Carta-prefácio a Jean-Clet Martin – Gilles Deleuze

Ao ler seu livro, fico feliz que você se ocupe com meu trabalho, tamanha é sua demonstração de rigor e de compreensão. Tento responder a algumas de suas observações, mas, freqüentemente, a diferença entre nós é, antes, uma questão de palavras.

 

  1. Creio na filosofia como sistema. Não gosto da noção de sistema quando se a remete às coordenadas do Idêntico, do Semelhante e do Análogo. Foi Leibniz, creio, o primeiro a identificar sistema e filosofia. No sentido em que ele o faz, eu concordo. As questões “ultrapassar a filosofia”,“morte da filosofia” também nunca me sensibilizaram. Sinto-me um filósofo muito clássico. Para mim, o sistema não deve apenas estar em perpétua heterogeneidade, ele deve ser heterogênese, coisa que, parece-me, nunca se tentou fazer.

 

  1. Desse ponto de vista, o que você diz sobre a metáfora ou, antes, contra ela, me parece justo e profundo. Acrescento apenas algo que não contradiz em nada o que você diz, mas que vai numa direção próxima: o duplo desvio, a traição, me parecem operações que instauram uma imanência radical, tem-se aí um traçado de imanência – daí a relação essencial com a Terra.

 

 

  1. Você percebe muito bem a importância, para mim, de definir a filosofia pela invenção ou criação de conceitos, isto é, como não sendo nem contemplativa nem reflexiva, nem comunicativa, etc., mas como atividade criadora. Creio que ela sempre foi isso, mas ainda não soube me explicar sobre esse ponto. É por isso que eu queria tanto que o meu próximo livro fosse um texto curto sobre O que é a filosofia?

 

  1.  Você percebe muito bem a importância, para mim, da noção de multiplicidade: é o essencial. E, como você diz, multiplicidade e singularidade estão essencialmente ligadas (“singularidade” é, ao mesmo tempo, diferente de “universal” e de “individual”). “Rizoma” é a melhor palavra para designar as multiplicidades. Em contrapartida, parece-me que abandonei completamente a noção de simulacro, que não vale grande coisa. Finalmente, é Mil platôs que é consagrado às multiplicidades por si mesmas (devires, linhas, etc.).

 

  1. Empirismo transcendental não quer, efetivamente, dizer nada se não se precisa as condições. O “campo” transcendental não deve ser decalcado do empírico, como o faz Kant: ele deve, sob esse aspecto, ser explorado por sua conta e, portanto, “experimentado” (mas trata-se de um tipo de experiência muito particular). É esse tipo de experiência que permite descobrir as multiplicidades, mas também o exercício do pensamento ao qual remete o terceiro ponto. Porque creio que, além das multiplicidades, o mais importante para mim tem sido a imagem do pensamento tal como tentei analisar em Diferença e repetição, depois em Proust, e em todos os lugares.

 

Permita-me, enfim, um conselho de trabalho: é sempre interessante, nas análises de conceito, partir de situações muito concretas, muito simples, e não de antecedentes filosóficos, nem mesmo de problemas enquanto tais (o uno e o múltiplo, etc.); por exemplo, para as multiplicidades, de onde é preciso partir, seria assim: o que é uma matilha? (diferente de um animal sozinho), o que é um ossuário? Para os acontecimentos: o que é cinco horas da tarde? Por exemplo, é na relação concreta entre o homem e o animal que é preciso buscar a crítica possível da mimese. Não tenho, pois, mais que uma coisa a lhe dizer: não perca o concreto, volte a ele constantemente. Multiplicidade, ritornelo, sensação, etc., se desenvolvem em puros conceitos, mas são estritamente inseparáveis da passagem de um concreto a outro. É por isso que é preciso evitar conceder a uma noção qualquer um primado sobre as outras: é cada noção que deve implicar as outras, por sua vez e a cada momento […]. Creio que quanto mais um filósofo é dotado mais ele tem tendência, no começo, a deixar o concreto. Ele deve evitar isso, fazendo-o apenas de tempos em tempos, o tempo de voltar às percepções, aos afectos, que devem reduplicar os conceitos. Perdoe-me a imodéstia dessas observações. A única razão foi a de ser breve. Desejo-lhe o melhor em seu trabalho. Sinceramente seu.

Gilles Deleuze

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