Provérbios do Inferno de William Blake (1757-1827). Problematização e antídoto ao ressentimento moderno.

Enquanto caminhava entre as chamas do Inferno, deliciado com os prazeres do Gênio, que os Anjos tomam por tormento e loucura, recolhi alguns de seus Provérbios, pensando que, assim como os adágios de uma nação expressam seu caráter, os Provérbios do Inferno revelam a natureza da sabedoria Infernal melhor que qualquer descrição de edifícios e vestuário.
W.B

Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos.

Aquele que deseja e não age engendra a peste.

O verme perdoa o arado que o corta.

Imerge no rio aquele que a água ama.

Um cadáver não revida agravos.

O manto do orgulho, a vergonha.

Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A raposa culpa o ardil, não a si mesma.

O que agora se prova outrora foi imaginário.

A cisterna contém: a fonte transborda.

Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.

Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha.

De manhã, pensa. Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme.

Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.

Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Da água estagnada espera veneno.

Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais que suficiente.

O fraco em coragem é forte em astúcia.

A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão ao cavalo como apanhar sua presa.

Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus ovos, o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova.

Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.

Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.

A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia.

Suficiente! ou Demasiado.

Dica do L.S

Blake e um homem chamado Ninguém
Tendo como cenário o Velho Oeste, Jim Jarmusch dignifica o cinema contemporâneo com mais uma obra-prima, Dead Man. Entre outras coisas, principalmente a trilha sonora e o preto-e-branco, o filme surpreende pelo insólito encontro entre um índio chamado Ninguém, (Gary Farmer), e William Blake, (Johnny Depp), homônimo do poeta visionário inglês, o autor de Provérbios do Inferno. Sem cair na fantasia pela fantasia, o filme é francamente imaginário desde a seqüência inicial, que é uma verdadeira lição de cinema. Imaginário ao contrapor tempos e culturas díspares por meio de uma sensibilidade apurada ao refletir com solidez os mistérios entre a vida e a morte. Neste sentido, em sua continuidade o argumento não deixa de costurar o que é aparentemente descontínuo, os atos de viver e de morrer.Antes das cenas de Dead Man uma citação de Henri Michaux sacode o esqueleto do espectador: “É preferível não viajar com um homem morto”. Bem vivo ainda, o personagem também se inquieta com a sucessão da paisagem à janela do trem, que vai do bucólico ao dramático e, sobretudo, quando um estranho passageiro, como se fosse um oráculo, começa a sugerir que a sua vida, ou seja, a sua morte, é iminente. William Blake praticamente não tem passado ou não viveu ainda, ou foi preciso que esquecesse algumas coisas para poder ter um barco, o barco que terá pelas mãos e pelo credo indígena de Ninguém, conduzindo-o ao ritual da morte, a lugar de onde veio na confluência do rio e do mar. Com estas imagens iniciais e finais, William Blake é acossado pelo desconcertante e pela inevitabilidade. Alguns críticos de cinema viram nesta figura do fim voltando ao começo uma evocação a Andrei Tarkovski.Depois de chegar aos confins do Oeste, e tendo gasto todo o dinheiro com a passagem, William Blake é expulso da firma pela qual acreditava, através de uma carta, ter obtido o emprego de contador. É assim que tudo se precipita. Ao vagar pela cidade obscura encontra uma ex-prostituta, agora fazedora de flores de papel. Em seu quarto desenrola-se uma das cenas mais belas do filme com o idílio entre ambos, porém interferido pelo duplo assassinato, dela por seu amante pistoleiro e deste por William Blake. Vendo-se em situação proscrita, ele foge da cidade e é encontrado por Ninguém, que procura curá-lo do ferimento no peito provocado pela bala que atravessou o corpo da fazedora de flores. O pele-vermelha Ninguém logo percebe que nada pode fazer, reconhecendo-o como o próprio poeta inglês William Blake com um de seus versos que lhe vem à mente: “Há os que nascem para a alegria e há os que nascem para a noite fria”.A partir deste m omento, Ninguém se transforma em guia espiritual de William Blake. Como se fosse um Virgílio primitivo, o conduz pelos meandros da vida sendo arrastada para a morte. Com energias naturais e ancestrais, exerce proteção sobre ele, reconduzindo-o ao plano espiritual perdido. Diante da perseguição e da perfídia dos homens brancos, Ninguém exclama versos do poeta William Blake: “Nunca a águia perdeu tanto tempo quando quis aprender com o corvo”, e, com o personagem homônimo em suas forças exauridas: “Levanta-te, passe o arado sobre os cadáveres”. Nas entrevistas concedidas por Jim Jarmusch, que levou seis meses para terminar o roteiro, ele nunca deu uma explicação satisfatória por ter incluído William Blake no argumento. E nem precisava. O conteúdo imaginário do filme, que não deixa de lembrar o poeta inglês ao afirmar “tudo o que outrora foi imaginação, hoje é realidade”, permite inclusões deste tipo. A inda mais quando, ao pesquisar a história dos nativos norte-americanos, ficou com a impressão de que os provérbios de William Blake faziam parte da vida anímica dos indígenas. Essa associação inusitada, incluindo o papel do pele-vermelha pensador protagonizado por Gary Farmer (ele mesmo nativo ativista), mais a trilha sonora composta por Neil Yong, fazem de Dead Man um filme antológico

Recolhido de http://jayroschmidt.com.br/cinema/blake-e-um-homem-chamado-ninguem/

Leia também uma análise de DEAD MAN no escrito de Maria Rita Kehl. Desejo e Liberdade. A Estética do Ressentimento. In Giovanna Bartucci (org.). Psicanálise, Cinema e Estéticas de Subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

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