Pornografia e Obscenidade – D. H. Lawrence

Depende completamente da pessoa, como é hábito. O que é pornografia para esta, faz-se riso do génio para outra.

            Ao que se diz, a própria palavra significa <pertencente às prostitutas>-0sinal de prostituição. Mas hoje em dia o que é prostituta? A mulher que pede dinheiro ao homem para ir par aa cama com ele, embora muita esposa tenha se vendido, em tempos que já lá vão, e muita prostituta oferecido grátis se para aí lhe deu. Mulher que não guarde um toque de prostitua, regra geral não passa de vulgaridade insonsa. Por que fazer, então, juízos severos? Coisa enfadonha e a lei, e de julgamento alheio à vida.

            O mesmo se dá com a palavra <obsceno>, que ninguém sabe o que significa. Suponhamos que vem de obscena, o que não pode representar em palco. E depois? Tiramos daí alguma coisa? Nada! O que e obsceno para Tom, não é obsceno para a Lucy nem para o Joe, e o sentido da palavra vai depender daquilo que a ser respeito decidir a maioria. Se uma peça teatral choca dez pessoas do público, e não as outras quinhentas que lá estão, só é obscena para dez e, para as quinhentas totalmente inofensiva. Não é peça, portanto, obscena para a maioria. O Hamlet, sim, é que chocou todos os Puritanos de Cromwell e agora não choca ninguém; algumas peças de Aristófanes é que chocam todos agora, e ao que parece não escandalizaram ninguém do Gregos da ultima fase. O homem é um animal variável e as palavras variam de sentido com ele; as coisas não são o que pareciam ser, o que é deixa sê-lo e, se julgarmos saber onde estamos, e devido á velocidade com que nos levam para outro lado. Somo obrigados a entregar tudo á maioria, entregá-lo às massas, ás massas, às massas. Que sabem, estão fartinhas de saber, o que é e não e obsceno. Se um povinho de dez milhões não souber mais do que de dez pessoas da alta, qualquer coisa andará mal nas matemáticas. Façamo-las votar! Mãos levantadas, e toca fazer a prova pela contagem! Vox Populi, vox Dei. Profanum vulgum! Profanum vulgum.

Portanto, a conclusão e esta: se nos dirigirmos às masssas, o significado das palavras é o significado-massa decidido pela maioria. Daí a frase de alguém que me escreveu: <A lei americana sobre a obscenidade e muito simples, e a América está resolvida a aplicá-la). Pois decerto, meu caro, pois decerto! As massas sabem tudo sobre a obscenidade. As palavrinhas inofensivas que rimam com spit ou farce são o cumulo da obscenidade (1). Supúnhamos que na vulgarissima palavra spit  um tipógrafo põe, por engano, um <h> no lugar do <p>. O grande público americano pensa logo que o homem cometeu uma obscenidade, uma indecência, que o acto é desavergonhado e pornografo o compositor. Nada de trapalas com o grande-público inglês ou americano. Quem não sabe que vox populi, vox Dei? Quem não sabe, terá de aprendê-lo. Ao mesmo tempo, esta vox Dei,  cobre filmes e livros de louvores relatos de jornais que parecem, a uma natureza depravada como a minha, o mais desagradáveis e obscenos possível. Vejo-me obrigado a voltar a cara como um verdadeiro sonso, como uma puritano. Quando a obscenidade se transforma em pieguice que é grande petisco par ao público, e a vox populi, vox Dei, enrouquece de tanto enaltecer a indecência sentimental, tenho de fugir como o fariseu apavorado pelo contágio. É uma espécie de peganhento grude universal que me recuso a tocar.

Voltamos portanto, e outra vez, a isto: aceitar ou não aceitar a maioria, as massas e aquilo que elas decidem. Dobrarmo-nos á vox populi, vox Dei,  ou tapar os ouvidos para não escutar a obscenidade do seu clamor. Fazermos de bobo para agradar ao grande-público, ao Deus ex machina,  ou recusarmos fazer teatro em sua honra, não sendo que uma vez por outra e só para fazer pouco do seu elefantino e ascoroso rosto.

Há que se pensar duas vezes quando se trata do sentido de uma palavra qualquer, simples que seja. Porque existem duas espécies fundamentais de sentido, e sempre diferentes. O sentido-massa e o sentido universal. Consideremos por exemplo, a palavra <pão>. O seu sentido-massa é simplesmente substancia feita de farinha branca e em forma de carcaça, comestível. Mas suponhamos que em causa está o sentido individual da palavra <pão>: é pão branco e pão escuro, o pão de milho, o caseiro o cheiro do pão quando sai do forno, o côdea, o miolo, o pão sem fermento, o pão de oferenda, o sustentáculo da vida, o pão ázimo, o pão vulgar, o francês, o vienense o pão torrado, o pão duro, o de centeio, o Graham, o de cevada, em cacete, os bretzeln, os kringeln, o pão de leite, o folhado – vamos por aí fora e a palavra <pão> é ponto de partida para a viagem do próprio indivíduo, o sentido que tem é o que ele próprio lhe dá, baseado em genuínas reacções da imaginação. Quando uma palavra surge com o seu caráter individual e em nós libertar espostas individuais, dá-nos imenso prazer. Os homens da publicidade americana já descobriram isto e encontramos na publicidade dos detergetnes, por exemplo, parte da mais astuciosa literatura americana. Essa publicidade é quase que um poema em prosa. À palavra <detergente> confere um espumnete, um fulgurante sentido individual, o que se faz habilidosamente poético e talvez possa parecer só poético a quem esqueça que tal poesia não passa de um engodo.

            O comércio descobre o sentido individual e dinâmico das palavras, enquanto a poesia deixa que ele se perca. A poesia tende a complicar cada vez mais o sentido das palavras, o que volta a dar sentido-massa e só provoca no indivíduo reacção massa. Na verdade, todo o homem possui um eu-massa e um eu individual em proporções diferentes. Homens há que se reduzem, quase, a um eu-massa incapaz de reacções imaginativas individuais. Em geral, as piores amostras de eu-massa encontram-se em profissões como a dos advogados, professores, pastores, e por ai fora. Mais astucioso, o homem de negócios tem um robusto eu-massa exterior e um aterrorizado, incerto, eu individual; que existe, apesar de tudo. Tão fraco de espírito como um idiota, o grande-público é que não há-de saber nunca proteger dos ardis do explorador as suas reacções individuais. O público é e será sempre explorado. Os métodos de exploração e que mudam. Hoje em dia faz-se cócegas ao publico para ele pôr um ovo de ouro. Com palavras sugestivas e sentidos individuais, é ardilosamente levado a emitir o sonoro cacarejo do consentimento massa: vox populi, vox Dei. Sempre assim foi e há de ser. Porquê? Porque o público não tem discernimento bastante para diferenciar sentido-massa de sentido individual. É sempre grosseira, a massa, por não distinguir, o sentimento original dos outros sentimentos que o seu explorador provoca, e apenas por ardil. É sempre vulgar, o público, já que o embusteiro sabe dirigi-lo de fora e nunca é dirigido por dentro, pela sua própria sinceridade. É sempre obscura, a massa, por ser objecto em segunda mão.

            E assim chegamos ao nosso tema da pornografia e da obscenidade. Perante essas palavras, as pessoas podem ter uma reacção-massa ou uma reacção individual. Cada qual terá de perguntar a si próprio: estou a ter uma reação individual ou a reagir, apenas, com o eu massa?

Quanto às palavras ditas obscenas, afirmarei que uma pessoa no milhão, e nada mais, há-de escapar à reacção massa. É quase certo que a primeira reacção seja de reacção massa, indignicação-massa, condenação massa. E a massa não passará daí. Mas o verdadeiro indivíduo reflecte um pouco e faz a pergunta: estou realmente chocado? Sinto-me realmente ofendido, indignado? E com certeza responde: não, nem chocado, nem ofendido, nem indignado. Conheço a palavra e tomo-a por aquilo que é, por nada deste mundo aceito que uma toca toupeira vai transformar-se em montanha.

Por isto há-de ser bom e desejável que o emprego das palavras ditas obscenas afaste o homem ou a mulher de um hábito-massa, para provocar uma reacção individual. A vergonha das palavras e um hábito massa que vai sendo tempo de repudiar.

Não fiquemos, porem, na obscenidade, que o problema da pornografia vai mais longe. Quando um homem é chocado no eu individual, pode revelar-se incapaz de decidir em sua consciência se Rabelais é, ou não, pornográfico. E encurralado por emoções diferentes, pode matar a cabeça no esforço inútil de catalogar Aretino ou mesmo Boccacio.

Lembra-me agora um ensaio sobre a pornografia, onde se chegava na conlusão de que a pornografia, na arte, é uma calculada provocação do desejo ou da excitação sexual. E o problema reduzia-se a isto, a descobrir se o autor ou o artista tivera a intenção de provocar sensações sexuais. Trata-se do velho e tantas vezes debatido problema das intenções, tão estúpido ao sabermos da força e da influencia que existem nas nossas intenções inconscientes. Ignoro por que há-de culpar-se um homem pelas suas intenções ocnscientes, e fazê-lo inocente das intenções inconscientes, quando afinal e mais feito de inconscientes do que conscientes intenções. Eu cá sou o que sou, e de forma nenhuma aquilo que julgo que sou.

Estou em crer, enfim, que achamos a pornografia qualquer coisa reles e desagradável. Para resumir, não gostamos dela. Por quê? Por despertar sensações sexuais?

Não acredito. Por mais esforços que façamos a pretender o contrario, a verdade é que homens, na sua maior parte, apreciamque lhes excitem moderadamente o sexo. É coisa que reconforta estimula como o sol num dia encoberto. Depois de um ou dois séculos de Pritanismo, isto ainda sucede com a maior parte das pessoas. O hábito-massa de condenar todas as formas de sexualidade é, porém, excessivamente forte para deixar que a tomemos por coisa natural. E há, na verdade, muita gente que se horroriza ás mais simples e naturais excitações do sexo. Será gente perversa, de certeza, e que chegou ao ponto de odiar o semelhante: gente frustrada, decepcionada; tanta, infelizmente, na nossa civilização. Que em segredo gosta, quase sempre, das formas complicadas e antinaturais da excitação sexual.

Até mesmo críticos de arte com opiniões avançadas desejariam fazer-nos crer que livro ou quadro sexualmente apelativo é, ipso facto, um livro ou quadro mau. Mas não passa tudo de hipocrisia. Metade dos grandes poemas, quadros, obras musicais e históricas deste mundo tem a grandeza no apelo sexual que fazem. Em Ticiano ou Renoir, no Cântico de Salomão ou na Jane Eyre, em Mozart ou na Annie Laure, a beleza surge impregnada de apelo sexual, de estimulante sexual, como quisermos chamar-lhe. Até Miguel Ângelo, que detestava o sexo, não resistiu a encher de glandes fálicas a sua Cornucópia. O sexo é um fortíssimo, benéfico e necessário estimulante da vida humana, e todos ficamos reconhecidos ao sentir-lhe o quente e genuíno fluxo que em nós penetra como uma espécie de sol.

Abandone-se, pois a idéia de que o apelo sexual é pornografia, na arte. Poderá sê-lo para o austero e sombrio Puritano, mas o sombrio Puritano é doente, doente de corpo e alma. Por que havemos, então, de preocupar-nos com as alucinações que tem? É verdade que o apelo sexual varia, e muito. Surge em mil espécies diferentes, cada qual de mil gradações. Poder-se-á dizer que o apelo sexual não é pornográfico em quantidade pequena, mas passará a sê-lo se auemnta a sua indtensidade. Pura falácia. Os passos mais ousados de Boccacio, considero-os menos pornográficos do que a Pámela ou a Clarisse Harlowe (2), ou mesmo a Jane Eyre;  menos pornográficos do que uma enorme quantidade de livros e filmes modernos que escapam à censura. De igual modo, o Tristão e Isolda de Wagner me parece vizinho da pornografia, tal como certos e muito conehcidos cânticos da Cristandade.

Mas, então, em que ficamos? Não se trata, simplesmente, de apelo sexual; e da parte do autor ou do artista também se não trata de vontade deliberada em provocar excitação sexual. Vontade disso tinha às vezes Rabelais, embora com um carácter diferente. E tenho a certeza de que a pobre Charlotte Brontë, ou a autora de O Xeque(3), não estavam com a menor intenção de provocar no leitor excitações sexuais. Pois assim mesmo acho que a Jane Eyre, roça a pornografia, e Boccacio sempre me pareceu saudável e cheio de frescura.

A rebentar de consternação indignada, o antigo Ministro do Interior britânico (4), que tinha orgulho em ser puritano a sério, e austero, austero até ao tutano, declarou num dos taques explosivos que fez contra os livros reprováveis: -<…e aqueles dois jovens, que até ali preservavam uma pureza sem mácula, depois de lerem o livro tiveram relações sexuais!!!> Ora a isto só podemos responder que é lá com eles,  pareça embora que o sombrio guardião da Moral Britânica julga preferível que se tivessem morto um ao outro, ou esgotado numa grande depressão nervosa. Que doença triste!

Para concluir, o que é pornografia? Não é o apelo sexual nem a excitação sexual na arte. Também não é a intenção deliberada de provocar ou excitar sensações sexuais. Nas sensações sexuais não há mal nenhum se forem francas, nada tiveram de sorrateiro nem dissimulado. No dia a dia humano, a boa excitação sexual é preciosa. Sem ela, o mundo passa a ser sombrio. De bom grado eu entregaria ás mãos de qualquer pessoa os contos galantes do Renascimento, capazes de ajudarem a libertar-nos de uma grande parte da nossa presunção, a nossa doença de civilizados modernos.

Em contrapartida, posso censurar com severidade a verdadeira pornografia. Não é muito difícil. Para começar, a verdadeira pornografia anda quase sempre escondida, não aparece tosto descoberto. Em segundo lugar é reconhecível nos muitos insultos que faz, regra geral, ao sexo e ao espírito humano.

A pornografia tenta insultar o sexo. O que é imperdoável. Consideremos o exemplo mais vulgar dos postais ilustrados vendidos à socapa nos submundos da maior parte das cidades. O que eu vi era tão feio, que até fazia chorar. Insulto ao corpo humano, insulto ao mais vital das relações humanas! Fazendo reles e feia a nudez do homem, feio e degradante o acto sexual, fazendo-o vulgar mau e baixo.

O mesmo acontece aos livros vendidos nesse submundo. Ora feios de pôr uma pessoa doente, ora idiotas, a tal ponto que só cretinos ou simplórios podem lê-los ou escrevê-los, segundo creio.

Outrotanto se passa com os poemas cômicos obscenos que as pessoas costumam dizer depois do jantar, ou as hitórias sujas que ouvimos a caixeiros-viajantes em salões-de-fumo. Acontece às vezes terem graça, o que as desculpa muito, realmente, mas em geral são feias, repugnantes e o seu pretendido <humor> não passa de pretexto para mexer na lama à custa do sexo.

Hoje, a nudez de um grande número de pessoas é realmente feia e degradada, passando-se o mesmo com o acto sexual que também é, na maior parte dos casos, feio e degradante. Motivo para orgulho, nenhum. É a catástrofe da nossa civilização. Não houve civilização, nem sequer a dos Romanos, tenho a certeza, com tamanha quantidade de nudezes ignóbeis e degradadas, uma sexualidade tão feia, tão suja, tão sórdida. Porque nenhuma outra exilou para os submundos o sexo, nem na retrete a nudez.

            Ainda bem que os jovens inteligentes de hoje parecem decididos a modificar estes dois pontos. Libertem a sua jovem nudez das profundezas abafadas, pornográficas e clandestinas dos mais velhos, e a respeito de relações sexuais recusam-se a andar por caminhos ínvios. Claro que a mudança é deplorada pelos autores mais velhos, mas significa, realmente, grande melhoria e uma verdadeira revolução.

É espantoso verificar como a pretexto do sexo as pessoas ordinárias e vulgares que gostam tanto de mexer na lama. Uma das grandes ilusões da minha juventude era julgar que os homens de ar sadio e vulgar, que encontramos no comboio, no salão dos hotéis ou nos pullman, tinham sentimentos saudáveis e, para com o sexo, a sã e brutal atitude de não se ralarem com ele. Que engano! Que engano! Ensina a experiência que este gênero de pessoas tem uma atitude de repulsa perante o sexo, um repugnante desprezo, um repugnante desejo de o insultar. São indivíduos que retiram das relações com uma mulher o sentimento de vitória que é terem-na salpicado de lama, feito mais reles, vulgar e desprezível que antes.

Indivíduos deste gênero é que contam historias sujas, trazem consigo postais indecentes e lêem indecentes livros. Esta é a grande classe pornográfica – um dos homens-e-mulheres-da-rua realmente vulgares. Alimentam um ódio e um desprezo pelo sexo só comparáveis ao do mais austero e puritano e, chamados à baila, armam-se em santos. Eles é que exigem as heroínas de filme formadas em coisas neutras e sem sexo, de uma pureza insonsa. Eles é que exigem as verdadeiras sensações sexuais como apanágio dos baixos apetites do vilão ou da viloa. Eles é que acham um Ticiano ou um Renoir de grande indecência, e não querem que a mulher ou a filha os vejam.

Porquê? Porque tem o mal cinzento do ódio ao sexo, e ao mesmo tempo a doença amarela do vil apetite. As funções sexuais e excremenciais do corpo humano tem relações estreitas mas, por assim dizer, direcções opostas. Enquanto o sexo é fluxo criador, o fluxo excremencial respeita à dissolução, à descriação, se acaso podemos usar esta palavra. A distinção entre ambos é instantânea no ser humano realmente saudável e talvez sejam os nossos instintos mais profundos que distinguem os dois fluxos.

No degenerado ser humano, os instintos profundos já estão mortos e são idênticos os dois fluxos. É este o segredo da gente vulgar e pornográfica: confundir os fluxos do sexo e dos excrementos. E sucede sempre que a psique se altera e os intintos profundos e directores sossobram. O sexo é lama e a lama é sexo, a excitação sexual é transformada em jogo sujo, e na mulher todo o vestígio de sexo se faz testemunho da sua impureza. É esta a condição do homem vulgar, do homem trivial que forma um verdadeiro exército, que ao levantar a voz constitui a vox populi, vox Dei. É esta a origem de toda a pornografia.

            Por isso temos de admitir que a Jane Eyre ou o Tristão de Wagner ficma bastante mais perto da pornografia do que Boccacio. Wagner e Charlotte Brontë estavam ambos naquele estado em que os instintos mais fortes sossobram e o sexo se transforma em qualquer coisa de ligeiramente obsceno, na qual podemos refocliar mas que é preciso evitar. A paixão sesual do Sr. Rochester(5) não é <respeitável> até ao instante em que o Sr. Rochester se queima e fica cego, desfigurado, reduzido a uma dependência total. Só depois de completamente humilhado e humilde pdoe ser aceito. Todas as titilações anteriores são um pouco indecentes, como na Pámela, no Moinho à Beira do Floss(6), ou na Ana Karenine.  Desde que a excitação sexual coexista com um desejo de escarrar no sentimento sexual, de o deixar humilhado e aviltado, aparece a pornografia.

            Por isto mesmo, há um elemento pornográfico em quase toda a literatura do Séc. XIX, e muita gente a que chamam pura tem um lado pornográfico, e o apetite pornográfico nunca foi tão

            Forte como nos nossos dias. É sintoma de doença do corpo político (7). E a forma de a tratar é trazer a pleno dia o sexo e a excitação sexual. No fundo, o verdadeiro pornografo detesta Boccacio porque a saudável e fresca naturalidade do contista italiano faz com que o pornógrafo, aborto moderno, se veja sob a forma do verme nojento que é. Nos nossos dias, Boccacio devia ser lido livremente por todos, novos e velhos. Só uma saudável e natural franqueza para com o sexo nos fará bem, a nós que andamos agora submersos em dissimulada ou semi-dissimulada pornografia. Talvez Boccacio, Lasca (8) e outros ocntistas do Renascimento constituam o melhor antídoto que actualmente podemos encontrar, e os emplastros do Puritanimos sejam os mais perigosos remédios a que podemos recorrer.

O problema da pornografia parece-me, todo ele, um problema de dissimulação. Sem dissimulação não chegaria a haver pornografia. Mas dissimulação e pudor são duas coisas totalmente opostas. Na dissimulação há sempre um elemento de temor que muitas vezes atinge o ódio. O pudor é suave e reservado. Hoje, o pudor foi atirado às urtigas, nas barbas dos guardiães cinzentos. Em si própria um vício, a dissimulação é todavia encorajada. E os homenzinhos cinzentos dizem assim: Queridas meninas, podem deitar fora o pudor desde que guardem convosco o segredinho reles.

Este <segredinho reles> tornou-se infinitamente precioso às massas de hoje. É uma espécie de doença ou inflamação escondida que, ao ser esfregada ou coçada, provoca fogosos arrepios e é uma verdadeira delícia. Cada vez se esfrega e coça mais o segredinhos reles, e ele fica então muito irritado, ao ponto de abalar cada vez mais a saúde nervosa e psíquica do indivíduo. Não é difícil afirmar que metade dos romances e filmes de amor actuais tem o sucesso dependente da forma como esfrega, às escondidas, o segredinho reles. Se quisermos, podemos chamar-lhe excitação sexual; seja embora excitação secreta, oculta e de natureza muito especial. A excitação pura e simples, totalmente franca e saudável, que certos contos de Boccacio provocam, nem por um segundo devemos confundi-la com a excitação furtiva dos best-sellers actuais, provocada pela irritação sub-reptícia do tal segredinho reles. Furtivo, sorrateiro e ardiloso esfregaço de um inflamado ponto da imaginação, que além de má e bem perigosa coisa constitui o verdadeiro nervo da pornografia moderna. Não é fácil denunciá-lo pelo carácter fugidio que tem, pela sua sorrateira destreza. Fáceis e populares, como são, o romance de amor e o filme de amor actuais, prosperam e chegam a conquistar o elogio dos guardiães da moral ao provocarem por baixo da roupa imaculada que vestimos, e sem nos levar a dizer uma palavra grosseira, que seja, capaz de trair aquilo que se passa, o tal dissimulado e muito inconveniente arrepio.

Sem dissimulação não haverá pornografia. Mas se resulta de sub-reptícia dissimulação, que resultado a pornografia tem? Como actua no indivíduo?

É acção que assume formas várias e perniciosas, todas. Uma delas, talvez inevitável. A actual pornografia, seja das resvistas teatrais, é invariável estimulante do vicio de quem abusa de si próprio, mastrbação, onanismo, demos-lhe o nme que quisermos. Em jovens ou velhos, homens e mulheres, rapazes ou raparigas, a actual pornografia é estimulante directo da masturbação. E de outro modo não poderia ser. Quando lamentam que um rapaz e uma rapariga tenham cedido a relações sexuais, os homenzinhos cinzentos estão a deplorar que eles não tenham preferido a masturbação individual. O sexo, em especial nos jovens, deve ter um lugar próprio. E a civilização gloriosa em que vivemos entrou-o no onanismo. Toda a nossa literatura popular, a maior parte dos nossos divertimentos populares, só existe para levar à masturbação. A masturbação é o acto mais secreto do ser humano, ainda mais secreto do que defecar. É o resultado funcional do sexo oculto, estimulado e provocado pela nossa gloriosa literatura popular de pornografia amável, que não dá a entender o que se pensa mas irrita o segredinho reles.

Sucede, porém, que já ouvi homens, professores e pastores, preconizarem a masturbação para solucionar o problema do sexo,

De outra forma insolúvel. É, pelo menos, honesto. O problema do sexo existe, e prua e simplesmente não é possível livramos-nos dele. Existe excomungado em dissimulação e tabus de mães e pais, professores, amigos e adversário, acabando por encontrar a sua própria solução, a solução do onanismo.

Mas o que se passa com a tal solução? Aceitamo-la? É aceita por todos os homenzinhos cinzentos desse mundo? Que o mostrem claramente, se assim for. Ninguém pode ignorar mais o tempo que a masturbação existe entre jovens e velhos, entre homens e mulheres. Os guardiaes da moral, prontos a censurar toda a franca e simples representação do sexo, devem ser obrigados a dar a única explicação que têm: preferimos que as pessoas se masturbem. Desde que franca e explícita preferência, ficam justificadas as existentes formas de censura. Se os guardiães da moral preferirem que as pessoas se masturbem, será então correcta a atitude que tem, e os divertimentos populares são aqueles que devem ser? Se as relações sexuais constituem um pecado mortal e a masturbação é, afinal, relativamente pura e relativamente inofensiva, então está tudo bem. Deixemos as coisas como estão.

Mas será realmente inofensiva, a masturbação? Será, sequer relativamente pura e inofensiva? Ao que julgo, não. Nos jovens é inevitável alguma prática masturbatória, mas isto não a torna natural. Não há rapaz nem rapariga que se masturbe sem sentir, julgo eu, uma sensação de vergonha, cólera, inutilidade. À excitação segue vergonha, cólera, humilhação e consciência de inutilidade. Com o tempo esta sensação de inutilidade e vexame acaba por transformar-se em furor contido, por ser impossível escapar-lhe. Ao que parece, masturbação é mesmo único hábito que se não pode vencer depois de adquirido. Vai por ali fora ate a velhice, haja embora o casamento, ligações amorosas, o que quisermos. Levando sempre à íntima consciência de inutilidade e vergonha; de goso cancro da nossa civilização. EM vez de vicio relativamente puro e inofensivo, é com certeza o mais perigoso vicio sexual que pode, a longo prazo, interferir numa sociedade. Relativamente puro, talvez – sendo a pureza o que é. Mas inofensivo!!!

O grande perigo da masturbação está, muito simplesmente, na sua exaustiva natureza. Nas relações sexuais há uma troca.

Um novo estímulo vai ocupar o lugar de um estimulo anterior. É assim em toda a relação de sexo onde intervêm duas pessoas, mesmo na homossexual. Na masturbação, porém, só existe perda. Sem reciprocidade. Só há dispêndio de alguma energia, sem compensação. Em certo sentido, depois de um acto de onanismo o corpo é cadáver. Não há troca: há morte, simplesmente. Aquilo a que se chama a perda <a seco> e não existe nas relações com duas pessoas. Duas pessoas podem destruir-se mutuamente pelo sexo, o que não há é o efeito nulo da masturbação.

Na masturbação, efeito positivo só um, que é libertar nalgumas pessoas, segundo parece, uma energia mental. Mas energia mental de efeitos sempre iguais, um circulo vicioso de analise e crítica impotente, ou de compaixão falsa e fácil, de sentimentalismos. Na maior parte da literatura actual, o sentimentalismo e a fútil analise muitas vezes a auto-analise, são indícios de masturbação. É a manifestação de onanismo, uma espécie de actividade consciente estimulada pela masturbação masculina ou feminina. O traço dominante de uma consciência destas é a ausência de real objetivo, existindo apenas o tema. O mesmo se passa com um romance ou uma obra científica: o autor não sai nunca de si próprio, vai enchendo espaço sem sair do círculo vicioso de si próprio. A um escritor contemporâneo é difícil sair do círculo vicioso de si próprio – e a um pintor também. Daqui a ausência de criação e a espantosa amplitude da produção. É tudo efeito do onanismo dentro do círculo vicioso do eu. É a auto-absorção tornada pública.

            Claro que é exaustivo, o processo. A verdadeira masturbação dos Ingleses só começa no Séc. XIX. Segue-lhe o esgotamento progressivo da verdadeira vitalidade e do verdadeiro ser do homem, até não passar de uma casca de homem. A maior parte dos seus impulsos morre, a maior parte da sua consciência morre e também a maior parte da sua actividade construtiva, ficando apenas uma espécie de casca, uma criatura meio vazia e fatalmente preocupada consigo própria, incapaz de dar ou receber. Incapaz de dar ou receber na parte mais vital de si própria. E é isto resultado da masturbação. Ficar fechado no círculo vicioso do eu, sem contactos exteriores e vitais, bem mais parecido com uma nulidade, um nada.

Em nulidade ou nada se transforme, ainda assim há-de apoiar-se no segredinho reles que continua a coçar e a inflamar muito em segredo. O eterno círculo vicioso. Que possui uma estranha e cega determinação que lhe e própria.

Um dos meus críticos mais simpáticos escrever: -<Se adoptassemos a atitude do Sr. Lawrence para com o sexo, duas coisas desapareceriam: o poema lírico e as historietas de café.> Também acho que sim, mas depende daquilo que temos por poema lírico. Se for o Quem e Sylvia, quem é?, pois acho muito bem que desapareça. Toda esta pura, nobre e lacrimosa bagatela não passa de replica a uma historieta de café. Du bist wie weine Blume!(9) Jawohl! Não se está mesmo a ver o velho senhor, com as mãos postas na cabeça da rapariga sem mácula pedindo a Deus que a mantenha assim tão pura, tão limpa e tão bela? Fica-lhe muito bem! Mas pornográfico também e! Fazer cócegas ao segredinho reles com o olhar posto no céu! Prolongue Deus por alguns anos essa limpidez, essa pureza, essa beleza – no mais vulgar sentido que limpidez e pureza têm – e o tal senhor está farto de saber que ele irá transformar-se numa triste solteirona nem pura, nem bela, apenas ressequida e muito lastimável. O sentimentalismo é seguro indicio de pornografia. Por que há-de o velho senhor sentir o coração <tomado de tristeza> por aquela virgem pura e bela? Qualquer outro, não masturbador, haveria de sentir-se satisfeito e pensar: <Felizardo o que a tiver por noiva!> Mas o masturbador, o pornógrafo fechado dentro de si próprio, não: esse tem de sentir que a tristeza lhe tom ao diabo de coração! – Nada de poemas líricos assim, que já estamos fartos de provar o seu veneno pornográfico, já fizemos demasiadas cócegas ao segredinho reles e pusemos os olhos em alvo. 

No entanto, se em causa estiver um saudável poema lírico, O meu amor é como a rosa, uma vermelha rosa(10), então a coisa é diferente. Só pode parecer rosa vermelha, o meu amor, se a rapariga não tiver uma pureza de lírio. Alias, nos tempos que correm os lírios puros estão a apodrecer todos. Fora com eles, mais os poemas falam deles. Fora com os lirismos sobre lírios puros e com as historietas de café. Não passa tudo da mesma coisa, é tudo igualmente pornográfico. Na verdade, Du bist wie eine Blume é tão pornográfico como uma historieta suja: faz cócegas ao segredinho reles e põe os olhos em alvo. Bastava, porém, que tivessem aceito Robert Burns pelo que era, para o amor poder continuar a ser uma vermelha, muita vermelha, rosa.

O tal círculo vicioso, o tal círculo vicioso! O círculo vicioso da masturbação! O círculo vicioso da consciência de si próprio, que nunca chega a ter toda a consciência de si próprio, nunca é aberta e totalmente consciente mas está sempre a coçar o segredinho reles. O círculo vicioso do sigilo dos pais, professores, amigos – de todos. Em especial, o círculo vicioso da família. A grande conspiração de sigilo nos jornais, e ao mesmo tempo a contínua excitação feita ao segredinho reles. A eterna masturbação! E a eterna pureza! O círculo vicioso!

Como sair dele? Só há um modo: acabar com o segredo! Nada de sigilos! A única forma de pôr fim à terrível sarna mental do sexo, e a mais natural, a mais simples possível, é trazê-la à luz do dia. Coisa terrivelmente difícil porque o segredo tem astúcia  de caranguejo. Mas há que tentá-lo. O homem que diz à irritante da filha: – <Minha querida, prazer que me tenhas dado, só o que senti ao fazer-te>, já contribuiu muito para se libertar, ele próprio e libertá-la, a ela, do segredinho reles.

Como poderá a gente livrar-se do segredinho reles? Para nós, reservados homens de hoje, é realmente muito difícil. Não chegamos lá se o tratarmos como a Dra. Marie Stopes (11), de uma forma razoável e cientifica; ainda que mais valha ser razoável e científico, como a Dra. Marie Stopes, do que assumir a rematada hipocrisia dos homenzinhos cinzentos. No entanto, ser razoável, científico e dotado de séria boa vontade só nos faz correr o risco de desinfectar um pouco o segredinho reles; por excesso de inteligência e seriedade podemos mesmo assassinar o sexo, ou deixá-lo no seu estado miserável e desinfectado segredo.  Tão triste <livre e puro> amor de tantos que puseram à mostra o segredinho reles, e o desinfectaram cuidadosamente com palavras cientificas, tende a ser o mais desgraçado ainda do que esse banal amor-segredinho-reles. O perigo esta em matar o segredinho reles e, com ele, o dinamismo sexual, poupando-lhe apenas o cientifico e voluntário mecanismo.

            Sucede isto a muitas pessoas que a respeito de sexo adoptaram uma <livre>, livre e pura, atitude. Intelectualizaram o sexo até acabar com ele, acabar com ele e transformá-lo numa qualidade mental. O que termina, sempre, em desastre.

            O mesmo se passa com boa parte dos emancipados boêmios. Muito jovem boêmio de hoje, tenha ou não andado alguma vez na Boémia, é <sexualmente livre>. Para nenhum deles, homem ou mulher, o segredinho reles constitui segredo. A questão é realmente posta à luz do dia com a maior abertura. Não há nada que não digam: tudo o que é possível revelar, revelam. Fazem aquilo que lhes da na gana.

            E depois? Se na aparência mataram o segredinho reles, verdade e que o resto também se foi. E alguma lama sobra, talvez; o sexo continua sujo. O que já não existe é a emoção do segredo. Daqui o terrível tédio e o marasmo de tantos jovens de hoje. Convencidos de que mataram o segredinho reles. Sumiu-se a emoção do segredo, mas parte do seu carácter reles resiste. E com ele a depressão, a inércia, a ausência de vida. Porque o sexo é fonte da nossa energia vital, e essa fonte deixou de correr.

Porquê? Por duas razoes. Os idealistas da tendência Marie Stopes, e os jovens boêmios actuais, mataram o segredinho reles em tudo o que respeita à sua individualidade. Mas socialmente continua a dominá-los. No mundo social, da imprensa à literatura, ao cinema, ao teatro ou mesmo à radio, a pureza e o segredinho reles mantêm o domínio absoluto. E o mesmo sucede em casa, à mesa das refeições. É sempre a mesma coisa, aonde quer que a gente vá. Por tácito acordo, menina e rapariga são consideradas puras, virgens, assexuadas. Du bist wie weine Blume. Bem sabem as pobres pequenas que as flores, lírio incluído, dispõem de amarelas e sequiosas armações, de um estigma viscoso, sexo, um enroscado sexo. No espírito das massas, porém, as flores são coisas sem sexo, e dizer à rapariga que ela parece uma flor é dizer-lhe que não tem sexo e assim mesmo deve ser. Mas ela bem sabe que não é assexuada nem se parece nada com uma flor. Como enfrentar a grande mentira social que lhe impõe? Não pode fazê-lo! É vencida e o triunfo vai todo par ao segredinho reles. Torna-se indiferente ao sexo, em tudo o que respeite aos homens, fechando mais estreitamente à sua volta o círculo vicioso da masturbação da consciência individual.

            Este é um desastre vulgar na vida dos jovens de hoje. Muitos jovens de hoje, talvez a sua maior parte, já trouxeram pessoalmente à luz do dia o problema do sexo, e puseram um grão de sal debaixo do rabo do segredinho reles. E coisa excelente será. Mas em público, em sociedade, continuam totalmente à sombra dos velhos e cinzentos homenzinhos. Dos velhos e cinzentos homenzinhos que são todos do século passado, o século dos eunucos, o século dos falinhas mansas, o século que tentou destruir a humanidade, o século XIX. Os nossos homenzinhos cinzentos são relíquias desse século, todos eles. E governam-nos. Andam a governar-nos com cinzentas, sonsas e hipócritas mentiras desse grande século de mentirosos que já deixamos, graças à Deus, para trás. Mas lá com a mentira continuam eles a governar-nos, pela mentira, em nome da mentira. E têm muito peso e são muitos, os homenzinhos cinzentos. Pouco importa o gênero de governo que temos. Há-de ser de homenzinhos cinzentos, relíquias do século passado, século dos mentirosos de falinhas mansas, da pureza e do segredinho reles.

            Esta a razão primeira da depressão, dos jovens: o reino confessado da mentira de falinhas mansas, da pureza e do segredinho reles que eles próprios, naquilo que lhes diz respeito, destruíram. Mas destruindo na suas vidas privadas boa parte da mentira, os jovens ficam, ainda assim, retidos e encurralados na grande mentira pública dessa gentinha cinzenta. Daqui o excesso, a extravagância, a histeria, por isso a fraqueza, a estupidez lamentável da juventude actual. Toda numa espécie de prisão, prisão de uma grande mentira e de uma sociedade de velhos mentirosos. E será este um motivo, talvez o maior, do fluxo sexual morrer entre os jovens. E morrer com ele a verdadeira energia. Jovens que ficaram presos numa mentira que não deixa o sexo exteriorizar-se. Mas

            A duração de uma mentira não ultrapassa nunca três gerações, e estes jovens já são a quarta geração da mentira oitocentista.

            A segunda razão por que morreu o fluxo sexual é os jovens, emancipados que estejam, ainda se encontrarem presos ao circulo vicioso de uma consciente masturbação. Mesmo que tentem fugir dele, são retidos pela barreira da enorme e pública mentira da pureza e do segredinho reles. Mesmo os boêmios mais emancipados, os que mais gabarolas são a respeito do sexo, continuam conscientes e aprisionados no circulo da masturbação narcisa. E talvez pratiquem menos sexo do que os homenzinho cinzentos. Porque o esexo foi aquartelar-se na cabeça deles, e nem a saída secreta do segredinho reles agora têm. Ficaram com um sexo ainda mais mentalizado do que a sua aritmética; e seres físicos e vitais que são, menos realidade têm do que fantasmas. Realmente, o actual boêmio é uma espécie de fantasma nem sequer narciso, só imagem de um narciso que reflecte no rosto do público. Custa muito a matar, o segredinho reles. Mais de mil vezes podemos condená-lo, e em público, que asism mesmo voltará a aparecer como o caranguejo que tinha ido meter-se nos rochedos submersos da personalidade. Os Franceses, que supomos tão abertos às coisas do sexo, talvez sejam os últimos a matar o segredinho reles. É mesmo possível que nem queiram fazê-lo, não baste embora andar a mostrá-lo ao grande público.

            Podemos fazer à nossa volta uma exibição de sexo, que não matamos com isso o segredinho reles. Podemos ler os romances de Marcel Proust, onde tudo é exposto com imenso pormenor, que assim mesmo não ficará morto o segredinho reles. Quem sabe lá se não fica mais manhoso. Corre-se é o risco de alimentar uma situação de completa indiferença e de inércia sexual; tudo isto sem conseguirmos dar cabo do segredinho reles. Sem conseguirmos dar cabo do segredinho reles. Sem conseguirmos que o mais faceto e apaixonado donjuanzinho dos modernos tempos não conserve o segredinho reles bem trancado no fundo do espírito. Quer isto dizer que ficamos pelo círculo da masturbação, pelo círculo vicioso do auto-cativeiro. E sempre que aparece este circulo, no meio lá esta o segredinho reles. Os jovens que se vangloriam de emancipação sexual talvez sejam quem mais fatal e nevroticamente se enreda na masturbação auto-cativeiro. E sem desejarem sair dela, pois nada teriam para pôr cá fora.

Mas pessoas haverá, sem dúvida, que desejam sair desse horrível auto cativeiro. A bem dizer, hoje em dia são todos conscientes e prisioneiros da consciência de si próprios. É o lindo resultado do segredinho reles. Grande parte das pessoas não quer sair da prisão da consciência de si próprias, pois bem pouco iriam conseguir através disso. Mas outras há, por certo, desejosas de fugir à fatalidade do auto-cativeiro que é fatalidade da nossa civilização. Por certo há a minoria esplêndida, que deseja libertar-se, e de vez, do segredinho reles.

            Antes de mais, forma de lá chegar é travar luta onde quer que estejam contra a sentimental mentira da pureza e do segredinho reles; Dentro ou fora, no mundo exterior. Lutar contra a grande mentira do Séc. XIX que nos encharca até ao sexo, até ao osso. E lutar quase sempre, porque se trata de mentira ubíqua.

A seguir, nossa aventura da consciência de si próprio, deve um homem achar os seus limites e ficar a conhecer mais qualquer coisa que fica situada para além dele. Um homem deve ter a consciência necessária para conhecer os seus próprios limites e pressentir a existência de algo que o ultrapassa. Aquilo que consegue ultrapassar-me é o impulso da vida no interior de mim próprio, vida que me obriga a esquecer de mim próprio e ceder ao violento, mas só meio consumado, impulso que me leva a destruir a grande mentira do mundo e a criar um novo mundo. Se a minha vida deve apenas restringir-se ao círculo vicioso do auto-cativeiro e da masturbadora consciência de si próprio, para mim há-de ter pouco valor. Se a minha vida pessoal tem de ser fechada na imensa e vil mentira da sociedade de hoje, na pureza e no segredinho reles, não apresentará a meus olhos, então grande valor. A liberdade é um dom enorme. Mas quer dizer, sobretudo, libertação da mentira. Acima de tudo é libertação do eu, da mentira do eu, da mentira da imporante ascendência do eu. É libertação da masturbadora auto-consciente coisa que sou, em auto-cativeiro. E a seguir libertação da grande mentira do mundo social, a mentira da pureza e do segredinho reles. As restantes e monstruosas mentiras escondem-se atrás da máscara desta grande mentira original. A monstruosa mentira do dinheiro esconde-se na máscara da pureza. Mate-se a mentira-pureza e logo a mentira-dinheiro será desarmada.

            Devemos ter consciência, consciência de nós próprios bastante, para conhecer que limites nos definem e sentir dentro, e para lá de nós, um mais forte impulso. Nessa altura deixamos de ter em nós próprios o centor principal. Aprendemos a deixar que nos levem aos centros de afectividade, a não forçar os nossos sentimentos, a não forçar o nosso sexo. Podemos tomar de assalto a mentira exterior, vencida que esta a interior. E é isto a liberdade, a luta pela liberdade.

            A maior mentira do mundo moderno e a mentira da pureza e do segredinho reles. Relíquias do Séc XIX, os homens cinzentos personificam-na. Por todo o lado dominam a sociedade, a imprensa, a literatura. E natural será que arrastem consigo a massa do grande público.

            O que significa, como é óbvio, censura perpetua a quanto possa combater a mentira da pureza e do segredinho reles, e perpetuo incitamento a tudo quanto pode chamar-se pornografia autorizada, a pornografia pura que faz cócegas ao segredinho reles atrás de roupa interior imaculada. Os homenzinhos cinzentos não deixarão de aprovar e louvar dilúvios de evasiva pornografia, proibindo uma só, que seja, palavra franca.

            A lei é ficção e mais nada. Num artigo sobre a censura dos livros que Viscount Brentford, antigo Ministro do Interior, escreveu no Nineteenth Century, declara-se: <Não devemos esquecer que a publicação de um livro obsceno e a venda de um postal-ilustrado ou uma fotografia obscenos são ofensas às leis do nosso país, e daí que o ministro representante da manutenção da ordem e da lei não possa, no exercício das suas funções estabelecer diferença entre aqueles delitos.>

            O assunto arruma-se ex cathedra e infalivelmente. No entanto, dez linhas acima o ministro tinha escrito: < Levada à sua conclusão lógica, admito que a lei poderia fazer objecto de intervenções persecutórias a publicação de livros como o Decameron, a Vida de Benvenuto Cellini e As Mil e Uma Noites de Burton. No entanto, a ultima sanção de qualquer lei é a opinião pública, e não acredito num só instante que perseguiçoes judiciais a livros há muito existentes no mercado tivessem aprovação do público.>

            Viva, pois, a opinião pública! E só há que aguardar a passagem de alguns anos. Bem visível será, no entanto, que o ministro estabelece de forma clara e precisa a diferença entre os dois delitos, no exercício das suas funções. Para ele, simples e assumida diferença! Mas isso de opinião pública o que é? Mais umas tantas mentiras dos homenzinhos cinzentos. Proibiriam amanha Benvenuto Cellini se tivessem coragem para tanto. O que não deixariam era de ser ridículos, porque a tradição apóia Benvenuto. Ora o que tem isto a ver com a opinião pública? Sucede apenas que os homenzinhos cinzentos receiam cobrir-se, mais ainda, de ridículo (12). O caso é muito simples, no entanto, Se os homenzinhos cinzentos forem apoiados pelo grande público, cada novo livro que apareça a desfazer a mentirinha mansa do Séc XIX será proibido, mal entre no mercado. Mas a gentinha cinzenta que desconfie. O grande público de hoje e uma coisa variável e não vai tanto como isso nos homenzinhos cinzentos e nas suas velhas mentiras. Alem do mais há outro público, o pequeno público da minoria que não pode com a mentira nem com os homenzinhos cinzentos que a perpetuam; que tem suas e dinâmicas idéias sobre pornografia e obscenidade. As pessoas não podem ser eternamente enganadas, mesmo à custa de pureza e segredinho reles.

            Ora o público minoritário bem sabe que há livros de muito escritor contemporâneo, desde os maiores até à arraia-miúda, que mais pornografia tem do que as brejeríssimas historias do Decameron: porquefazem cócegasao segredinho reles, incitam à masturbação individual, e o saudoso Boccacio nunca o faz. Além disso, o público da minoria sabe, e sabe muito bem,, que as mais obscenas pinturas dos vasos gregos (<Tu, esposa tranqüila, que ainda não foste violada>) não tem pornografia comparável à dos beijos cinematográficos em grande-plano, beijos que incitam homens e mulheres à masturbação escondida.

 

Talvez um dia o grande-público sinta vontade de olhar as coisas de frente e descobrir por si próprio que diferença há entre a masturbação pornográfica da imprensa, do cinema, da literatura popular actual, tão dissimulada, e a criadora pintura de impulsos sexuais em Boccacio, nas pinturas dos vasos gregos ou na arte de Pompéia, tão necessária à formação da nossa consciência.

            De momento, o actual público esta derrotado, com uma perturbação que roça, quase a idiotia. Quando a polícia ataca de surpresa a minha exposição de pintura, nem sabe a que obras deve deitar a mão (13). Por isso apreende todos os quadros que mostram uma nesga de órgão sexual masculino ou feminino, sem prestar a menor atenção ao tema, ao significado, ao que quer que seja. Numa exposição, estes agentes da polícia tão delicados permitem tudo menos a exibição autentica de um fragmento de pudenda humana.Tratou-se de uma experiência policial. Na maior parte dos casos estampar um selo (dos verdes, principalmente, que podem passar por folha de parra) teria chegado e sobrado para satisfazer a <opinião pública>.

            Trata-se de um estado de idiota, podemos repeti-lo. E se a mentira pureza-com-segredinho-reles se prolongar por mais tempo, a sociedade far-se-á no seu conjunto verdadeiramente idiota ou, o que é pior, perigosamente idiota. Porque o público e feito de indivíduos. E cada indivíduo tem um sexo, e centra-se em redor do sexo. Se à custa da pureza e segredinho reles levarmos os indivíduos a um auto-cativeiro da masturbação, e deixarmos que por ai se fiquem, acabaremos em provocar um estado geral de idiotia. Porque o auto-cativeiro da masturbação fabrica idiotas. Ora a sermos idiotas, todos, quem sabe se deixamos de poder saber que o somos. E disto, que Deus nos livre.

 

 (1) Spit (escarrar) é, na verdade, uma possível rima de shit (merda); e quanto a farce (farsa) rima, provavelmente, com arse (cu). (Nota do T.)

(2) Romances de Samuel Richardson. A violação de Clarisse pelos saltimbancos da estrada foi, durante muito tempo, considerada um grnade <arrojo> da literatura inglesa. (Nota do T.)

(3) Uma droga melosa de Edith McHull, que se encaixou no mito de Rudolfo Valentino e é verificável na edição em português (e no português) da Editoria Minerva. (Nota do T.)

(4) Ver na nota introdutória a referência a este ministro que se chamou Brentford. (Nota do T.)

(5) Lembra-se o leitor, por certo, que é a principal personagem masculina de Jane Eyre. (Nota do T.)

(6) O Romance de George Eliot, mais conhecido em Portugal por O Moinho à Beira do Rio (Portugália); embora a primeira tradução, da Inquérito, se chamasse O Moinho à Beira do Floss. (Nota do T.)

(7) No original politic body. (Nota do T.)

(8) Il Lasca é nome que em geral designa Anton Francesco Grazzini, escritor da Itália quinhentista. Lawrence traduziu-o. (Nota do T.)

(9) É um poema de Heine, bastante conhecido através de uma canção de Schumann. (Nota do T.)

(10) Canção escocesa de Robert Burns. (Nota do T.)

(11) Médica que escreveu, de uma forma considerada chocante, sobre os problemas do sexo. Propôs á Inglaterra do princípio do século que falasse do sexo como qualquer outra função humana. (Nota do T.)

(12) Lawrence ignorava o atrevimento de outras polícias – como por exemplo a portuguesa. O peso cultural de um autor nunca foi coisa que amedrontasse a Censura portuguesa. Verifique-se, em Livros Proibidos  no Regime Fascista, pela Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista, que em Portugal chegaram a ser apreendidos Baudelaire, Boccacio, De Foe, Gogol (O inspetor Geral), La Fontaine (Contes), Ovídio, Suetonio e… (pasme-se!) Madame Bovary de Gustave Flaubert e Uma Vida, de Guy de Maupassant. (Nota do T.)

(13) Ver a nota introdutória. (Nota do T.)

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