeiçoamento do homem. Quer dizer, o niilista passivo é aquele que não acredita no progresso da humanidade. Não sei se vocês sabem, não sei se vocês gostam de pensar historicamente e de privilegiar rupturas na historia; o progresso é uma idéia moderna, é uma idéia que nasceu no século XVIII, e Nietzsche já no século XIX é um dos primeiros críticos da ideia de progresso, do aperfeiçoamento da história, de uma perfectibilidade do homem na história. Quer dizer, que nós seriamos cada vez mais perfeitos. Quer dizer, o niilista passivo é aquele que não suporta a ideia de não haver um aperfeiçoamento do homem, de não haver um progresso da humanidade. O que significa dizer isso? O que ele não suporta, e por isso é triste? Não suporta, que é aquilo que o Nietzsche chama de homem pequeno; são termos interessantes que acho que relacionando a gente entende melhor; não suporta que o homem pequeno, fraco, reativo, vingativo, doente, sempre existirá. Parece-me, inclusive, que um dos grandes interesses do pensamento de Nietzsche para nossa contemporaneidade, para nossa atualidade, é ele ter previsto com muita antecedência a derrocada de uma espécie de otimismo moral o século XIX. É o momento do otimismo. Tudo bem, deus morreu, mas vamos aperfeiçoar o homem. Minha questão não é mais a promessa de um mundo futuro que venha corrigir o que nós vivemos agora. Se nós somos frágeis, fracos, vingativos, imperfeitos, mas cada vez mais a história vai nos revelar um reino da liberdade, da força, da potencia. Isso é o sentido do progresso. Esse niilismo reativo quando matava deus, matava deus em nome do homem, em nome da história. E Nietzsche foi um dos primeiros a desconfiar que o homem não tinha tanta força para ocupar o lugar de deus. Que dificilmente o homem poderia ocupar o lugar do fundamento que durante tantos séculos deus ocupou na historia da humanidade. Me parece que Nietzsche sentiu como ninguém que o maior perigo que traz a morte de deus. Quer dizer, esse niilismo reativo que quer colocar o homem no lugar de deus é a ampliação do niilismo é o aumento do niilismo é a intensificação do niilismo. Uma idéia que o Nietzsche diz poeticamente. O deserto vai crescer. E Nietzsche dizia. Os próximos duzentos anos serão terríveis e eu sempre fico pensando, a gente só viveu cem anos depois de Nietzsche. Quer dizer, ainda temos cem pela frente, portanto, não se iludam não, a coisa pode, a gente tá notando que a coisa tá indo mal e cada vez mais. Puxa. Eu sempre fico pensando nisso. Quando você compara o que eram as esperanças, os anseios da humanidade a vinte, trinta, anos atrás e tenta ver o que é hoje. Hoje ninguém mais ousa achar que todo homem vai ter um prato de comida, que seria a coisa mais alimentar, alimentar e elementar, para a humanidade. E parece que Nietzsche sentiu como ninguém que o maior perigo que traz esse niilismo reativo, esse niilismo moderno, é esse crescimento do niilismo num sentido de sua transformação em um novo e mais devastador ainda. Que é esse niilismo passivo representado no livro poético Assim Falou Zaratustra por esse personagem o Adivinho. Que é um personagem curiosamente inspirado em Shopenhauer. Não sei se vocês sabem que Nietzsche foi discípulo de Shopenhauer. Nietzsche era um filólogo. Um jovem filósofo e filólogo, estudante de filologia, estudava o pensamento poético grego. Um dia entra numa livraria e descobre um livro de Shopenhauer. Fundiu a sua cabeça, foi pra casa e, sei lá, se conta que passou dias sem dormir, lendo aquele livro. Foi a revelação da filosofia. Isso eu valorizo muito. Isso porque, se vocês pensarem na vida de cada um, nossa vida é feita de encontros e feliz daquele que tem esses encontros fundamenteis, encontros que podem abalar a vida a ponto de seguir um determinado caminho. A partir daquele dia, Nietzsche queria era ser filósofo e escreveu, por exemplo, O Nascimento da Tragédia profundamente ainda inspirado por Shopenhauer. Mas, aqui, mais de dez anos depois, Nietzsche é aquele que disse não morreria por minhas idéias. Poucas pessoas têm coragem de dizer isso. Quando a gente consegue fazer uma idéia, ter uma idéia, coisa que a gente não tem, a gente tenta, tenta, tenta, mas não sabe como produzir idéias. Quando a gente tem uma, a gente não quer mais abandonar, a gente se aferra a ela com unhas e dentes. Eu gosto muito dessa idéia do Nietzsche e, nesse sentido, o pensador mais nietzschiano que eu encontrei foi Foucault. Que sempre falava das mesmas coisas de uma maneira totalmente diferente, tava sempre mudando. De um livro pra outro Foucault é inteiramente sempre diferente. Pois bem, Nietzsche é a mesma coisa. Lou Andreas Salomé, que foi sua amiga num determinado momento, dizia que Nietzsche era uma pessoa terrível porque a gente nunca podia segui-lo, porque mal ele escrevia um livro já queria escrever um seguinte pra mostrar justamente o contrario do que ele tinha pensado. Pois bem, o Nascimento da Tragédia é um livro profundamente inspirado ainda em Shoppenhauer. Usa uma certa idéia schopenhaueriana para explicar a tragédia grega, coisa que não interessava fundamentalmente a Shopenhauer. Mas, aqui; não nesse momento do Zaratustra que já é 82 83, portanto, mais de dez anos; ele rompeu com dois dos seus principais inspiradores, as pessoas mais marcantes na sua vida. O grande filósofo Shopenhauer e o grande músico Wagner. Então Zaratustra é uma espécie de acerto de contas com Wagner e Shopenhauer. E Nietzsche era uma pessoa terrível. Longe dele. Justamente, ele começo a achar o Shopenhauer pessimista e a elaborar uma diferença entre ser pessimista e ser trágico e, justamente, criou um personagem. Como ele vai criar um personagem que vai ser inspirado em Wagner, ele cria o Adivinho também inspirado em Shopenhauer, que é o pior dos pessimistas, que é esse niilista passivo. Quer dizer, aquele que o tempo todo na vida; ai eu dizia, vocês devem encontrar muita gente assim; vive se lamentando em seu saber triste. Inútil foi todo o trabalho, são expressões do Zaratustra, inútil foi todo trabalho, tudo é vazio, tudo é igual, tudo foi. São frases terríveis. Nada vale a pena, o saber me sufoca. Portanto, é o niilismo em que o homem aparece como incapaz de amor, como incapaz de desejo e como incapaz de criação. É o homem que não ama, não deseja e não cria. Quer dizer, não é mais homem, desapareceu o homem, é o fim do homem, é alguém que diz; não é mais Zaratustra, eu to usando a palavra de um amigo meu, o homem não deu certo e se lamenta por isso. Veja que eu acho que tem uma ressonância muito grande com o que nós cada vez vemos mais hoje nas pessoas que nos cercam. E que a gente tem que tomar distancia delas se não a gente também é dominado por essa grande tristeza. Que é o que acontece com Zaratustra no livro. Leiam se vocês nunca leram e vocês verão.

Pois bem, os dois tipos anteriores de niilismo; o negativo antigo, o reativo moderno; eram expressões de uma vontade de negar a vida. Mas essa vontade de negar a vida se fazia em nome ainda de valores, em nome de valores que Nietzsche critica como sendo negativos. Valores superiores a vida. Nós vimos dois casos. Sejam valores divinos, a idéia de eternidade, a idéia de absoluto. Sejam valores humanos que é a ideia de temporalidade, aperfeiçoamento da historia, a ideia de progresso. Valores advindos da revolução francesa que ainda vigoram. Que as pessoas tão tentando ainda. A coisa ta sempre dando errado, mas tão querendo sempre dá certo. É o ideário de muita gente. Basta ouvir um discurso político qualquer. Quer dizer, eu diria, esses dois tipos de valores são ou metafísicos ou, eu chamaria, de antropológicos, antropocêntricos. Ou tem deus como centro, como fundamento, ou tem o homem como condição. Pois bem, diferentemente deles, o niilista passivo é alguém que não tem mais esperança. Quer dizer, não tem nem esperança em deus, não acredita num céu, numa vida eterna como recompensa; como acreditava o niilista negativo; mas, também não acredita mais em progresso, em progresso humano, histórico, como o niilista reativo. Considera que o homem não deu certo e se entristece com isso. Isso e muito interessante por que isso mostra o Nietzsche. Batalhou muito com essa idéia. Essa batalha do Zaratustra com o Adivinho é o que Nietzsche sentiu, segundo ele, com seus amigos e inimigos. Quer dizer, com as pessoas que estavam em torno dele. Nietzsche é a pessoa mais solitária que eu já conheci. Do ponto de vista do pensamento, Nietzsche foi a pessoa que teve um sentimento terrível na vida e que os outros sempre negaram ouvir e, por isso, ele não poderia entrar na do outro porque ele podia ser justamente raptado para essa atitude niilista. Quer dizer, eu chamaria Nietzsche de um filósofo sem aliados e é por isso que ele rompeu com Wagner, é por isso que ele rompeu com Shopenhauer. E toda vida de Nietzsche é de rupturas. Dificilmente você encontra, sobretudo, um filósofo de que Nietzsche tivesse gostado. De vez em quando ele fala de um, não vou citar os nomes, mas ele fala de algum literato que ele gostou, mas, em geral, Nietzsche é critico, é uma desconfiança. Nietzsche é o filosofo da grande suspeita. Ninguém na vida, me parece, ousou suspeitar tanto dos valores como o próprio Nietzsche. Pois bem, porque isso? É que o mais difícil de suportar na vida, todos nos vamos entender imediatamente isso, é essa idéia, a idéia de que não há esperança, a idéia que não há esperança de eternidade futura ou de tempo futuro que venha corrigir o instante. Esse instante que nos vivemos.

Nietzsche tem um aforismo sobre a esperança. Sobre a caixa de pandora, e é muito interessante a interpretação que ele dá, que ele diz que, abriu-se, digamos, a mulher a abriu a caixa de pandora que os homens receberam e de dentro saíram todos os males e ai os homens apavorados com aquilo fecharam a caixa e não viram que dentro da caixa ficou o pior dos males. Esse pior dos males é a esperança, porque é ele que faz com que nós não enfrentemos todos os outros males, porque estamos sempre esperando que as coisas um dia vão mudar. Então Nietzsche não é o filosofo da esperança, e isso é muito difícil de suportar, e é isso que faz o pensador cair no niilismo, nesse terceiro tipo de niilismo que é o niilismo passivo. Ora, isso significa que daí também decorre a dificuldade do pensamento trágico, porque o que é que esse pensamento da não esperança diz. Que o homem, que o homem pequeno, sempre existirá. Que não haverá um aperfeiçoamento no homem, no sentido de sua plena realização um dia. Quer dizer, a grande dificuldade de um pensamento trágico é afirmar que o homem pequeno sempre existira e ao mesmo tempo não cair no niilismo pessimista, desesperado, do Adivinho; que é aquele que pensa que nada mais vale à pena. Como trabalhar ou pensar sem o conceito de deus e sem o conceito de aperfeiçoamento do homem da historia e não se sentir sem forças. Um morto vivo que vive só porque continuou vivendo e não tem a coragem de se suicidar. O niilista passivo é aquele para que o mundo não vale a pena. Mas eu também não tenho coragem de me matar. O mar secou, não da pra eu me afogar.

A meu ver foi para tornar possível uma perspectiva trágica, e ai a coisa vai ficando mais interessante, uma perspectiva trágica que vacine, Nietzsche quer nos trazer uma vacina, que vacine contra a náusea, o nojo, o fastio, o sufoco, característico do niilista passivo e a tristeza que ele acarreta que Nietzsche teve um pensamento que eu confesso a vocês é o mais interessante que eu já ouvi. Eu acho que foi a coisa mais importante que eu aprendi na vida. Ele foi tão importante pra mim que eu nem me pergunto se ele é certo ou se ele é errado. É um pensamento que faz bem, que me fez muito bem, que me ensinou profundamente a viver. Pensem nele. Vou dar de presente a vocês, se vocês não conhecem, porque realmente é um pensamento que faz bem. Hoje quando vocês tiverem em casa, na hora de dormir, àquela hora do travesseiro. É a hora que eu mais gosto do dia, quando a gente não tem nada o que fazer, já fez tudo o que tinha que fazer, vai se entregar ao sono, e ai a vida desfila pra gente e a gente ou fica triste ou fica alegre, mas a gente não vai mais mentir pra gente, o dia já passou, agora a gente vai dormir. Então vocês pensem nisso que eu vou apresentar agora pra vocês.

Esse pensamento é o pensamento do eterno retorno. Que eu acho que é o pensamento trágico por excelência. Vim falar aqui sobre alegria e o trafico em Nietzsche. Então a minha questão é essa. Como ser alegre afirmando o eterno retorno? Bom, que eu pressuponho que vocês não saibam o que é, embora saiba que sabem, mas eu vou assim mesmo explicitar, porque eu não quero pressupor nada. Acho que é o pensamento mais importante da filosofia do Nietzsche. Eu até cheguei a dizer que é o pensamento mais interessante que eu já estudei, mas também, eu diria, que é o pensamento mais difícil, mais enigmático, de toda sua filosofia. Se você me perguntasse qual é o pensamento básico da filosofia do Nietzsche, eu diria, Nietzsche é o pensador do eterno retorno. Isso não significa nada pra quem não sabe o que é o eterno retorno, então vou dar uma determinada interpretação. Desconfie de mim. A gente tem sempre que desconfiar dos professores, como dos políticos, dos padres, assim por diante. Eu to apresentando a minha visão de Nietzsche. Ela pode ajudar vocês, pode servir pra vocês. Mas o legal mesmo é ler Nietzsche, o legal mesmo é ler o Zaratustra do Nietzsche. Se vocês não têm muito tempo leiam o terceiro capítulo, quer dizer, a terceira parte o terceiro livro como ele chama. São quatro, mas esse é o mais importante ao meu ver, é o mais afirmativo, porque o tema fundamental é o eterno retorno. Existem três temas fundamentais a meu ver no Zaratustra. O primeiro, super-homem ou alem-do-homem como outros gostam de chamar, pouco importa o termo o importante é sempre o conceito; a vontade de potência ou vontade de poder, também pouco importa o termo. E então, o eterno retorno que é o que dá sentido aos outros dois numa perspectiva trágica, ao meu ver. Não vou aqui, evidentemente, fazer uma exposição geral do pensamento nietzschiano do eterno retorno, mas eu posso assinalar acredito, o mais importante nesse pensamento. É a idéia de que a vontade de potência do homem se liberta do niilismo; seja negativo, seja reativo, seja passivo; na medida em que é capaz de querer o eterno retorno de todas as coisas. Querer o eterno retorno de todas as coisas que a pessoa vive como uma maneira de fazer justiça as coisas terrenas mesmo que efetivamente essas coisas não retornem, quer dizer, cosmologicamente ou fisicamente no tempo. Eu diria que há no eterno retorno dois aspectos. Um é um eterno retorno cosmológico, quer dizer, um eterno retorno físico. É a idéia que o Zaratustra apresenta no livro. Entende que o tempo não tem começo. Olha, ele está contra a idéia platônica. O tempo imitação móvel da eternidade. O demiurgo platônico que para fazer um mundo melhor, quer dizer, mais perfeito, criaria o tempo imitando a eternidade. Isso significa o que o tempo começou num determinado momento. Antes do tempo tem a eternidade. Por outro lado, então, Nietzsche não aceita essa idéia, mas também não aceita a idéia de uma parosia. A idéia de um final dos tempos, por exemplo, o juízo final, quando o tempo termina e começa plenamente a eternidade. Então a questão colocada pelo Zaratustra no livro é essa. Se o tempo não tem inicio e não tem um fim será que eles, o passado e o futuro, sempre vão se contradizer. E ele diz, não, se não tem começo e fim ele é cíclico, ele é circular. É a idéia do eterno retorno circular. Nietzsche, toda vez que ele pensou no eterno retorno, ele pensou como sendo circular. Significa dizer que tudo acontece novamente no tempo porque o tempo sempre está voltando. Não fiquem muito preocupados não. Porque isso significaria que vocês já estivam aqui nessa palestra uma infinidade de vezes e talvez, quem sabe, pior ainda, vão estar uma outra infinidade. Porque o tempo não tem começo e não tem fim. Tá sempre voltando. Isso seria um aspecto cosmológico, um aspecto físico, ligado a um eterno retorno circular do tempo. O que eu estou querendo dizer é que Nietzsche afirma um eterno retorno de todas as coisas como uma maneira de fazer justiça ao que é terreno, ao que é temporal, mesmo que efetivamente essas coisas não retornem do mesmo modo. Quer dizer, isso de fato pouco importa para Nietzsche. Isso é uma questão cientifica. Me parece que isso não é uma questão filosófica. O que importa para Nietzsche, e ai eu diria não seria mais no aspecto cosmológico, físico. Isso é, o aspecto ético do eterno retorno. Isso que é o “x” do problema, isso que é o interessante, uma questão trágica do eterno retorno. O que importa, eu enunciaria assim, é viver como se cada instante do tempo, cada instante da vida, fosse retornar eternamente. Vejam, só pra dar um exemplo, uma coisa é vocês estarem aqui sabendo ou não sabendo, porque para ser uma volta no tempo, ser igual a outra, você não pode se lembrar do que se passou na outra, se não acrescentaria uma diferença. Mas teoricamente vocês poderiam dizer, não, já estive aqui uma infinidade, vou estar outra infinidade, então vou prestar mais ou menos atenção nessa palestra, vou pensar em outras coisas, porque vou voltar tantas vezes ainda. Então porque perder tempo tentando entender o que este sujeito está dizendo. E a outra coisa, que, pra Nietzsche, seria uma perspectiva não mais físico-cosmológica é estar como se este momento, este instante, fosse retornar eternamente. Quer dizer, é dar a força, o peso, a potência, a intensidade, do momento que se vive. Isso é muito interessante porque o Nietzsche acha que, sobretudo, o homem moderno vive de uma maneira fugidia, sem peso, sem força, e ele acha que essa afirmação da eternidade do instante é capaz de dar uma força, uma intensidade, uma potência ao instante que se vive. Quer dizer como se ele constatasse que a maior parte do tempo a gente tá num lugar e não tá, tá fazendo aquilo e não está, tá com uma pessoa e não está. Nunca está inteiramente. Para Nietzsche querer a eternização do instante vivido pela afirmação do eterno retorno deste instante é amar a vida, é esse que ama a vida. É amar a vida com o máximo de intensidade. A intensidade daquilo que ele chamou em latim de Amor Fati. O amor do fato, o amor do acontecimento, daí porque considero que o eterno retorno, quer dizer, essa idéia de que a vida retorna eternamente, considero o eterno retorno como uma hipótese. Olha, eu chamo muito atenção pra isso, não é uma teoria, não é uma tese, é somente uma hipótese, é o como se, uma suposição; eu diria melhor ainda e ai vocês vão entender porque o Nietzsche quase não falou do eterno retorno, é curioso, eu tô dizendo pra vocês que o foi o pensamento mais importante do Nietzsche, e o pensamento que mais me marcou e o Nietzsche quase não falou dele. Nas obras publicadas do Nietzsche ele só falou quatro vezes. Duas nesse texto que eu to comentando hoje com vocês, da visão e do enigma e o convalescente, e outras duas extraordinárias, uma chamada peso mais pesado é o aforismo 341 da Gaia Ciência, e depois o aforismo, se não me engano, 56 de Além do bem e do mal. Toma nota, vale à pena ler esses quatro textos do Nietzsche, que são textos extraordinários, cheios de proposições, cheio de sugestões, que só vão fazer nossa vida melhorar. Então eu to querendo dizer que o eterno retorno aparece para Nietzsche como uma suposição, como a hipótese, como a ficção. E ai eu dizia, aparece sempre enunciado ficcionalmente, poeticamente, jamais conceitualmente. Então a gente tem que se desdobrar pra encontrar o conceito filosófico que tá ali exposto de uma maneira não conceitual. Eu até diria, meio brincando com que Nietzsche diz de Homero. O eterno retorno expresso em Nietzsche como uma nobre mentira poética. Vocês sabem que o Platão criticou Homero, dizendo que ele não era o educador da humanidade, da Grécia, porque era um grande mentiroso. E o Nietzsche então reabilita esta idéia de mentira poética, e eu aplicaria ele no enunciado do eterno retorno. Portanto, eu não procuro a verdade do eterno retorno no sentido físico ou cosmológico. Nietzsche não tinha capacidade de afirmar isso, desse modo, mas eu valorizo muito como essa ficção, essa hipótese, que procura ter em cena, porque se trata sempre de encenação, um desafio ético. Então, um pouco, isso que eu vou explicitar para concluir, eu diria que fundamentalmente o eterno retorno é um pensamento trágico capaz de levar ou, eu diria, de elevar a vontade do homem ao seu máximo de potencia. Quer dizer, a vontade tem mais ou menos intensidade, tem mais ou menos potência, a vontade é um afeto que tem gradações às vezes a gente tá com a bola toda às vezes a gente sente que a bola tá murcha. Pois bem, é esse pensamento trágico do eterno retorno que é capaz de elevar a vontade do homem a esse máximo de potencia como ao tornar possível se introduzir oposição de valores. Nietzsche é um critico da oposição de valores. Ele chega a definir a metafísica como sendo um sistema de oposição; bem, mal; verdade, falsidade; eternidade e tempo. Pois bem, o eterno retorno é esse pensamento trágico capaz de elevar a vontade do homem a esse máximo de potencia ao tornar possível a afirmação de tudo que foi, que é, e será. Veja bem que é uma tarefa sobre-humana. Se a gente fosse mesmo possuidor do talento de apagar umas coisas da nossa vida futura ou passada eu garanto que todos nós passaríamos uma esponja em certos acontecimentos, não? Quem de nós não diz, puxa vida porque eu fiz isso, me estrepei, como foi difícil eu me reabilitar depois daquela besteira que eu fiz. É lógico, eu acho, a impressão que eu tenho, se você levar essa exigência da afirmação de tudo que foi, é, e será, você enlouquece, mas vale a pensa tentar, vale a pena se aproximar disso. Isso seria, digamos, a atitude de um super-homem, nós dificilmente conseguiríamos chegar lá. Eu estou querendo é dizer que afirmar eticamente o eterno retorno é ter a coragem de dizer a respeito de qualquer acontecimento em nossa vida. São palavras extraordinárias. Foi assim, pois muito bem, assim eu quis, foi assim aconteceu assim. Pois muito bem, era isso que eu queria, ou então, como Zaratustra também enuncia em um outro momento, era isso a vida. Olha ai possíveis palavras finais, se vocês não pensaram qual vai ser o teatrinho da ultima cena. Era isso a vida? Pois muito bem, outra vez. Olha o que é a idéia do eterno retorno. Pois muito bem, afirmo a vida integralmente como eu vivi e gostaria de viver do mesmo modo outra vez. Se o pensamento do eterno retorno exige coragem é porque é difícil suportar. Eu volto a esta ideia. É difícil suportar a idéia trágica de não esperar uma eternidade futura, ou tempo futuro, bons e verdadeiros que venham corrigir o instante presente e ai está inclusive o perigo de identificar o homem trágico e o niilista passivo. Eu disse que tem três tipos de niilismo. Zaratustra se debate com o Adivinho que é o niilista passivo e vocês podiam perguntar, mas qual é a diferença, não ta sendo a mesma coisa, não é um pensamento da resignação, qual é a diferença, portanto, do afirmador do eterno retorno, o trágico, e o negador da vida, o niilista passivo.

A minha resposta é a seguinte. É uma diferença de perspectiva, somente uma diferença de perspectiva. Essa diferença é o fato de a vontade humana, a vontade de potência humana, ser afirmativa ou negativa em face da realidade ou da vida como ela é. Quer dizer, a mesma realidade pode levar a uma vontade afirmativa ou uma vontade negativa, pode levar a alegria ou a tristeza. Vejam como eu explicitaria essa ideia. Se a serpente, que é um símbolo do Zaratustra e ao mesmo tempo a serpente alada, a serpente que aparece no livro enrolada no pescoço da águia, uma serpente do alto, uma serpente que voa em amplos círculos nas alturas. Se a serpente é o símbolo do eterno retorno e ao mesmo tempo a serpente enquanto negra e pesada, que no chão penetra na garganta do homem símbolo do niilismo passivo. Portanto, se ela simboliza ao mesmo tempo o eterno retorno e o niilismo passivo é porque diante da mesma realidade o homem sem deus ou sem ídolos humanos, sem esperança extraterrena ou esperança futura, tem duas possibilidades. Ser sufocado e triste ou alegrar-se. Quer dizer, pode considerar que nada tem valor na vida ou então, cita Nietzsche, que nada tem valor na vida a não ser o grau de potência. Quer dizer, a intensidade. Em suma. Pode ser o niilista passivo, é o esgotado, o exausto, o triste, ou aquilo que Nietzsche chamou; o quarto sentido da palavra que eu prometi explicitar pra vocês; o niilismo ativo, o trágico. Olha ai, o trágico para Nietzsche é o niilismo no sentido em que é uma negação de valores futuros e valores eternos, esse niilismo ativo é aquele cuja vontade atinge o máximo de potência ao afirmar alegremente o eterno retorno. Pois bem, o Nascimento da Tragédia; o primeiro livro do Nietzsche, ele tinha vinte e poucos anos, considerava a tragédia um antídoto, a ideia do remédio, antídoto para a sabedoria pessimista que diz que o bem supremo era não ter nascido. O Nietzsche conta essa historinha da mitologia grega que é o encontro do Rei Midas com um sábio, amigo, Filêno que é um sátiro. E ele é reprimido, ele e forçado a responder a questão de Midas. Qual é o bem supremo da vida. E a resposta dele é a seguinte. O bem supremo é não ser, e nada ser. Então não e dada ao homem porque o homem já nasceu então o homem não pode ter o bem supremo, mas o homem pode ter o segundo dos bens. Morrer o quanto antes. Esse é o enunciado já no jovem Nietzsche do pessimismo. Pois bem, o Nascimento da Tragédia apresenta a tragédia Grega. O nascimento da tragédia, a criação da tragédia, como um antídoto a esse saber pessimista, mostrando que a finalidade da tragédia; ao apresentar o destino do herói trágico como sendo sofrer. O herói trágico começa como herói épico, tendo saber, tendo poder, pense em Édipo. E pouco a pouco vai decaindo e o final de uma tragédia é sempre o máximo da decadência. A vida é obviamente um processo de demolição. É um pensamento trágico. Pois bem, embora apresente o destino do herói trágico como sendo o sofrer, essa foi a ideia da do nascimento da tragédia, a finalidade de tragédia grega para Nietzsche é produzir alegria. Uma alegria que não é mascaramento da dor, não é resignação e sim a expressão de uma resistência ao próprio sofrimento. Do mesmo modo, Assim Falou Zaratustra vê no eterno retorno um remédio capaz de curar a doença do niilista passivo que julga a vida sem sentido e sem valor, tornando sublime, o que parece para o niilista passível horrível. Deste modo eu digo, para concluir, a questão trágica por excelência. Você afirmaria sua vida como ela tem sido, você teria coragem de afirmar sua vida como ela tá sendo agora? Pois bem, essa questão trágica horrível pode acarretar duas respostas práticas, éticas, duas atitudes existenciais. A tristeza do niilista passivo ou a alegria provocada pelo desejo do eterno retorno. Pois para quem tiver coragem de enfrentar, encarar, assumir esse pensamento abissal, pensamento de abismo, sem fundamento, a vida, segundo Nietzsche se transformara; criando a leveza sobre-humana do riso, ou, melhor ainda, leveza de um riso sobre-humano. Como aconteceu com o jovem pastor ao morder a cabeça da serpente e decepá-la. Eu diria que essa mordida, esse ato, que eu interpretaria como sendo uma decisão trágica que faz com que a vida deixe de ser opressiva e o símbolo da serpente entalada na garganta do pastor transformando o homem, o pastor em alguém que é portador de uma alegria trágica. Ao menos é o que penso que seja sugerido por essa visão enigmática do Zaratustra quando apresenta o pastor depois de ter mordido a cabeça da serpente como um ser transformado, transfigurado, guerreiro.

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