Saiba mais acerca de Roberto Machado

 

 

Transdisciplinaridade e pensamento.

Roberto Machado, que foi aluno de Foucault e Deleuze e hoje é estudioso de ambos, explica como Deleuze usa a união de vários pensamentos e disciplinas, como arte e a ciência, para a construção da singularidades
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“Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por meio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados -principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamentoda diferença “

Há uma famosa frase de Foucault que diz que “um dia, talvez, o século seja deleuziano”. Para Roberto cabral de Melo Machado, autor de Deleuze e a Filosofia – já esgotado – e Deleuze, a Arte e a Filosofia, a ser lançado em agosto deste ano, isto não é possível: “Foi uma brincadeira que Foucault fez”, afirma. Machado explica que não tem sentido ser deleuziano, pois, como Nietzsche e Foucault, Deleuze é um filósofo da singularidade, a quem não caberia ter discípulos. Seus escritos devem ser usados, por seus seguidores, como instrumentos para que cada um crie seu próprio pensamento. Machado é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade católica de Louvain, na Bélgica, tendo feito seu pós-doutorado na Universidade de Paris VIII, com Deleuze. “Lembro de Deleuze dizendo numa aula que filosofar é passear com um saco e, ao encontrar alguma coisa que sirva, pegar.” hoje, professor titular do Instituto de Filosofia e ciências Sociais da UFRJ (IFcS/UFRJ), Machado diz nesta entrevista que, para Deleuze, há ressonâncias entre a arte, a ciência e a Filosofia, sem que haja prioridade de uma sobre as outras. as três seriam atividades criadoras, com interferências mútuas. ou seja, no “saco” da Filosofia também podem entrar ideias vindas da arte e da ciência. Também aponta como a Filosofia de diferentes pensadores aparece na criação de conceitos por Deleuze: “Deleuze funciona como um dramaturgo que escreve as falas e dirige a participação de cada pensador em sua Filosofia.”

 

FILOSOFIA – O que mais o instiga em Deleuze? O que o motiva a estudá-lo e publicar livros sobre ele?
Roberto Machado – Deleuze foi um dos bons encontros que tive na vida. Admiro-o muito como alguém solitário, distante das disputas acadêmicas e da luta pelo poder, dedicado a seus estudos, preparando intensamente seus cursos, transformando esses cursos em livros maravilhosos que cada vez mais são descobertos por quem quer pensar de modo diferente. Ao mesmo tempo, ele era alguém profundamente comprometido com as questões atuais do mundo, às quais dava respostas originais e muito sugestivas. Fui tocado pela maneira como pensou o socialismo e o capitalismo, a questão palestina, a importância do chamado terceiro-mundo, o movimento de maio de 68, as minorias, as drogas, etc. O que me levou a estudá-lo foi, antes de tudo, o encanto de suas aulas, cheias de sugestões sobre como pensar filosoficamente esses e muitos outros temas. Mas, sobretudo, o desejo de compreender seu pensamento de modo sistemático, pois mesmo notando o quanto suas aulas e seus escritos eram sugestivos, senti necessidade de esclarecer o que possibilitava todas aquelas ideias. Deleuze é um dos filósofos mais complicados que li. Sentia que estávamos maravilhados com o que ele dizia, mas compreendíamos superficialmente seu pensamento. Por isso resolvi estudar sua Filosofia sistematicamente e esclarecer seu modo de pensar em todos os seus livros.

FILOSOFIA – Em 1990, o senhor publicou o livro Deleuze e a Filosofia. Em agosto deste ano, irá publicar Deleuze, a Arte e a Filosofia. Em que sentido o segundo livro complementa o primeiro?
Machado – Logo depois que fiz concurso para professor titular da UFRJ, em 1984, com a tese que foi publicada em livro com o título Nietzsche e a verdade, dediquei meus cursos e minha pesquisa à Filosofia de Deleuze. Foi assim, por exemplo, que fiz pós-doutorado com ele no ano letivo de 1985-1986, na Universidade de Paris VIII, onde ele ensinava. Em 1990, publiquei o livroDeleuze e a Filosofia, que é o resultado desses estudos. As principais hipóteses desse livro, há muito esgotado, são as seguintes: 1) O tema central da Filosofia de Deleuze é o pensamento, e o pensamento não é exclusividade da Filosofia: filósofos, cientistas, artistas são pensadores, mesmo que pensem com elementos diferentes; 2) Ao estudar a Filosofia ou saberes não filosóficos, Deleuze busca elaborar o conceito de pensamento diferencial e fazer a crítica do pensamento representativo, aquele que subordina a diferença à identidade; 3) Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por intermédio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados – principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamento da diferença. Depois que terminei meu estudo, Deleuze (que morreu em 1995) ainda escreveu alguns livros. Ora, lendo seus novos livros, ou relendo mais atentamente livros que ele havia escrito sobre a pintura, o cinema e a Literatura, que eu não havia analisado, descobri ser possível mostrar que as hipóteses que eu procurava comprovar levando em conta seus textos sobre filósofos, também podiam ser confirmadas pelos textos não analisados anteriormente. Desse modo, levando em consideração tudo o que Deleuze escreveu, cheguei à conclusão nesse meu novo livro, Deleuze, a Arte e a Filosofia, que a questão central de sua Filosofia, “O que significa pensar?”, tem sempre como resposta a afirmação da divergência e da disjunção. Isto é, o que lhe interessa é, antes de tudo, o estabelecimento da relação entre termos, ou entre séries, como uma diferença que reúne imediatamente o que distingue. Enunciado assim, isso pode parecer enigmático, e realmente a Filosofia de Deleuze é muito complicada. Mas, felizmente, fui capaz de mostrar, no que diz respeito a cada um de seus livros e à totalidade do que ele escreveu, o que isso quer dizer.

NÃO HÁ CONCEITOS ETERNOS. POR ISSO A FILOSOFIA CONTINUA VIVA, SEMPRE SE TRANSFORMANDO, SEMPRE PENSANDO NOVOS PROBLEMAS E NOVAS QUESTÕES: SEMPRE CRIANDO NOVOS CONCEITOS

 

 

FILOSOFIA – De acordo com Deleuze, o pensamento não é privilégio da Filosofia. Ele também é produzido pela Arte e pela Ciência. Mas qual seria a diferença entre as três formas de pensar: são estruturas diferentes de produção de pensamento (maneiras diferentes de pensar os mesmos temas) ou formas de pensamento com focos distintos (cada uma se volta para certos temas)? 
Machado – Há uma tendência da Filosofia moderna, desde Kant, de distinguir a Filosofia dos outros saberes por uma diferença de nível, o que faz da Filosofia um metadiscurso, uma metalinguagem, que tem por objetivo formular ou explicitar critérios de legitimidade ou de justificação. É essa, por exemplo, a posição do neopositivismo, da Epistemologia francesa, da Filosofia Analítica da linguagem. Diferentemente dessas correntes, a Filosofia de Deleuze se caracteriza por não distinguir a Filosofia com relação às Ciências e às Artes por uma diferença de nível, isto é, ele não pensa que os outros saberes produziriam conhecimento e a Filosofia seria uma reflexão sobre esses conhecimentos da Ciência, das Artes, da Literatura. Para Deleuze, a Filosofia é criadora e não reflexiva, como acontece com as outras formas de saber, sejam elas científicas ou não. Mas isso não significa assimilar os diferentes domínios de saber, pois o poder criador da Filosofia é específico. A diferença é que o objetivo da Ciência é criar funções, o objetivo das Artes e da Literatura é criar agregados sensíveis, sensações, e o objetivo da Filosofia é criar conceitos. Assim, há especificidade dos saberes, no sentido em que cada um responde às suas próprias questões ou procura resolver com seus próprios meios – conceitos, funções, sensações – problemas semelhantes aos colocados pelos outros saberes

 

 

FILOSOFIA – Ao mencionar a Arte e a Ciência como produtoras de pensamento, que relação Deleuze busca entre a Filosofia e as formas não filosóficas do pensamento? São saberes que devem existir em paralelo ou um deve misturar-se ao outro, buscar influências? 
Machado – Mesmo havendo especificidade dos saberes, isto é, mesmo se a Filosofia é diferente das Ciências ou das Artes, há interferência, ressonâncias entre atividades criadoras sem que haja prioridade de umas sobre as outras. Os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens, e isso faz que a Filosofia esteja em estado de aliança com os outros domínios. Um agregado sensível artístico, uma função científica, podem estimular a criação de conceitos na Filosofia e, inversamente, um conceito pode estimular a criação nas outras disciplinas. Pensar, em todos esses domínios, é sempre ter uma ideia. Criar é ter uma nova ideia. É isso o que Deleuze pensa da relação entre diferentes domínios do pensamento. Mas também é isso que se nota na sua própria maneira de fazer Filosofia. A Filosofia de Deleuze, como, aliás, toda Filosofia, é um sistema de relações entre conceitos. Acontece que, no caso de Deleuze, esse sistema se constitui de forma bastante singular, pois seus conceitos são criados de dois modos diferentes: uns são conceitos provenientes da própria Filosofia, isto é, de filósofos por ele privilegiados em suas leituras – principalmente Espinosa,Nietzsche, Bergson -, mas outros são suscitados pela relação entre os conceitos filosóficos que ele cria a partir de outros filósofos e elementos não conceituais – funções e sensações – provenientes de domínios exteriores à Filosofia: Ciência, pintura, cinema, Literatura. Por exemplo, o que faz Hjelmslev, com meios linguísticos, Proust com meios literários, Bacon com meios picturais, ou Godard com meios cinematográficos vai ser muito importante para a criação dos conceitos da Filosofia deleuziana. Assim, as relações que ele estabelece entre conceitos filosóficos e a Literatura, as Ciências e as Artes estão a serviço da própria Filosofia ou da criação de conceitos. Se não há reflexão “sobre” e sim pensamento “a partir”, ou melhor, “com”, e se a Filosofia é especificamente o domínio dos conceitos, pensar a exterioridade da Filosofia é estabelecer conexões, articulações, agenciamentos com elementos não conceituais dos outros setores – funções, imagens, sons, linhas, cores – que, integrados ao discurso filosófico, são transformados em conceitos.

FILOSOFIA – Deleuze cria um pensamento da diferença estabelecendo relações entre as Filosofias, as Artes e as Ciências como uma forma de resistência ao pensamento da representação ou da identidade. Em que consiste a Filosofia da diferença de Deleuze?
Machado – Quando você lê Espinosa ou Kant, você não encontra referência a outros pensadores. Espinosa define a substância, os atributos, os modos; Kant define a sensibilidade, a imaginação, o entendimento, a razão, sem dúvida levando em consideração o que outros pensaram – não se faz Filosofia sem ter conhecimento da história da Filosofia -, mas eles não pensam a partir dos outros. Foi Hegel quem iniciou esse estilo de Filosofia em que não há praticamente diferença entre Filosofia e história da Filosofia ou do pensamento, refletindo a partir da tragédia, do estoicismo, do empirismo, do cristianismo, da Física, etc. Apesar das diferenças evidentes, Heidegger e muitos outros também estão em continuidade com esse estilo filosófico. Deleuze também. A ideia de pensar a partir de intercessores é essencial para ele. Mas evidentemente nem todo pensador é um bom intercessor. Lembro de Deleuze dizendo numa aula que filosofar é passear com um saco e, ao encontrar alguma coisa que sirva, pegar. Essa “alguma coisa” é essencial, pois mostra que é preciso um critério para integrar algum pensamento ao seu próprio modo de pensar. Esse critério é a diferença. Dito de outro modo, a Filosofia de Deleuze, em vez de supor que o pensamento tem uma história linear e progressiva, como em Hegel, ou mesmo uma história descontínua, como em Foucault, privilegia a constituição de espaços ou de tipos de pensamento. O que interessa a Deleuze em todos seus estudos é construir um espaço em que seja possível criar – a partir de pensamentos passíveis de entrar em relação – conceitos que expressem um pensamento da diferença que funcione como alternativa ao pensamento da identidade ou da representação. Se a Filosofia de Deleuze é mais geográfica do que histórica é porque estabelece duas dimensões, ou melhor, dois espaços do pensamento: o espaço do pensamento sem imagem, que é pluralista, ontológico, ético, trágico; e o espaço da imagem do pensamento, que é dogmático, metafísico, moral, racional… Procuro mostrar, analisando cada livro de Deleuze, que ele se insere especificamente nesse espaço do pensamento sem imagem, privilegiando a questão da relação entre termos ou entre séries, ou seja, é sempre a questão da relação que permite esclarecer a leitura deleuziana dos filósofos e dos não filósofos. Assim, enquanto o aspecto crítico de sua Filosofia tem sempre como alvo um tipo de relação que subordina a diferença à identidade, o procedimento filosófico deleuziano é fundamentalmente o projeto de afirmar a divergência ou a disjunção das séries para dar conta da identidade da diferença. Quero dizer com isso que, ao procurar responder à questão central de sua Filosofia: “O que significa pensar?”, Deleuze privilegia a disjunção, o “acordo discordante”. Em Diferença e repetição, por exemplo, quando se refere ao exercício superior das faculdades – que se opõe a seu uso representativo -, é a um exercício disjunto que ele apela. O que ele chama de exercício superior é aquele em que, ao comunicar a outra faculdade a violência que a leva a seu limite próprio – a seu máximo de potência ou limiar de intensidade – cada faculdade produz um acordo discordante que exclui o privilégio da identidade. No exercício superior ou transcendente das faculdades é a diferença que articula ou reúne. O lugar em que essa ideia aparece elaborada com mais rigor e criatividade é Diferença e repetição, seu livro mais importante. Mais esse é o tema de todos os seus estudos: sobre filósofos, artistas ou literatos.

QUERO DIZER COM ISSO QUE, AO PROCURAR RESPONDER À QUESTÃO CENTRAL DE SUA FILOSOFIA: “O QUE SIGNIFICA PENSAR?”, DELEUZE PRIVILEGIA A DISJUNÇÃO, O “ACORDO DISCORDANTE”

 

FILOSOFIA – Deleuze afirma que a função da Filosofia é criar conceitos. Que método ele usa para criar seus conceitos? De onde vem o substrato para os conceitos que cria (do raciocínio puro, da experiência, de ideias levantadas por outros autores)?
Machado – Retomando uma expressão utilizada por Deleuze, Foucault chamou esse método ou esse procedimento de “teatro filosófico”. Gosto muito dessa expressão e a utilizo em meu livro para explicitar o modo como Deleuze cria os conceitos de sua Filosofia da diferença não só apropriando-se dos pensadores que ele privilegia por lhe serem úteis para esse objetivo, mas também os relacionando de uma forma bastante singular. Dizer que essa relação entre pensadores é um teatro filosófico significa dizer que Deleuze funciona como um dramaturgo que escreve as falas e dirige a participação de cada pensador em sua Filosofia. Para fazer isso, ele utiliza um procedimento de colagem que – como Duchamp e sua Mona Lisa bigoduda – faz aparecer, sob a máscara de Sócrates, o riso do sofista, ou faz que Duns Scot, o grande filósofo medieval, receba os bigodes de Nietzsche. Quer dizer, quando Deleuze repete o texto de um pensador, ele não está buscando sua identidade; está querendo afirmar sua diferença. É essa ideia de um procedimento capaz de criar um duplo sem semelhança, um duplo que deve comportar uma modificação, que estou querendo ressaltar quando falo de teatro filosófico. Pois é esse procedimento de apropriação e modificação das ideias dos pensadores que ele toma por aliados que permite dar conta do diferencial próprio ao seu pensamento, do que constitui sua singularidade como filósofo. Neste sentido, a Filosofia de Deleuze não só é uma Filosofia da diferença, mas também, coerentemente com essa posição, ela é feita diferencialmente, sempre privilegiando a diferença em relação à identidade. O objetivo mais ambicioso de meu livroDeleuze, a Arte e a Filosofia é apresentar a diferença como a invariante capaz de esclarecer as principais interpretações de filósofos, literatos, pintores e cineastas realizadas por Deleuze, para dar conta do que constitui a singularidade dessa Filosofia instigantee sugestiva.

 

FILOSOFIA – Para Deleuze, os conceitos podem ser imutáveis ou são presos a um tempo (mudam com o contexto)? Ou seja, cada sociedade deve se esforçar para definir seus conceitos ou essa é uma tarefa atemporal?
Machado – Deleuze estuda essa questão em O que é a Filosofia?, um de seus últimos livros, pela diferença entre o devir e a história de um conceito. Para ele, um conceito é um todo fragmentado, uma articulação de componentes, eles mesmos conceituais, distintos, heterogêneos, mas inseparáveis, intrinsecamente relacionados. Um exemplo esclarecedor é o conceito cartesiano de eu ou de cogito: “penso, logo sou”, que ele explicita como tendo três componentes: duvidar, pensar e ser. Esses três elementos constituem um conceito: o conceito de cogito. Mas esse conceito não existe de modo isolado na Filosofia cartesiana, pois uma Filosofia é formada por conceitos inter-relacionados. Na Filosofia cartesiana, o conceito de cogito se conecta com o conceito de Deus, que por sua vez se conecta com o conceito de extensão. Assim, o devir do conceito é essa conexão tanto dos elementos de um conceito quanto dos diferentes conceitos em um mesmo sistema conceitual criado por um filósofo. Já dizer que um conceito tem uma história significa que ele não é criado do nada; significa que foi preparado por conceitos anteriores ou que alguns componentes desse conceito vêm de conceitos de outros filósofos, embora ele permaneça original. A esse respeito, Deleuze chama a atenção para a originalidade do conceito kantiano de cogito com relação ao cartesiano, porque introduz um novo componente no cogito: o tempo como forma da interioridade. O que muda, então, com a introdução do tempo no cogito? A exitência de uma distinção entre o eu transcendental e o eu fenomenal no interior do sujeito, e que o único conhecimento que podemos ter de nós mesmos é o do eu fenomenal, empírico. Portanto, é no sentido de que um conceito é preparado por outros – como o conceito kantiano de cogito é elaborado a partir do cartesiano – que um conceito tem uma história.

 

QUANDO DELEUZE REPETE O TEXTO DE UM PENSADOR, ELE NÃO ESTÁ BUSCANDO SUA IDENTIDADE; ESTÁ QUERENDO AFIRMARSUA DIFERENÇA

 

“Deleuze foi um dos bons encontros que tive na vida. alguém solitário, distante das disputas acadêmicas e da luta pelo poder, dedicado a seus estudos, transformando seus cursos em livros maravilhosos que cada vez mais são descobertos por quem quer pensar de modo diferente “

FILOSOFIA – Por que a Filosofia deve se esforçar para criar conceitos – o surgimento de conceitos, de alguma forma, pode alterar nosso modo de vida?
Machado – O aparecimento da Filosofia não é uma necessidade. Muitas sociedades viveram sem Filosofia, se a tomarmos no sentido técnico de criação de conceitos, e muitas ainda vivem até hoje. A Filosofia, segundo Deleuze, nasce quando os gregos criam uma nova disciplina, que pensa por conceitos, distinguindo-a da sabedoria, que pensa por figuras. Mas isso aconteceu devido a circunstâncias existentes em determinado momento da história. Evidentemente, a Filosofia condiciona nosso modo de vida, como também acontece com as Artes e as Ciências. Mas não me parece que Deleuze veja uma espécie de função revolucionária da Filosofia em geral, do mesmo modo que Foucault, aliás. Há um aspecto nietzschiano da Filosofia de Deleuze que vê grande parte do que foi pensado com conceitos, funções ou sensações como sendo niilista, uma negação da vida. Como a de Nietzsche, sua Filosofia é uma crítica de toda Filosofia que julga a vida a partir de valores transcendentes. Mas há uma diferença importante entre os dois. Nietzsche sempre procurou intensificar a diferença de sua Filosofia em relação aos outros pensadores para não ser contaminado pelo niilismo do pensamento, que impera na história; por isso ele é um filósofo que praticamente não reconhece aliados. Já Deleuze é um filósofo da aliança. Se sua geografia do pensamento agrupa os filósofos em espaços antagônicos tomando como critério a representação e a diferença, é porque considera que, além dos filósofos que negam a vida, e por isso estão excluídos do espaço em que ele pretende situar seu pensamento, existem filósofos ao lado de quem ele pensa, já que seus pensamentos afirmativos fazem deles alternativas ao niilismo: fundamentalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson. É neste sentido que ele defende, utilizando uma ideia de Nietzsche, que o filósofo cria conceitos que nem são eternos nem históricos, mas extemporâneos.

FILOSOFIA – Há uma famosa frase de Foucault: “Um dia, talvez, o século seja deleuziano”. Este século que se inicia tende a ser deleuziano? Em que sentido nosso século poderia ser deleuziano?
Machado – Dizer que o século um dia será deleuziano foi uma brincadeira que Foucault – que jamais deixava de rir quando pensava – fez, ao escrever um artigo maravilhoso sobre Diferença e repetição Lógica do sentido intitulado “Teatrum philosophicum”. Com isso, ele queria chamar a atenção para a importância da Filosofia de seu amigo, que, em 1969, ainda não era muito notada fora da universidade. Mas Foucault sabia muito bem que não tem sentido ser deleuziano, nem mesmo foucaultiano, pois tanto ele quanto Deleuze são filósofos da singularidade – como Nietzsche, o principal inspirador deles dois -, e, portanto, pensadores para quem não tem sentido ter discípulos. Eles viam seus escritos como instrumentos a serem utilizados para que cada um crie seu próprio pensamento.

http://portalcienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/37/artigo144487-1.asp

 

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