CORPO E NOMADISMO – L.B.L.O

Ao falar a respeito de corpo e nomadismo, tenho, sem falsa modéstia, a impressão de que minha fala pouco acrescentará ao que vocês já sentiram, sonharam, perceberam, leram, imaginaram, fizeram ou pensaram graças a esse estranho bicho denominado corpo. E, como certamente já viveram de muitas maneiras a experiência das andanças e devaneios, do sonambulismo ou dos sonhos, das imaginações e sustos, da circulação, do ir e vir, do esquiar em linha reta ou esquivando obstáculos, como já patinaram à moda antiga ou esqueitearam à moda mais atual, como vivem praticando desde os primeiros anos de vida o velhíssimo andar a pé ou aderindo, cuidadosos ou não, à velocidade dos veículos motorizados, como já cavalgaram pais e animais, como já foram tomados pelo deslizar, desde o útero materno até as ondas do mar, e como já praticaram alpinismos na realidade das montanhas, dos móveis ou das paredes, como já se contorceram no meio das florestas e até pularam de pára-quedas ou planaram com a ajuda das asas que levam o delta grego por sobre nossas paisagens, ou então, como já acompanharam ao longo das artes a maravilha de um fluxo de imagens, desde as sonoras até as mais pesadas, arquitetônicas, como já fugiram da chuva ou nela se molharam com prazer, este velho aproveitador do desejo, como já vivenciaram oscilações emocionais, desde a leveza em  face de um sorriso amigo até os explosivos ódios ante a emergência desta ou daquela intolerável intromissão em seus destinos, como já olharam sua própria sombra variando ao lado ou simplesmente olharam as nuvens mirabolando no céu, enfim, como já se sentiram movidos ou comovidos, como já abraçaram a quem acaba de chegar ou sentiram saudades de alguém que se foi para sempre ou por pouco tempo, tenho também uma quase certeza de que pouco acrescentarei ao estoque de significados de que vocês dispõem quando ouvem a palavra nomadismo, esse enigmático termo que gregos e latinos deixaram praticamente pronto como herança lingüística para nossa língua portuguesa.  Em suma, para quem já viveu uma só dessas experiências, quase nada terei a acrescentar a respeito dos dois termos que se conjugam nesta minha breve comunicação.

E menos ainda terei o que dizer aos que estudaram, estudam ou praticam as navegações, as imigrações, as migrações, as invasões de fazendas etc.; só terei a aprender junto aos que sabem dos pequenos ou vastos deslocamentos de tribos ou povos, de animais ou pássaros. Em suma, basta estar atento aos corpos em movimento, e já uma intuição quase firme nos propicia uma espécie de pré-compreensão a respeito dessa conjunção entre corpo e nomadismo. O nômade é certamente um ente, algo em movimento. E isso pode ser ainda mais embriagante se desconfiarmos que o próprio ser constitutivo desses entes em movimento é também uma pura caótica de devires. Nietzsche, depois de Heráclito, nos avisou a esse respeito. Mas não quero transformar este nosso encontro numa aula. Permitam-me tratar esse tema do ponto de vista do meu encontro com algo em movimento.

Foi uma emoção quando encontrei a ligação entre nomadismo e movimento. E um movimento que eu de certo modo praticava nos pastos da minha infância numa terra bem distante chamada Juruema. Foi isso que entendi quando li pela primeira vez, grafada entre aspas, uma palavra que os dicionários ainda registram, mas avisando que ela é de pouco uso e que tem o mesmo significado de nômade: trata-se da palavra “nómada”, com acento agudo sobre o ó, acento posteriormente substituído pelo circunflexo: “nômada”. Onde encontrei “nómada” pela primeira vez? Certamente não foi por causa da telefónica, porque esta nova invasão portuguesa é muito recente. Encontrei nómada na estrofe de número quinze de um dos mais importantes poemas épico-ético-políticos da língua portuguesa que se digladia no Brasil. (Digladiar, como vocês sabem, é um combate com espadas, combate que se leva a cabo corpo a corpo. Digladiar também ocorre na corporeidade linguageira, seja entre falantes, seja no campo das diferenças que exasperam as dimensões da língua, desde as diversidades fonéticas até as alternativas semânticas). O autor do poema que me ensinou a existência do “nômada” nasceu baiano. E desde esse dia, amo a Bahia, apesar de certas coisas. Ele compôs esse poema aos 21 anos, em 1868, em plena efervescência das lutas contra a escravização dos negros. Esse jovem poeta era um branco que exercitava o milagre do sair de si. Sair de si, isto é, levar sua pele branca à perspectiva de um corpo negro em luta. Vocês poderiam me dizer que o simples fato de falar, isto que agora estou fazendo aqui, já é viver um estado de corpo lançado para fora dos seus limites orgânicos, já é nomadismo do meu aparelho fonador, já é uma desterritorialização da minha boca. E no caso daquele poeta, a transgressão dos seus próprios limites pessoais foi ainda mais longe, pois sua voz própria se metamorfoseia poeticamente em “Vozes d’África”. E mais: ele transgride os limites do respeito ao que havia de mais respeitoso na sua cultura cristã ocidental, pois ele chega ao extremo de insultar, de afrontar, de vituperar o chefe de todos os transcendentes logo na abertura do seu grito, ou melhor, na primeira estrofe que lança o grito de uma África sangrada pelos cristãos:

Deus! ó Deus, onde estás que não respondes!?

Em que mundo, em que estrela tu te escondes,

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde, desde então, corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Vocês já sabem qual é o nome do jovem autor dessa admoestação ao divino. Pois bem, é a ele, é a Castro Alves que devo o primeiro encontro com a palavra “nómada”. Quando África, amaldiçoada, excomungada, anatematizada começa a recordar a série de sacrifícios que lhe foram impostos após o dilúvio, a estrofe quinze nos diz:

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos ululando passa

O anátema cruel.

As tribos erram no areal das vagas,

E o ‘nómada’ faminto corta as plagas

No rápido corcel.

Foi aí que encontrei pela primeira vez o nómada, hoje transformado no nômade dos dicionários, isto é, nesse personagem que continua buscando novas pastagens e evitando a prática sedentária do cultivo agrícola, personagem que não consegue ater-se ao amanho da terra, que prossegue rasgando extensões, como quem vive colado aos devires do meio, aos fluxos de desterritorialização.

Parecia haver algo em comum entre Castro Alves e seu nômade. Ambos eram famintos: a um faltava alimentos, e o mundo do poeta abolicionista carecia de justiça, como ainda carece mais de um século depois. Mas reuni-los em função de algo que lhes faltava foi ficando cada vez menos satisfatório, como vocês já devem ter sentido. Era preciso reuni-los por aquilo que neles havia em excesso: o sair de si, a desmesura, o desbravar fronteiras, o reanimar em si o próprio ser das agitações, o que implica essa intensa dedicação a algo até que mil e uma rupturas se abram como explicitação de diferenciações inesperadas.

Sair de si era o que esse jovem poeta sabia fazer, mesmo quando, em outras ocasiões, seu ego estava em pauta ao declarar seu amor a uma artista, Eugênia Câmara. O amor já era certamente um estar fora de si, um estar tomado pela consciência do que se apresentava como amável no ente amado. Porém, mais radicalmente ainda, essa viagem pela consciência de amar, por mais tresloucada que fosse, correspondia, embora sem derivação causal, a fluxos intensivos que faiscavam em dimensões pré conscientes, fluxos que levavam o jovem ardoroso a transpor limites pessoais, de tal modo que seus próprios sentimentos eram rompidos e metamorfoseados numa pura intuição estética, isto é, na expressão, para além do seu sentimento pessoal, de uma certa maneira poética de amar. Seu ânimo, como sensibilidade nômade, fluía desde cantos líricos a flores até dilacerantes imagens do que ocorria num navio negreiro. Eis um exemplo de sua lírica, da suave composição poética enredada no tempo presente, esse estofo da temporalidade tão propícia ao hálito de uma atmosfera que vai envolvendo as palavras num véu de indeterminação, de modo que elas acabam reunidas num afeto que pulsa aqui e agora:

A DUAS FLORES

        (1870)

 

São duas flores unidas,

São duas rosas nascidas

Talvez no mesmo arrebol,

Vivendo no mesmo galho,

Da mesma gota de orvalho,

Do mesmo raio de sol.

 

Unidas, bem como as penas

Das duas asas pequenas

De um passarinho do céu…

Como um casal de rolinhas,

Como a tribo de andorinhas

Da tarde no frouxo véu.

 

Unidas, bem como os prantos

Que em parelha descem tantos

Das profundezas do olhar…

Como o suspiro e o desgosto,

Como as covinhas do rosto,

Como as estrelas do mar.

 

Unidas… Ai quem pudera

Numa eterna primavera

Viver qual vive esta flor,

Juntar as rosas da vida

Na rama verde e florida,

Na verde rama do amor!

 

Quando decoramos poesias que nos capturam e nos entregamos ao movimento de recitá-las, geralmente ocorre uma coisa curiosa: surfamos de tal modo pela sonoridade das palavras que pouco ou quase nada nos perturba o fato de não conhecermos o significado de todas elas. Ao encontrar pela primeira vez o poema que acabei de ler, a palavra que fugia do meu entendimento, e que de certo modo continua fugindo, é arrebol  [“São duas rosas nascidas / Talvez no mesmo arrebol”]. Arrebol continua em fuga nos meus ouvidos porque ela parece sonorizar sempre algo mais do que o indicado pelo seu estrito significado lexicográfico. Aliás, seu estrito significado já a singulariza nos dicionários, pois o verbete que geralmente a precede é “arrebito”, que nada tem a ver com ela,  e aquele que geralmente a sucede, “arrebolar” ou “arrebolado”, aponta para o dar forma de bola, se bem que Guimarães Rosa, sempre subvertendo a língua, tenha transformado certa vez arrebol diretamente em arrebolar, pensando justamente na idéia de avermelhar. Com efeito, arrebol, como vocês sabem, quer dizer um modo do céu estar avermelhado, ruborizado lá no horizonte.  É por causa disso, provavelmente, que, para os meus ouvidos, arrebol sempre disse algo mais: embora, etimologicamente, essa palavra venha de um rubor latino, o decisivo é que arrebol goza de um rubro nomadismo cadenciado pelo nascer e pelo pôr do sol. Sem que eu o notasse intelectualmente, na época, ao encontrar pela primeira vez “as duas flores”, essa ambigüidade de arrebol, sua dupla fisionomia de crepúsculo matutino e de crepúsculo vespertino, essa dupla modulação do avermelhar-se de um céu abrindo-se ou fechando-se ao sol, essa indecisão do cosmo estava como que embutida na sensação auditiva, de tal modo que essa palavra ressoava e estará sempre ressoando algo mais, como que correspondendo a uma espécie de instante de intensidade que a cada vez excede aquilo que o entendimento pode.  É como se nosso poder intelectual não precisasse intervir nos momentos da récita pública, privada ou clandestina.  É como se a razão estivesse numa semana do saco cheio e não fosse solicitada a impedir que outras esferas do corpo nos levassem a um passeio mais livre ou a uma contração contemplativa das cores do céu ao amanhecer ou ao entardecer. É como se o encontro com certas poesias velasse ligeiramente os nexos reflexivos e propiciasse uma transpassagem direta e mútua entre sonoridades e agitações da memória. Com suas variações sonoras, o poema dedilha cordas que ressoam de modo a favorecer o advento de uma memória instantaneamente liberta das vigilâncias do intelecto. Isso talvez justifique a idéia de que memorizar poemas, de que decorar poesia é um aprendizado que passa pelo coração, um aprendizado de coração, um aprender de cor, como se diz, e cor remetendo, desde o latim, à idéia de coração, esse estranho lugar de pulsações que antecedem tanta coisa e que acabam servindo como sede trêmula à inteligência e à memória. Em suma, decorar vem a ser um aprendizado que passa fundamentalmente pela caótica da sensibilidade. E decorar poesia vem a ser um privilegiado nomadismo que se exercita na prodigiosa imbricação entre essa caótica e as  linhas de força da composição estética. Por isso, ler uma poesia, senti-la, não é identificar-se com seu autor, pois também ele saiu de si em plena criação estética. Ele foi tomado por uma vibração que o lançou para fora de si. E quando pulsamos com seu poema, as vibrações que nos lançam também para fora de nós mesmos entram em ressonância com aquela, mas não em razão de uma semelhança subseqüente ou de uma identidade prévia. Atingido por sustos desse tipo, é que o pensamento filosófico contemporâneo foi obrigado a pensar algo mais a respeito de corpo e nomadismo. O nomadismo, enquanto variação contínua, não se reduz ao deslocamento empírico de um sujeito identificável de um ponto a outro na extensão. O nomadismo, radicalmente falando, ocorre quando –  andando ou parado, voando ou mergulhando, nadando pelos mares ou envolto em navenuvens – a dimensão intensiva do meu corpo, graças a este ou  àquele encontro, vem a pulsar de um modo tão inatual, tão intempestivo, que esse instante de pulsação espalha uma transmutação tal que meu passado já não será mera acumulação de cotidianidades levadas a cabo por um eu idêntico a si, uma transmutação tal que meu futuro terá de confrontar-se para sempre com ela.

Portanto, o corpo em nomadismo pode ser visto, sentido e pensado sob essas duas perspectivas, pelo menos: a dos seus administráveis e controláveis deslocamentos empíricos na espaço-temporalidade e a das suas intensificações,  quando está ele tomado por instantâneos dinamismos espaço-temporais de difícil controle. Há pressuposição recíproca entre essas duas perspectivas, mas elas são irredutíveis uma à outra. Elas se afetam mutuamente, mas sem que saibamos precisamente onde, como, quando, por que se afetam, como se a consciência, sempre muito deslocada, fosse condenada a chegar tarde ou cedo demais. Enquanto isso, o corpo é que se mete como vanguarda de um nomadizar-se entre os aqui-e-agora bem determinados e os indeterminados alhures, essas zonas que não sabemos bem o que são, se são outro lugar-e-tempo ou se um tempo-e-parte alguma. Mas sabemos que nenhum aqui-e-agora se livra totalmente das agitações intensivas que lhe são trazidas de alhures; não se livra, porque há imanência sem identificação entre os aqui-e-agora e os alhures que os escavam, explodem, relançam.

E quando,  cansado do nomadismo extensivo, o corpo se entrega ao sono, um nomadismo intensivo dele se apodera, levando-o ao longo de sonhos. E cada um de nós, não contente em ruminar seu próprio sonho, deixa-se levar também pelo sonho de outrem, como o do Toninho, nosso querido prefeito. É em homenagem ao sonho político de Toninho é que eu gostaria agora de relembrar com vocês um outro sonho negro, o “Sonho Meu”, não precisamente meu, mas que pode ser intensivamente nosso, aquele composto por Délcio Carvalho e Yvonne Lara *, e lindamente cantado por ela e Djavan, o sonho que eles nos convidam a sentir como “canto da noite na boca do vento” e que faz “a dança das flores no meu pensamento”. Ei-lo: 

Sonho meu, sonho meu

Vai buscar quem mora longe

Sonho meu

 

Vai buscar esta saudade

Sonho meu

Com a sua liberdade

Sonho meu

Do meu céu a estrela guia se perdeu

A madrugada fria

Só me traz melancolia

Sonho meu

 

Sinto o canto da noite na boca do vento

Fazer a dança das flores

No meu pensamento

Traz a pureza de um samba

Sentido marcado de mágoas de amor

Um samba que mexe o corpo da gente

E o vento vadio embalando a flor

Sonho meu

X – X – X

Luiz B. L. Orlandi

outubro de 2001

 


* Sou grato à profa. dra. Heloisa T. Bruhns e ao prof. dr. Gustavo Luiz Gutierrez pela oportunidade de estar participando hoje, dia 5/10/2001, do encerramento deste “Ciclo de Debates” dedicado à idéia de “Lazer e Motricidade”, evento iniciado ontem e promovido pelo Departamento de Estudos do Lazer / DEL – Faculdade de Educação Física – UNICAMP.

* Délcio Carvalho e Yvonne Lara, “Sonho Mau”, in CD Dona Yvonne Lara – Bodas de Ouro, Sony-Columbioa 758.330/2-479477, s/d, Faixa 4.

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